Luto por Sarah Hegazy: uma declaração de amor, perda e libertação

Na última imagem de seu Instagram, Sarah aparece deitada em um parque. Ela escreve: “O céu é mais doce do que a Terra e eu escolho o céu”. Ao escolher esse céu, Sarah optou por uma liberdade que não lhe foi concedida na Terra. Em toda sua vida, lutou pela libertação e a encontrou na morte. Enquanto choramos a perda de nossa irmã, nossa amiga e nossa camarada, o espírito de suas últimas palavras está presente em nós. É o espírito do direito à dignidade e à autodeterminação dos corpos. Em sua despedida, escrita no sábado, 13 de junho de 2020, Sarah assinala a crueldade do mundo como a responsável. Ainda assim, perdoa. Tomara que todes aprendamos com Sarah.

Os desafios podem tomar muitas formas. Em um concerto do grupo libanês Mashrou’ Leila, Sarah levantou a bandeira do arco-íris, cheia de esperança e alegria. Inspirada pela revolução egípcia, Sarah sempre acreditou que era necessário desafiar os regimes autoritários de qualquer tipo. Sarah era, antes de tudo, uma comunista. Seu ativismo anti-Estado levou a sua detenção, interrogatório, tortura, eletrochoques, isolamento e, finalmente, ao exílio de sua casa no Egito e à separação de sua mãe, de seus irmãos e irmãs, de seus amigos/as. Essa experiência traumática cobrou sua fatura. Quando chegou ao Canadá, as lembranças dessas vivências horríveis a perseguiam continuamente. Essa é uma história que se repete vez por outra já que em todo o mundo os regimes repressivos utilizam essas táticas para tentar silenciar a resistência. Em todo o mundo, estamos vendo revoluções e contrarrevoluções, uma verdadeira guerra sobre quais vidas importam. A morte de Sarah é mais uma evidência das crueldades e opressões que um sem-número de pessoas marginalizadas vive em todo o planeta.

Neste momento de tristeza, recordamos como Sarah se opunha veementemente à violência estatal, ao estado policial e ao capitalismo. Chegou a esta terra batizada como “Canadá” pelos mesmos colonos brancos que criaram uma grande mentira global sobre a inclusão LGBT e o homonacionalismo. Essa mesma mentira que enriquece o neoliberalismo e sustenta objetivos imperialistas se utilizando dos direitos das pessoas LGBT como escudo. Enquanto isso ocorre, os ditadores continuam impondo políticas e estruturas sistêmicas que matam pessoas nos cárceres, nos trabalhos e nas ruas.

O heteropatriarcado que levou à morte de Sarah não é uma coincidência. Quando Sarah chegou ao Canadá, todo mundo elogiava o governo de Trudeau por sua política de asilo para refugiados do Oriente Médio. Poucos anos depois, comprovamos que seu compromisso com as pessoas refugiadas queer era meramente superficial. As estruturas necessárias para que elas pudessem se estabelecer no Canadá são praticamente inexistentes.

O que vemos é pobreza, desemprego, baixo padrão de vida, traumas que se espalham por toda a comunidade e falta de recursos para saúde mental. Quando o Canadá recebeu essas pessoas refugiadas, disfarçou-se de salvador dos direitos humanos em uma performance para um mundo que senta e observa através de uma lente imperialista e orientalista. Na verdade, o governo não se importava com as condições de vida de refugiades como Sarah. Desafiar o status quo é desafiar as estruturas que mantêm essa tirania no poder. Desafiar o status quo é, portanto, desafiar o poder. Foi o que Sarah fez e pagou por isso com um maior isolamento e uma alienação mais profunda.

Os efeitos da tortura física e psicológica deixam cicatrizes horríveis em muites prisoneires. Todes os/as preso/as são presos/as políticos/as e, agora mais do que nunca, está claro que a polícia e os estados militarizados são os culpados. Da Ilha da Tartaruga[i] ao Oriente Médio, rejeitamos essas instituições que protegem os poderosos e os ricos à nossa custa. Rejeitamos suas mentiras que usam os direitos LGBT para legitimar e pintar de rosa seu apartheid, seu colonialismo, seu neoliberalismo. Nesse contexto “pós-colonial”, rejeitamos esses discursos que limitam nossas eleições entre o fundamentalismo religioso, a intervenção ocidental ou o autoritarismo. Sarah fez parte de uma revolução egípcia que tentou criar possibilidades para além desses limites. Sarah acreditava que, através do ato de resistência, encontraremos maneiras de criar uma sociedade mais justa.

Se pudemos acusar a polícia egípcia, os interrogadores e torturadores de provocar essa tragédia, também podemos apontar o governo canadense como responsável por seu escasso apoio às pessoas refugiadas e por sua participação em guerras internacionais. É o momento de criar redes de solidariedade entre todes aqueles/as que lutam pela liberdade e a autodeterminação.

Nesses dias, surgem muitas emoções, incluindo raiva, tristeza, culpa, vergonha, lembranças felizes e nostalgia de dias melhores.

Deixemo-nos contagiar pelo sorriso de Sarah, sua oposição feroz ao autoritarismo e ao heteropatriarcado, sua incansável imaginação para construir um mundo melhor para todes nós. Nessa última fotografia, Sarah optou por descansar seu rosto na grama enquanto o céu se estendia acima dela, como uma esperança contínua de libertação, só que agora em outros planos. Enquanto choramos por Sarah, continuemos sua luta pela liberdade.

Amada irmã, amiga, camarada, descanse em paz e no poder, Sarah.

Até que todes sejamos livres.

Árabes Queer no território roubado de Tkaronto e Tiohtià:ke[ii]

Artigo do coletivo Arabes Queer publicado em Pikara online Magazine, em 24 de junho de 2020. Disponível em: <https://www.pikaramagazine.com/2020/06/en-duelo-por-sarah-hegazy-una-declaracion-de-amor-perdida-y-liberacion/>.

Tradução: Luiz Morando.

Sarah Hegazy foi uma ativista lésbica egípcia. Ela foi detida, presa e torturada numa prisão egípcia durante três meses após erguer uma bandeira do arco-íris num concerto do Mashrou' Leila no Cairo, em 2017. Ela recebeu asilo no Canadá para se recuperar de estresse pós-traumático, mas cometeu suicídio em 13 de junho de 2020.

[i] Turtle Island no original é o nome com que muitos povos nativos norte-americanos chamam a Terra ou a América do Norte e que é comumente utilizado nos contextos ativistas no Canadá.

[ii] Nomes originais da região de Ontário batizada como Toronto pelos colonos europeus.

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