Vassouras e dildos: dissidências fálicas frente ao patriarcado

Nos Pireneus aragoneses abundam chaminés ‘espanta bruxas’ de diversas formas, todas perturbadoras. Algumas são rematadas, na sua extremidade superior, com a forma de uma pessoa de braços cruzados; outras são arredondadas, lembrando uma cabeça humana; algumas são construídas de maneira que o ar sibila e gera vários sons ao passar através delas. Em todo caso, as casas eram tradicionalmente decoradas desse modo para proteger seus moradores das bruxas, cuja presença no território aragonês remonta ao século XI.

Quando as primeiras bruxas apareceram, quem eram elas? A verdade é que já nos tempos clássicos havia feiticeiras sábias nas quais poderíamos encontrar vestígios de bruxas posteriores. As feiticeiras clássicas eram representadas com um pergaminho nas mãos, símbolo do amplo conhecimento que, como as bruxas, orientava seus rituais e práticas de cura.

As bruxas diferiam das feiticeiras, curandeiras e magas em suas supostas colaborações com o demônio, de quem obtinham conhecimentos que eram proibidos ao resto dos mortais. Os julgamentos por bruxaria que ficaram registrados por escrito relatam desde voo noturno de bruxas até assembleias e relações sexuais com animais, entre outras fantasias. Outro elemento de grande significado na construção da imagem da bruxa – que nos é muito mais próximo devido à sua presença no cotidiano das nossas casas – foi e continua a ser a vassoura.

A ilustração mais antiga de bruxas voando em suas vassouras é de 1451. Ela aparece em Le champion des Dames, de Martin Le France, um poeta francês nascido na Normandia, em 1410. A imagem não deixa dúvidas: as pernas das bruxas balançam para ambos os lados dos cabos de madeira e seus rostos têm o queixo erguido para o céu, seu destino. Uma delas usa uma vassoura clássica e a outra um simples pau de madeira, igual nas duas pontas.

As vassouras, além da bruxaria, são utensílios dotados de um grande capital simbólico. Elas têm sido usadas, por exemplo, em propaganda e cartazes políticos, por partidos de direita e de esquerda, para reforçar seus ideais, varrendo, como se fosse sujeira ou pó, os do campo oposto. A vassoura também tem sido usada para estereotipar as mulheres e tentar associá-las, em chistes e piadas altamente sexistas, com as tarefas de limpeza e cuidados domésticos em geral.

As bruxas, se olharmos para várias investigações antropológicas e históricas, usaram a vassoura muito mais perto da fantasia lisérgica do que podemos imaginar. Assim, a vassoura na qual as bruxas deveriam voar tem uma origem real e, especificamente, terapêutica. A vassoura de madeira, de ponta arredondada e alongada, era usada como instrumento para aplicar pomadas e remédios por via vaginal e retal. As vassouras, seguindo essa hipótese, teriam nascido, portanto, não como meio improvável de transporte aéreo, mas como instrumentos sobre os quais se untavam remédios.

Nas assembleias, eram mantidas reminiscências de ritos pagãos, entre cujos objetivos estavam o tratamento e a erradicação de doenças. A aplicação dos unguentos que as bruxas preparavam era feita por via vaginal e retal, pois a absorção por essas vias é muito mais rápida do que pela pele e mais segura do que por via oral.

Em muitas ocasiões, as próprias bruxas testavam as doses em si mesmas para determinar as quantidades apropriadas. Erros de dosagem ou busca consciente por viagens psicotrópicas explicariam a sensação de flutuar ou voar na vassoura. Em alguns julgamentos por bruxaria, muitas passaram a admitir que voavam com suas vassouras sobre as pastagens e as povoações, não tanto literalmente quanto simbolicamente, auxiliadas por drogas como meimendro, beladona, espinheiro e mandrágora, o que causava alucinações de diversos graus.

Josep Fericgla, em Enteógenos y principales embriagantes tradicionales en el área mediterránea. La receta química de las bruja, afirma que foi essa aplicação de substâncias pela vagina que “gerou a velha imagem da bruxa voando em uma vassoura: na verdade, as mulheres europeias besuntavam suas mucosas vaginais com as poções que preparavam baseado em estramônio, e para isso tiveram que usar um bastão que permitisse a administração intravaginal. Como a alucinação aparece em poucos instantes, as mulheres tinham a sensação de alçar-se aos ares montadas no pau diabólico”.

As vassouras também teriam usos sexuais relacionados à exploração e ao prazer? Embora este ponto seja um pouco mais difícil de determinar de forma documental, pode-se inferir que o fato de se usar um objeto duro e alongado para a aplicação de remédios medicinais tem sem dúvida conotações eróticas. Isso se reflete, por exemplo, na gravura Linda maestra!, do pintor espanhol Francisco de Goya (1797-1799), da série Los caprichos, pertencente ao grupo temático Sueños y brujas. Embora expresse, como o resto da série, a forte oposição do pintor ao poder eclesiástico, também permite outras interpretações. No site do Museu do Prado, o trabalho é descrito da seguinte forma: “Goya, conhecendo bem os aspectos da bruxaria, teria captado o momento em que uma velha bruxa inicia uma jovem nessas práticas. Muitas das cenas de bruxaria foram interpretadas como alusões satíricas contra a Igreja, seus dogmas, seus mistérios e, especialmente, contra as ordens religiosas. Porém, esta imagem pode ter outra leitura: a iniciação sexual da jovem prostituta pela cafetina, tornando a expressão do pintor mais contundente: Linda professora!”

Será que a vassoura se converteu em dildo?

O orgasmo reside no espaço de intersecção de duas lógicas opostas. Ao mesmo tempo, doença e cura, desperdício e excesso. Ao mesmo tempo, veneno e remédio. O orgasmo está para a sexualidade o que, na leitura de Platão por Derrida, a escrita está para a verdade: pharmakon. (Manifesto contrassexual, Paul B. Preciado)

Restos de objetos cuja forma sugere que poderiam ser usados ​​para serem inseridos na vagina foram encontrados em todo o planeta, em culturas distantes geográfica e temporalmente. O dildo mais antigo conhecido é um objeto esculpido em pedra com cerca de 20 centímetros de comprimento e três de largura, descoberto na caverna Hohle Fels no sul da Alemanha, com cerca de 30.000 anos.

É curioso que, quando qualquer outro vibrador é descrito, ele seja referido como um “objeto na forma de um membro masculino” ou “um membro masculino de pedra”. Embora a antropologia sociocultural continue a debater quais eram os usos específicos desses objetos, entre eles estão o prazer sexual próprio, a aplicação de pomadas ou ritos de iniciação sexual.

Vários meios de comunicação que ecoaram a descoberta do dildo milenar o chamaram diretamente de “pênis”, verificando que tanto poderia ser uma representação da genitalidade masculina como também uma ferramenta para uso sexual. Nessas notícias, também é mencionado que as representações de vulvas e vaginas eram muito mais comuns, existindo restos delas muito mais antigos que aquele dildo. As representações do pênis, por outro lado, eram muito mais raras e difíceis de encontrar.

Rachel P. Maines, em seu livro La tecnología del orgasmo. La Histeria, los Vibradores y la Satisfacción Sexual de las Mujeres, mostra como era reconfortante para os homens que os primeiros dildos fabricados na Europa na época vitoriana tivessem o formato de um pênis humano. O que pode estar por trás desse esforço de assimilar o dildo ao pênis, transformando o segundo em modelo para o primeiro?

Paul B. Preciado, por sua vez, dá uma volta curiosa no parafuso em seu ensaio Manifesto contrassexual afirmando que “no começo era o vibrador. O dildo precede o pênis. É a origem do pênis. A sexualidade é uma tecnologia feita de máquinas, produtos, instrumentos, gadgets, truques, próteses, redes, aplicativos, programas, conexões, fluxos de energia e informação, interrupções e interruptores, chaves, leis de trânsito, lógicas, equipamentos, formatos, acidentes, escombros, mecanismos, usos, desvios… É hora de entrar na caixa preta do sistema e inventar uma nova gramática.”

Seguindo essa linha de pensamento, talvez o dildo sempre foi, sempre esteve lá, e o que aconteceu ao longo da história nada mais foi do que isso: os senhores se apropriaram de vassouras e outras formas fálicas usadas de forma criativa e dissidente, as recortaram e moldaram a seu gosto, e marcaram o roubo perfeito, fazendo dildos e vibradores com elas, e mais tarde afirmaram terem se baseado em seus próprios membros.

O dildo, nesse sentido, poderia ser um filho bastardo da vassoura, e cada vez que usamos um, sozinhas ou acompanhadas, estaríamos ressuscitando todas aquelas bruxas que, abrindo as pernas, experimentaram não só com as bases da farmacologia moderna, mas também com seu próprio prazer. Tanto as vassouras quanto os dildos desenham cenários de resistência ao sistema heterocêntrico, coitocêntrico e machista, ao contornar as convenções de sexo-gênero e sexualidade, criando imaginações radicalmente diferentes e com grande influência sociocultural.

Numa travessura de significantes e simbolismos – e abundantes como as formas fálicas o fazem na natureza, ao nosso redor –, por que não se aventurar a imaginar que os pênis surgiram após uma viagem no tempo? Uma viagem ao futuro em que a natureza descobriu o quão fascinantes eram as formas alongadas, os dildos grossos ou finos, que podiam balançar suavemente, inchar de alegria e descansar enrugados, como pedras escondidas no exuberante bosque. Desse modo, o fálico poderia ser dissociado da violência patriarcal para entender que era a repetição de uma masculinidade tóxica que pervertia as infinitas possibilidades de um órgão tão interessante.

Se voltarmos às raízes dos povos originários, onde os gêneros eram fluidos ou existiam a partir de outras coisas que não a mera corporeidade, talvez aí residam as respostas para o presente. Diante da presunção de um pênis e da determinação genética, a fantasia protética seria instalada. Assim como as bruxas usavam vassouras e os histéricos usavam dildos, agora as mulheres usamos cintos com falos artificiais, os homens trans transformam seus dedos em falos enormes e brincalhões, os de gênero fluido introduzem os seus em cavernas quentes, e um longo etc. A visão do pênis como possibilidade e não como determinação biológica poderia até pulverizar o debate do terf [feminista radical trans-excludente]: não se trata de haver pênis ou não, é de como o imaginamos e, sobretudo, como o representamos e retratamos.

Nesse sentido, seria interessante começar a introduzir o fálico nas ilustrações de reivindicação queer e feminista, para mostrá-lo em toda a gama de suas possibilidades, para desprovê-lo, ou pelo menos retirá-lo, dessa conexão entre o membro e a masculinidade hegemônica, para aproximá-lo de novos imaginários não só de masculinidade, mas, sobretudo, de fluidez e mudança.

Preciado defende no Manifesto contrassexual a erotização de todo o corpo em detrimento do corpo atomizado, recortado, dissecado. O saber-prazer seguiria, portanto, guiando nossos passos, iluminando assembleias dissidentes com labaredas de diversidade. Ao usar os dildos-vassouras, estamos introduzindo em nosso corpo esses saberes emancipatórios que as bruxas inventaram. Dessa forma, geramos nossos próprios prazeres, potencializando visões místico-eróticas, gemidos em línguas esquecidas e encantamentos em idiomas obscuros.

Na semana internacional da despatologização trans e em um momento em que o movimento feminista navega pelos debates em torno de quem é o sujeito do feminismo, parece oportuno resgatar dissidentes que fazem uso do fálico (comumente associado à masculinidade e aos homens cis) para desmantelar preconceitos e abrir caminhos de inclusão que vão além das mulheres cis. Quem disse que no ereto – no que tem glande, no cavernoso – também não há lugares para a ternura radical e a resistência ao sistema cisheteropatriarcal?

Ensaio de JuliaAmigo, publicado em Pikara online magazine em 20 de dezembro de 2020. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2020/10/escobas-y-dildos-disidencias-falicas-frente-al-patriarcado/.

Tradução: Luiz Morando.

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