“Em uma sociedade patriarcal, é inconcebível deixar o sexo masculino.”

Emmanuel Beaubatie, sociólogo do Instituto Nacional de Estudos Demográficos (INED), decifra as fontes e manifestações das violências transfóbicas.

Como definir a transfobia?

De um ponto de vista sociológico, prefiro usar o termo “cissexismo”. Esse termo ajuda a mostrar que não há um medo irracional e individual das pessoas trans, mas das violências ligadas ao gênero, que estruturam a sociedade em seu conjunto.

Quais são suas causas?

As discriminações e violências contra as pessoas trans têm o mesmo fundamento das discriminações e violências contra as mulheres: a ordem do gênero, que produz, diferencia e hierarquiza homens e mulheres. Em uma sociedade patriarcal, o fato de que se pode deixar o sexo masculino para se tornar uma mulher é inconcebível, embora isso fascine. Além disso, pretender tornar-se homem quando lhe é atribuído o sexo feminino constitui uma promoção proibida. Se a mudança de sexo é impensável, é porque as trajetórias trans perturbam a ordem do gênero.

Essas violências também são baseadas em vários estereótipos…

A maioria desses estereótipos de gênero carrega consigo a marca do sexismo. Aliás, sabemos que mulheres trans são mais vítimas de violências do que homens trans. Isso ocorre em parte porque elas são mais conhecidas socialmente do que os homens trans, pois foram medicalizadas muito mais cedo [no começo do século XX]. Mas é também, e sobretudo, porque são mulheres. Apesar disso, há representações específicas de mulheres trans. Elas são frequentemente representadas como hipersexualizadas: é a figura midiática da criatura de cabaré dos anos 1960 ou a figura da trabalhadora do sexo do Bois de Boulogne, muito midiatizada nos anos 1980. Por outro lado, esses estereótipos não resumem em nada a violência sofrida por pessoas trans no cotidiano.

Como é a transfobia cotidiana?

Existe toda uma variedade de violências diárias. No caso das mulheres, as violências no espaço público, como as agressões físicas ou o assédio nas ruas, se são mais midiatizadas, não são as mais frequentes. No caso de pessoas trans, as primeiras violências são, a princípio, de ordem institucional e administrativa. Por exemplo, uma pessoa cuja aparência física não corresponde aos seus documentos de identidade pode se ver em situações de discriminação e ser vítima de violência ao menor ato administrativo, ou quando se trata de procurar um emprego ou moradia para alugar. Ora, esses fatos podem conduzir a uma marginalização social e a uma precariedade importante.

Existem também violências médicas nos locais de atendimento e cuidado?

As violências específicas com pessoas trans não são fáceis de objetivar, pois as discriminações ou os tratamentos diferenciados na relação entre pacientes e médicos já são muito comuns na população em geral. Mas, no processo de transição, as pessoas podem se sentir violentadas pela organização do protocolo de cuidado. Esse protocolo, que data do final dos anos 1970, é o resultado de uma luta disciplinar entre a sexologia e a psiquiatria. A primeira era favorável a um tratamento por modificações corporais, a segunda por um tratamento psiquiátrico. Um compromisso foi estabelecido dando às pessoas trans acesso às modificações corporais em contrapartida de uma longa avaliação psiquiátrica. Ora, essas avaliações psiquiátricas, com todos os estereótipos de gênero que elas impõem, são denunciadas pelas mobilizações coletivas como uma violação ao direito de dispor de seus corpos, embora no estado atual, seja garantido o reembolso do tratamento para as pessoas trans que não têm condições de pagar os hormônios e as cirurgias.

Entrevista dada a Florian Bardou por Emmanuel Beaubatie, publicada em Libération em 3 de abril de 2019. Disponível em: <https://bit.ly/2Fb0YId>.

Tradução: Luiz Morando.

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