As vozes da revolução

Nos últimos dias, para me resguardar da invasão pelas videoconferências no meu próprio quarto, decidi me limitar apenas às trocas de voz. O olho foi culturalmente educado como um sentido da crítica e do julgamento, do consumo visual e do desejo. Por outro lado, o ouvido, relegado a uma posição subordinada em nossas sociedades tecnovisuais, tem uma capacidade sutil de interpretação e conhecimento. Enquanto a conexão visual o deixa ainda mais sozinho e vazio, uma vez que a tela é fechada, as vozes se embaralham e te envolvem.

A voz é o som produzido pelo corpo humano quando o ar dos pulmões passa pelos brônquios e traqueia, atinge a laringe e faz vibrar as cordas vocais. Essa vibração sutil usa a faringe, a boca e o nariz como cavidades de ressonância e amplificação do som. A frequência da voz humana varia de 60 a 7.000 Hz, com enorme variação de tons e texturas. A voz precede a palavra. Ela se torna palavra quando as vibrações das cordas vocais são moduladas pelos movimentos rápidos da língua, da glote e dos lábios, pela interrupção do fluxo de ar que sai dos pulmões e pela frequência com que o ar desliza pelo palato ou colide com os dentes. A voz articulada é uma das técnicas corporais mais sofisticadas inventadas historicamente pelos animais humanos e, por ser diferente em cada um de nós, constitui um estilo único de articulação.

Os discursos dominantes no Ocidente, tanto na medicina quanto na história da música, até recentemente diferenciavam três tipos de vozes humanas, segmentadas por sexo e idade: masculina, feminina e infantil. Nessa tradição, as vozes agudas eram chamadas de femininas e as graves de masculinas. Na linguagem do canto, a gama de notas que uma pessoa pode alcançar modulando sua voz é chamada de “extensão”. Dependendo das considerações normativas das diferentes extensões da voz, as vozes masculinas podem ser baixos, barítonos ou tenores, e as vozes femininas contratenores, mezzo-sopranos ou sopranos. Mas alguns homens têm vozes de soprano e mulheres, vozes de baixo. A erotização das vozes agudas do castrato como o ideal da música barroca encarna os paradoxos do desejo misógino no patriarcado. As vozes ligeiras, claras e muito agudas das contratenoras e as vozes profundas dos altos são aquelas que transgridem os limites normativos do gênero, como Philippe Jaroussky na ópera contemporânea ou outrora a imensa cantora egípcia Oum Kalthoum.

Antes, a segmentação das vozes em termos de gênero era redobrada por divisões raciais. Até meados da década de 1980, os comentaristas musicais se referiam à “voz negra”, racializando assim as vozes e os estilos musicais. As vozes do blues podiam ser negras, mas as vozes da ópera tinham que ser brancas. Em 1939, a cantora negra Marian Anderson cantou pela primeira vez no Metropolitan Opera após ter sido rejeitada no DAR Constitution Hall pelas Filhas da Revolução Americana por não ser branca. Diante das categorias normativas sexuais ou raciais, os estudos contemporâneos sobre a voz, influenciados pela crítica dos estudos de gênero e anticoloniais e pelo crescente número de pessoas trans e não binárias, se propõem a compreender a voz como um órgão que muda ao longo da vida. Em vez de vozes de homens, mulheres ou crianças, brancas ou negras, seria mais apropriado dizer que existem vozes baixas, agudas, grossas, suaves, úmidas, secas, nasais, guturais, oclusivas, sibilantes, minerais, arejadas, líquidas, protuberantes, pastosas, estriadas, lanosas, claras, escuras, luminosas, opacas, saltitantes, marteladas, aveludadas…

Se no início do século XX se acreditava que a fotografia roubava a alma, a gravação sonora talvez seja a forma mais adequada de preservá-la. Os arquivos da BBC e da rádio francesa, com centenas de milhares de gravações, são repositórios infinitos de almas. Estou ouvindo a única gravação existente de Virginia Woolf, uma declaração à BBC em 1937. Sua voz fina, arejada e inteligente sugere seu caráter melancólico, sua dificuldade em se firmar plenamente no mundo ao seu redor. Sua voz é um fio de ourives com o qual Virginia Woolf tenta continuamente conectar seu corpo à vida. Ela tem apenas 55 anos: sua voz é a de alguém de cem ou mesmo mil anos, alguém que, como o personagem de seu romance Orlando, atravessou os séculos. Quatro anos depois, essa voz se afogará no rio Ouse, a poucos metros de sua casa.

Nessa curta gravação, Virginia Woolf fala sobre a relação entre voz e linguagem: “Words, English words are full of echoes, of memories, associations, they have been up and above on people’s lips.” [“Palavras, palavras em inglês estão cheias de ecos, de memórias, de associações, elas estiveram acima e sobre a boca das pessoas.”] As palavras que usamos são cheias de ecos, diz Virginia Woolf, de lembranças, de associações porque chegaram à boca das pessoas. Uma palavra não é apenas uma entidade linguística distinta, ela contém misteriosamente a memória de todos os corpos que a falaram antes. É assim que Virginia Woolf entende as palavras: como vozes de segunda mão que o escritor decide dizer ou não. “Cada vez que inventamos uma palavra nova”, diz Virginia Woolf, “ela quer saltar dos lábios e encontrar uma voz”. “As palavras”, conclui a maior escritora de língua inglesa do século passado, “não vivem nos dicionários, elas vivem nas bocas”.

Talvez seja por isso que as revoluções começam nas bordas dos lábios, onde a linguagem histórica encontra o corpo político. MeToo, NiUnaMenos, Black Lives Matter, Black Trans Lives Matter, o movimento pela liberdade sexual na Polônia… tudo começou como revoluções da voz: novas palavras antes impronunciáveis ​​saltaram aos lábios das pessoas e não querem mais deixá-las.

Crônica de Paul B. Preciado publicada no jornal Libération em 20 de novembro de 2020. Disponível em: https://www.liberation.fr/debats/2020/11/20/les-voix-de-la-revolution_1806274.

Tradução: Luiz Morando.

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