A dimensão da visão e suas implicações sociais

Passagens bíblicas costumam ser utilizadas para endossar o delírio da meritocracia. Coachs, aqui e acolá, recitam versículos bíblicos como se fossem saborosos – e talvez sejam, mas para os seus bolsos. Contudo, há passagens bíblicas que contradizem o livre-arbítrio e, consequentemente, a solidez dos supostos pilares bíblicos da meritocracia – o que não significa que os trechos absurdos que existem nela devam ser relevados; a Bíblia apresenta contradições em seu interior exatamente por ser criação humana. Uma dessas passagens pode ser encontrada em Eclesiastes, capítulo 9, versículo 11. Transcrevo tal como consta na Bíblia[i]:

Contratempos imprevistos. Outra coisa observei debaixo do sol:

a corrida não resulta da agilidade,

nem da valentia a batalha,

nem da sabedoria o ganha-pão,

nem da habilidade a riqueza,

nem do saber a estima,

porque para tudo há o concurso do tempo e do acaso.

Uma nota referente aos versículos 11-12 diz o seguinte: “Uma série de cinco proposições ilustra a verdade de não ser o homem dono de seu destino; por mais meios de que disponha, deve, ao fazer as contas, levar em consideração o último imprevisto, que porá termo à duração da vida.”

Ao ler esse versículo, eu me recordei dum provérbio do povo do Luandos, “omutu mahambualunga”, que é, numa possível tradução, “o homem não morre, é morto”, isto é, o morrer do ser humano é sempre resultado duma ação, há sempre uma causa para a sua morte, não sendo essa a velhice. Poderíamos ampliar esse sentido para “o ser humano não vive, mas é condicionado a viver numa determinada forma”. Sua condição de vida, de alguma maneira, delineia, determina, a forma como morrerá, ou melhor dizendo, a maneira como será morto. Não é, portanto, possível de se viver se não em relação com um meio. Vive-se no entremeio, intersticialmente.

Dizer que o livre-arbítrio não existe não é sinônimo de esvaziamento da espontaneidade ou uma adesão a um mecanicismo. A espontaneidade existe, ainda que não como imaginamos. Agir espontaneamente é agir a partir de referências. A imagem mais simples que podemos considerar para ilustrar o que acabei de dizer é a dum músico que realiza uma improvisação num instrumento musical. Ele improvisa com base nas técnicas musicais que conhece. Ele não toca qualquer nota, de qualquer jeito. A espontaneidade é como a improvisação: uma constelação de comprometimentos que se abre diante de cada ação. A essa constelação de comprometimentos também podemos chamar relações sociais.

O livre-arbítrio costuma ser utilizado como justificativa para discriminação e preconceitos. É demasiadamente fácil responsabilizarmos uma pessoa que roubou uma margarina no supermercado, como se fosse responsabilidade exclusiva dela. Contudo, o que não levamos em consideração é o que condicionou essa pessoa a roubar uma margarina. Se levarmos em conta o crescente número de desempregados, o aumento da miséria, da precarização da vida, talvez possamos compreender o que leva alguém a roubar. Isso não é o mesmo que tratar a pessoa que roubou como “coitadinha”, como se costuma alegar, mas pontuar que, se a desigualdade continuar, o roubo também continuará.

Por sua vez, o que explica o roubo realizado por pessoas que possuem alto poder aquisitivo, que lavam dinheiro? O que é que nos leva a considerar uma pessoa que rouba uma margarina pior do que uma que desvia milhões de cofres públicos? Talvez seja o fato de a pessoa que roubou a margarina estar numa posição subalterna socialmente. Seguindo o versículo bíblico, podemos dizer que o sucesso não decorre do esforço, assim como o fracasso não decorre da preguiça ou da falta de esforço.

A nossa visão não é passiva. Ela é também agente. Quando só conseguimos encontrar o óbvio, é porque nossa visão está de certa forma em conformidade com determinada forma de ver o mundo, considerada como hegemônica. Algumas vezes o não ver é também um não querer ver.

Inaê Diana Ashokasundari Shravya

[i] A Bíblia do Pão. Petrópolis: Editora Vozes, 1982.

Na Bíblia on-line, o versículo em questão encontra-se da seguinte maneira: “Nas minhas investigações debaixo do sol, vi ainda que a corrida não é para os ágeis, nem a batalha para os bravos, nem o pão para os prudentes, nem a riqueza para os inteligentes, nem o favor para os sábios: todos estão à mercê das circunstâncias e da sorte.” (Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/vc/ec/9)

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