Volte, corra!

Volte, volte, rápido, volte, mas para onde ir? Volte, retorne aos seus postos, não deixe ninguém tirar a cadeira que você deixou vazia em suas instituições, em seus escritórios, em suas empresas, em suas start-ups, em suas escolas. E se um gênio brincalhão tivesse deixado sua cadeira intacta e levado instituições, escritórios, empresas, start-ups, escolas? Para onde você retornaria? Mesmo assim, o objetivo é voltar. Encontrar sua cadeira, sentar-se nela, ocupar seu lugar. Cadeiras e cadeiras alinhadas e ocupadas, a um metro e meio de distância, flutuando no meio do nada.

Volte, volte, apresse-se. Deixe os comerciantes colocarem os novos produtos de outono nas prateleiras, deixe-os se apressar, caso a Covid volte e leve suas vendas com ela. A falta é arranjada, organizada, na produção social. A produção nunca se organizou em função de uma falta real, é a falta que se espalha por toda parte de acordo com a organização do trabalho. Então volte ao trabalho imediatamente, volte e resgate sua rescisão, seu pedaço de falta. Corra para o seu emprego antes que ele desapareça, apresse-se para solicitar um empréstimo e aumente sua dívida.

Volte, volte rapidamente de suas férias a menos de 100 quilômetros de sua casa, corra para seus postos com a máscara pendurada no pulso como uma pulseira que espalha vírus. Você gostaria de estar numa ilha deserta no meio do mar, bem longe, um lugar onde não se avistam Lampedusa nem Calais, mas teve que ficar na Normandia. E agora, a Normandia parece mais distante de Paris do que nunca. Voltem para suas cidades, voltem para sua poluição e barulho, antes que seus pulmões e ouvidos se acostumem com a sinfonia do campo. Tente voltar aos labirintos do metrô, suportar as intermináveis ​​horas de reuniões. O que é “presencial” agora se tornou mais virtual que o virtual. Volte e se submeta às perguntas dos funcionários, junte-se às filas do Pôle Emploi[i], volte rapidamente às suas televidas. Volte com o grande nariz aberto para que uma figura humana escondida atrás de um protetor higiênico possa enfiar um bastão, esfregar a borda do seu cérebro e, com sorte, encontrá-lo negativo e vivo. Deixe seus filhos, pequenos corpos quase imunes, voltar às escolas, onde nada do que aprenderão os salvará do ecocídio de seus parentes mais velhos.

Volte para casa, retorne rápido, volte para suas velhas vidas. Retorne à sua violência policial bem dosada: você mata na fronteira, afunda as balsas no mar e rejeita quem já chega descalço; você bate, crava os joelhos no peito e tranca trabalhadores negros e árabes em matadouros – literal e figurativamente; enquanto no centro da cidade você protege os brancos do vírus. Para você, a Previdência Social; para eles, a socialização dos riscos. Para vocês, a recuperação econômica e a democracia neoliberal; para eles, a recuperação da segurança. Volte à sua tradição fascista, se você também, francês, tiver uma. Que os Führers voltem. Que eles também voltem de suas férias em suas ilhas desertas, longe de Lesbos e Lampedusa – Trump, Bolsonaro, Erdogan, Duda, Orban, Putin e Lukashenko, enquanto Novitchok leve a alma de Alexeï Navalny e a prisão acabe com o corpo de Ebru Timtik. E já que estamos nisso, traga de volta também Sarkozy, deixe voltar também Cecilia, desculpe, quis dizer Carla, traga de volta seu violão e sua voz doce e cruel.

Volte, volte apenas para perceber que aquilo a que você voltou com tanto esforço não faz mais sentido. Você não pode retornar a uma vida normal porque o que você chamava de vida normal não existe durante uma mudança de paradigma, porque, embora as coisas ainda pareçam as mesmas, não são mais. Mesmo as palavras que parecem ser pronunciadas da mesma forma mudaram de significado. O problema é que ninguém ainda sabe qual será esse novo significado. Um algoritmo decidirá isso? Será anunciado no Instagram? Ou será objeto de decreto? Volte com suas malas carregadas de palavras e coisas, apenas para perceber que você não tem as definições certas.

Não, não vale a pena correr. Você não pode voltar atrás. Porque seria como dar a volta por cima de uma ponte epistemológica que acaba de ruir. O mundo que estava atrás de nós, aquele emaranhado de signos integrados que você acreditava serem reais não está mais lá. As linhas que separam os sinais sensíveis e inteligíveis mudaram. Você não pode voltar atrás. A deriva do migrante em direção ao nada é um modelo político melhor do que o do cidadão europeu ou norte-americano normativo que simplesmente deseja voltar para casa. O terror e o desejo que impulsionam o exílio estão mais próximos da mutação necessária para enfrentar o túnel em que fomos coletivamente enfiados.

Estamos praticando uma nova migração em direção a lugar nenhum, onde não haja mais um bom pastor, nem uma nação para nos receber. É hora de ir mais longe, de não voltar, de subir a montanha, de deixar os deuses do capitalismo nas cidades, de ir sem pai nem mãe, sem natureza, apenas com os vivos e os mortos. A instituição ou o estado-nação, as indústrias petroquímica e farmacêutica, os gigantes da informática poderiam nos dar algo melhor? De jeito nenhum. Não volte. Crônica de Paul B. Preciado publicada em 4 de setembro de 2020 no jornal Libération. Disponível em: https://www.liberation.fr/debats/2020/09/04/rentrez-courez_1798632


[i] Pôle Emploi: plataforma governamental de indicação de vagas de emprego.

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