As leis do desejo: imagem digital e corpo bicha

Há alguns meses, o popular ator Miguel Herrán carregou no Instagram uma foto sem camisa, mostrando seu torso musculoso, com esta frase: “Acho que pela primeira vez na vida me olhei no espelho e me aceitei”. Com 14 milhões de seguidores, fama mundial e capas elogiando seu imponente físico, é difícil acreditar que um dos mais populares corpos masculinos não se considere no topo da cadeia do desejo. A enganosa autopercepção e a validação pelo físico – apresentado hoje pelas telas digitais – que talvez, a exemplo de Herrán, já tenha atingido homens heterossexuais, é um dos problemas que tem atravessado a comunidade gay desde seu gênese. Se, ao pensar em uma “boate gay”, continua vindo à sua mente algo parecido com os cartazes promocionais do festival Circuito, isso significa que sobre esse sujeito político que é o corpo bicha ainda operam pressões normativas irreais. Porque não, quando você sai do armário, seu abdômen não cresce automaticamente.

A única coisa que nos une, homens gays, é que nos sentimos sexual e afetivamente atraídos por nosso gênero. Embora a experiência de habitar um mundo heterocêntrico nos conecte e nos faça gerar e habitar espaços comuns, o desejo por outros homens é a única coisa que sabemos sobre nossos iguais. Portanto, consciente ou inconscientemente, associamos ser um indivíduo desejável à aceitação em nossa comunidade. Agradar ao maior número possível de homens, tanto quanto possível, é o melhor truque para garantir que nos encaixemos nos espaços bichas, frequentemente associados a encontros e seduções – ações altamente perigosas em espaços não seguros. Portanto, não se trata apenas de ser amado, mas de atrair sexualmente à primeira vista, para se destacar da concorrência. Foi assim nas boates, e agora nas telas.

Se nos deslocamos para alguma experiência viada comum – mas não única – de algumas décadas atrás, não é difícil ter empatia com os homens que, dentro do armário em sua família e vida profissional e apenas cercados por outros gays nos bares gays originais e lugares de pegação, associarão a sociabilidade entre bichas ao circuito do desejo: quanto mais você gosta, mais você vale entre seus iguais. E para garantir essa validação, a melhor estratégia é chegar o mais próximo possível do corpo ideal, do corpo normativo. Daquele corpo que todos carregamos em nossas cabeças, mas quase ninguém o possui sob a pele.

Embora essa consequência lógica da condição viada seja a razão pela qual certas estéticas, fetiches ou categorizações acabaram gerando subculturas dentro da própria comunidade (os ursos são talvez o melhor exemplo de como um gosto erótico resultou em espaços diferenciados de socialização, que marca suas próprias regras em relação aos corpos que os constituem), todas as bichas pensam saber que um corpo normativo – isto é, musculoso – é um seguro para ser validado. E se até poucos anos atrás essa pressão se concentrava nos momentos de lazer, a necessidade de seduzir outras pessoas tem devorado toda a nossa rotina através das redes sociais e aplicativos de pegação. A hora e o lugar para gostar são agora, entre cliques e stories, absolutamente a qualquer hora e em qualquer lugar.

Músculos, likes

Esgueiro-me no texto para lembrar uma anedota pessoal. Certa vez, na festa de aniversário de um amigo, seu colega de prédio – que estava bebendo e conversando conosco – foi para seu apartamento antes de sairmos para uma boate. Quando estávamos para sair, ele pediu licença e preferiu ficar em casa. Mais tarde, fiquei sabendo que o rapaz – que era bonito e tinha físico malhado – havia ficado fazendo flexões e agachamentos enquanto terminávamos nossos gins-tônicas na sala. E que, insatisfeito com o resultado, desistiu de ir à festa porque não parecia inchado o suficiente para enfrentar uma ida a uma boate gay.

O gesto talvez seja extremo, mas não sem lógica – e é bom lembrar que a vigorexia ou complexo de Adônis é um transtorno psicológico real e que os gays têm três vezes mais chances de sofrer disso do que os heterossexuais –, porque entre o olhar desse rapaz e seu próprio corpo revelam-se as centenas de corpos nos quais ele se vê, nos vemos, expostos todos os dias. Ir à academia – ou a versões quase marciais do tipo crossfit – está tão institucionalizado na comunidade viada que quase funciona como um rito coletivo. As imagens compartilhadas nas redes sociais com a camisa encharcada de suor, ou com um haltere na mão que não segura o telefone, funcionam como a eucaristia da validação gay. Elas são a prova de que o que precisa ser feito está sendo feito. De pouco serve no Instagram uma forma física invejável sem peitorais marcados ou coxas torneadas à primeira vista, naquele centésimo de segundo em que nossos seguidores devem parar diante de nosso corpo, no meio de uma linha do tempo infinita inundada por centenas de outros corpos bichas.

Nas redes sociais, caras com corpos mais volumosos e definidos tornam-se estrelas, líderes da manada. As imagens desses caras, que seguem séries de treinos e dietas dignas de atletas de elite – e não raro também desenhadas no Photoshop –, tornam-se indistinguíveis daquelas dos modelos de revistas ou dos protagonistas dos filmes de super-heróis. Mas eles não são atores ou artistas: sabemos por seus próprios perfis que são enfermeiros, funcionários de escritório ou garçons. O corpo ideal, em conclusão perversa, está ao alcance de qualquer pessoa. É nossa responsabilidade alcançá-lo e só nossa é a culpa se falharmos.

Para terminar de assinalar essa pressão, nós, bichas, temos nos encarregado de alimentar de forma obscena as contas e os criadores de conteúdo que se encarregam de discriminar os melhores corpos dentre aqueles que se expõem todos os dias nas redes. Perfis muito populares na comunidade, como o @hoscos – que se define como “uma janela para imagens criativas” –, selecionam fotos de usuários do Instagram para configurar uma espécie de panteão com os mais divinos desses corpos, onde a diversidade de formas (e muitas vezes também expressão racial e de gênero) não tem lugar. Aparecer nessa conta ou em alguma semelhante significa ascender ao estranho Olimpo bicha, obter a bênção daqueles deuses que nos observam das plataformas da WE Party.

Corpo e capital

Se esse modelo ideal de físico foi por décadas uma formulação bastante abstrata, com a chegada do Grindr as proporções da norma foram medidas e pesadas. A lógica interna deste aplicativo de pegação – e de todos os similares – reduz os usuários a perfis digitais cujas metragens permitem que os outros os aprovem ou rejeitem. Cifras de altura, peso e metros de distância constituem um primeiro filtro que o próprio uso dos aplicativos estendeu a outras medidas padronizadas, como o tamanho do pênis (para o qual se utiliza o tamanho da roupa, e que ironicamente ter um XXL é uma coisa positiva) e características mais elusivas, mas igualmente decisivas. Como em um código binário do desejo, nesses aplicativos existem apenas 0 e 1 para quase tudo. Se você é masculino ou não, se é discreto (?!) ou não, se dá ou não dá pinta (como se isso fosse único e permanente). Em suma, se é normativo (e, portanto, válido) ou não.

Em um exercício neoliberal diabólico, nossos corpos – nossos corpos bichas, lavados em mictórios e em campos de concentração, abaixo e nas margens do sistema – se converteram em nosso capital. Com a fagocitose de nossos corpos (ou o que é mais retorcido, de sua imagem) em dispositivos que nos foram vendidos como tecnologias de abordagem – talvez o Grindr tenha trabalhado para isso durante os seus primeiros cinco minutos de existência –, a lógica do capitalismo envenenou o espaço íntimo de nossos relacionamentos carnais.

Nós, homens homossexuais, temos mais mídias disponíveis do que nunca para encontrar e se comunicar com outros homens homossexuais; também temos mais oportunidades do que nunca para rejeitar uns aos outros. Se alguém com o corpo de Miguel Herrán tem problemas de autoaceitação, a equação se complica quando não só sente a pressão para ter um corpo ideal, como também de ter um corpo ideal que atraia outros corpos ideais com os quais, por compartilhar o gênero, é inevitável comparar consigo. E mesmo em sua “idealidade”, não há dois corpos iguais: os outros rapazes são sempre mais altos, mais peludos ou mais bem proporcionados; têm mais ombros ou mais quadríceps; trapézio maior ou curva praxiteliana mais acentuada. Eles são sempre melhores do que você de alguma forma. A maquinaria de validação imagem-corpo-desejo não para.

Ou talvez possa parar, por alguns instantes, nesses espaços alternativos que nós, gays, também construímos desde o início, onde apenas a escuridão suspende a cadeia produtiva de nossos corpos bichas. Essas salas onde nossos corpos dissolvem suas formas e tamanhos para se redescobrirem como superfícies quentes e sensíveis, opostas em tudo ao vidro escuro da tela de nossos smartphones.

Artigo de Enrique F. Aparicio publicado em Pikara online magazine em 28 de outubro de 2020. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2020/10/las-leyes-del-deseo-imagen-digital-y-cuerpo-marica/.

Tradução: Luiz Morando.

“Nós, homens homossexuais, temos mais mídias disponíveis do que nunca para encontrar e se comunicar com outros homens homossexuais; também temos mais oportunidades do que nunca para rejeitar uns aos outros.” Leia o artigo do espanhol Enrique F. Aparicio publicado em Pikara.

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