Racismo de Estado e movimento feminino de direita

Se ignoramos a dimensão social dos diversos problemas que nos surgem, é por conta duma ideologia igualitária da burguesia, que presume o seguinte: “somos todos iguais. Assim, se somos todos iguais, o problema não pode estar em outro lugar que no âmbito biológico“. Isto é, os problemas são tratados como decorrentes de algum distúrbio, de algum transtorno. Há uma relação sutil entre a placa que diz ”desculpe o transtorno” e o corpo que é diagnosticado com um transtorno: uma operação de supostos defeitos, uma correção, um tratamento de perturbações na superfície plana lecorbusieriana,[i] o alisamento da pele marcada por rugas, verrugas, flacidez e estrias.

Deslocado o problema de seu âmbito social e realocado no âmbito biológico, o que se tem é a ignorância – não ingênua da parte das instituições – do humano como um ser social. Dessa forma, problemas sociais como a miséria, a pobreza, a desnutrição, o surgimento e proliferação de doenças, são identificados como decorrentes de aspectos biológicos do indivíduo, sem abandonar o aspecto moralizador: preguiça, falta de disposição, predisposição genética, e por aí vai.

O surgimento das terfs[ii] (“feministas” radicais trans-excludentes) encontra-se profundamente vinculado à intensificação do racismo de Estado. É o seu caráter burguês e neoconservador, o que lhe inclinará a focar exclusivamente no biológico: supõe-se que socialmente homens e mulheres são iguais. O que lhes confere igualdade? Tratando-se de mulheres cisgêneras brancas de classe média, pode-se dizer que o direito ao voto e à ocupação de cargos lhes soa sinônimo de igualdade. Bom, se o problema entre homens e mulheres não diz respeito ao social, ao que poderia corresponder? Ao âmbito biológico. Afirma-se, então, que homens e mulheres brigam entre si por um problema de ordem biológica, naturalizando-se, assim, a diferença sexual: a testosterona do homem lhe atribui um comportamento violento. A insistência, constante e vigorosa, desse movimento em afirmar que o caráter da agressão, da hierarquia, da dominação, da territorialidade e da competição são inatos, parece retomar a sociobiologia. Isto é, para esse movimento, nossos comportamentos são considerados como um legado genético irremediável e inevitável, o que leva a muitas dessas “feministas” reivindicarem o separatismo, chegando ao ponto de haver uma representante desse movimento que possui uma chácara onde há a presença exclusiva de animais não-humanos designados como “fêmeas”. Contudo, pessoas trans questionam essa premissa burguesa com sua própria existência. Como ousam? Como ousam viver? Como ousam desfazer a tão sonhada fantasia de gênero burguesa? Rasgam-na como se rasgassem um precioso tecido, cujo valor só é conferido socialmente. A reação das terfs não poderia ser outra senão se conciliar com o grupo do qual jamais se distanciaram, na tentativa de justificar o extermínio da população trans: a extrema direita.

Texto de Inaê Diana Ashokasundari Shravya.

[i] Referente ao arquiteto Le Corbusier.

[ii] Sigla em inglês para Trans-Exclusionary Radical Feminist.

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