A segunda onda

Há uma floresta no Japão chamada Aokigahara, localizada a noroeste do Monte Fuji, conhecida como Jukai, o “mar de árvores”. Uma densa vegetação cresce sobre um grande fluxo de lava que enterrou a área em uma erupção do Monte Fuji em 864. O “mar de árvores” tornou-se um lugar ameaçadoramente famoso, objeto de muitas ficções literárias e cinematográficas: lendas dizem que a montanha está cheia de fantasmas e demônios das pessoas que morreram lá. No Japão feudal do século XIX, quando a fome e as epidemias devastavam a população, as famílias mais pobres abandonavam as crianças, os doentes e os idosos que não podiam mais alimentar, deixando-os sozinhos e sem teto em uma floresta densa e labiríntica, como a do mar de árvores. Essa prática é conhecida como ubasute, que em japonês significa literalmente “abandono de uma velha”, porque mães e avós eram mais abandonadas do que pais. Talvez porque vivessem mais, talvez porque fossem, passada a idade reprodutiva, inúteis. Os historiadores não concordam com a veracidade dessas lendas. O ubasute pode não ser uma prática concreta, mas algo ainda pior: uma estrutura antropológica que fala da incapacidade de certas culturas humanas de lidar com doenças, velhice e dor, para curar e apoiar até a morte aqueles e aquelas que não podem mais contribuir para a produção econômica. Ubasute designaria então a tecnologia do poder que permite a uma sociedade sacrificar os mais fracos, os improdutivos, tudo sem tornar o sacrifício visível, colocando a morte fora da esfera pública. Examinando a sociedade feudal japonesa e suas fortes segmentações de classe, gênero e sexo, e depois estendendo-as a outras sociedades hierárquicas, pode-se dizer que o ubasute é a estratégia de uma sociedade patriarcal para não confrontar a vulnerabilidade e a morte da mãe. Como diz Laure Adler, “sempre somos a idosa de alguém. Você também pode se preparar para isso”.

Vejo a chegada da “segunda onda da Covid” e acho que estamos repetindo um ubasute global. Esta poderia ser a nossa lenda: durante meses, as crianças falaram sobre a segunda onda como se fosse um fenômeno natural, uma explosão vulcânica que ocorreria sem que nada pudesse ser feito para evitar. Alguns, os mais supersticiosos, disseram que é preciso voltar à normalidade, que se agíssemos como se nada estivesse acontecendo, talvez nada acontecesse. Fizeram tudo o que puderam para esquecer que estavam doentes, que alguns deles, os mais frágeis, fossem morrer.

E como nada fizeram para impedir, um dia chegou a segunda onda. Então, o filho decidiu levar sua mãe infectada para a montanha e deixá-la morrer ali sem ser vista. Ele colocou uma máscara e um macacão de proteção para não ter que tocá-la e poder carregá-la nas costas. O dia estava claro, as folhas das árvores brilhavam ao sol e, para o filho, a distância a percorrer para subir e descer parecia curta. Sua força, ele estimava, se não infinita, era pelo menos suficiente para fazer a viagem até o topo. Mas de repente, quando ele estava na metade do caminho e o peso de sua velha mãe começava a fazê-lo sentir uma dor nas costas, uma nuvem veio e pairou sobre a floresta, recobrindo de sombras o caminho. Em poucos minutos, as árvores ao seu redor assumiram formas desconhecidas que pareciam mais próximas do reino da máquina do que da planta. O filho, na pressa de escalar e abandonar a mãe, caminhava a passos largos, sem dar atenção às pedras do caminho, ao lodo escorregadio, aos galhos pontiagudos das árvores.

O filho é o capitalismo financeiro autoritário. Mas ele também é o herdeiro das infinitas promessas de progresso e consumo do pós-guerra. Aquele que soube transformar o grandiloquente discurso colonial do século XIX em uma montagem pop de slogans publicitários. Aquele que soube cortar, desfiar e montar o império capitalista colonial e transformá-lo em mercadoria digital.

A mãe é a sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, da heterossexualidade compulsória, da exclusão e do controle social e político das mulheres em uma sociedade patriarcal, a sobrevivente do estupro, a sobrevivente do duplo dever de estar disponível para a consumação heterossexual e não ser prostituta, para reproduzir e controlar sua reprodução. Algumas mães participaram da revolução feminista dos anos 1960, mas a maioria ficou satisfeita com os pequenos benefícios introduzidos pela pílula anticoncepcional e por poder trabalhar e usá-la por conta própria. E aqui está ela agora, nas costas do filho, subindo a montanha onde as velhas são deixadas para morrer. “Por que você faz isso?”, pergunta a mãe antes de chegar ao topo. “Porque foi isso que você me ensinou”, responde o filho. “Foi você quem me ensinou a separar, a conquistar, a vencer, a me calar.” Dito isso, ele a abandona ao lado de uma árvore e começa a descer o mais rápido que pode. Mas a noite cai, seu celular descarrega e, como não estava prestando atenção na estrada, ele se perde. Ele teria chegado à cidade alguns dias depois, sem máscara e sem macacão de proteção, com a pele rasgada por arranhões. Ele havia perdido a memória.

Crônica de Paul B. Preciado publicada no jornal Libération em 23 de outubro de 2020. Disponível em: https://www.liberation.fr/chroniques/2020/10/23/la-deuxieme-vague_1803325.

Tradução: Luiz Morando.

Em sua nova crônica, Paul B. Preciado retoma uma lenda japonesa para relacionar a segunda onda de covid-19 à metáfora do abandono dos mais vulneráveis.

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s