Resenha do livro Sin concesiones: preceptos negros, queer y feministas para movimientos radicales, de Charlene A. Carruthers

A autora de Sin concesiones, a ativista e escritora Charlene A. Carruthers, teve a sorte de poder ingressar na universidade, embora, como ela explica em seu livro, ainda hoje o acesso à educação seja proibido, de forma sutil ou explicitamente, para a maioria da população negra em muitas partes do mundo. Integrante do grupo de jovens BYP100 (Black Youth Project. 100), impulsionado por ela mesma, caracterizado por sua horizontalidade, seu compromisso e sua falta de medo da ação direta, Carruthers reivindica um passado de luta de seus ancestrais contra a escravidão, o colonialismo e as leis repressivas, algo que se estendeu às revoluções contra a escravidão no Haiti, país que segue mergulhado na pobreza, e que continua presente nos territórios massacrados da Palestina.

Mas Sin concesiones, onde a autora não sobrepõe nenhuma opressão a outra, é antes de tudo uma narrativa sobre a violência sistêmica e policial que a população negra continua sofrendo nos Estados Unidos. A experiência da negritude marca sua infância e adolescência por meio do estigma e do trauma, o que também a leva a focar sua atenção na resiliência e no cuidado. Em suas posições mais polêmicas, ela defende a eliminação das instituições penitenciárias, a reescrita da história “negra” e não mede as palavras ao desvendar também a discriminação de sexo / gênero dentro de sua própria comunidade.

Em seu livro, Carruthers reivindica também a figura das transexuais Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson, verdadeiras pioneiras do movimento de libertação LGTBQ, ignoradas na história oficial, narrada, sobretudo, por homens brancos. As formas de luta e resistência que ela propõe não esquecem a herança do movimento afro-americano dos anos 1970, nem o legado dos panteras negras (Angela Davis), mas, mais do que grandes lideranças, a autora busca a criação de um tecido onde a violência corporal a que estão expostas, com especial intensidade, mulheres e meninas negras, obtenha uma resposta contundente e coordenada. A autora não esquece a expoliação da África, a significação que figuras como Rosa Parks obtiveram nem os distúrbios de Stonewall, mas tem interesse em construir, a partir do aqui e agora, instrumentos eficazes contra a violência estrutural sofrida pelas pessoas negras, mulheres e mulheres trans, até recentemente invisíveis.

Também narra diferentes episódios em que membros proeminentes do movimento negro e queer recente foram espionados e/ou mortos pela polícia, deixando esses crimes na impunidade, silêncio e esquecimento. Ela nos conta sobre sua viagem a Chicago, cidade onde conseguiram colocar em xeque as autoridades municipais após a morte de um ativista, e o fizeram graças à coordenação de diferentes frentes pelos direitos civis.

Carruthers abre seu estudo sobre racismo, misoginia e transfobia nos Estados Unidos com a eleição do presidente Trump, mas também é cética em relação às políticas neoliberais instaladas em muitos setores do Partido Democrata, com a expulsão de imigrantes indocumentados e com a adoção de uma série de reformas que não vão, segundo suas palavras amenas ​​e contundentes, à raiz do problema. A autora, que se define como lésbica e negra, incorpora alguns avanços no campo da luta das pessoas com a diversidade, herança do feminismo negro (Audre Lorde), mas tem consciência de que a população afro-americana de seu país vive, por dentro, ainda hoje, em contínua situação de inferioridade, carência e desconfiança.

Um livro sincero, contado de maneira amena e contundente, que renova as formas de repensar a política contra os vetores institucionais da opressão e do esquecimento.

Resenha de Eduardo Nabal publicada no site Parole de Queer. Disponível em: http://paroledequeer.blogspot.com/2020/09/sin-concesiones-preceptos-negros-queer.html.

Tradução: Luiz Morando.

Resenha de Eduardo Nabal para o livro Sin concesiones: preceptos negros, queer y feministas para movimientos radicales, de Charlene A. Carruthers

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