Um textículo sobre pornografia

Esse lance de ser pró ou contra pornografia é furado, fruto do moralismo da classe dominante. A pornografia faz parte da nossa cultura. Há pornografia de boa qualidade e pornografia de má qualidade. Além do mais, a pornografia não existe isoladamente do meio social em que se encontra. Nenhuma arte, na verdade, existe fora do meio social em que se encontra. Isto Proudhon e Marx já haviam dito lá atrás.

A pornografia é uma arte. Enquanto tal, ela é um “fim em si”. O ator e a atriz pornô são ator e atriz. Ela é encenação, bem como são os filmes que assistimos no cinema, na Netflix, noutros canais streaming e na tv aberta. Assim como há filmes de boa qualidade e de má qualidade, há pornografia de boa qualidade e de má qualidade. Ninguém diz ser pró ou contra filmes ou qualquer expressão artística. Contudo, como bem ressalta Marx em seu “Debates sobre a liberdade de imprensa”, quando a arte deixa de ser um “fim em si” e passa a ser um meio, isto é, torna-se comercial – a tão bem conhecida “arte vendida” –, aí nos deparamos com um problema. E quando falamos de arte não estamos falando de pessoas trabalhando por amor, não. “Naturalmente”, diz Marx, “o escritor deve ganhar dinheiro para poder viver e escrever, mas, em nenhum caso, deve viver e escrever para ganhar dinheiro”.

Um dos problemas relacionados à pornografia mainstream é a sua industrialização, isto é, sua produção em massa, que torna a própria prática sexual algo idealista. Não há o constrangimento, a ansiedade, a curiosidade, os desencontros, as situações de desconforto, a presença de peido ou de aromas corporais, bem como de outros aspectos costumeiros do corpo. As cenas são decididamente higienizadas. As práticas sexuais giram em torno da heterossexualidade, de corpos aperfeiçoados, isto é, corpos idealizados. Contudo, se partimos para sites pornôs undergrounds, que costumam ser os mais acessados – e isso possui relevância, pois os mainstream são acessados por quem pode pagar assinatura –, a coisa costuma ser um tanto diferente. Há muito mais vídeos caseiros nesses sites do que vídeos profissionais. Neles nos deparamos com o suor, às vezes com o som de peido, do contato entre peles, da respiração pesada, de fezes, de mijo, da falta de disposição, do pau que murcha, da flacidez dos corpos, e, inclusive, de diferentes tonalidades de pele.

Há quem goste de mencionar sempre que necessário que a atriz pornô sofre exploração na pornografia. Isso não deixa de ser verdade. Contudo, essa não é uma realidade exclusiva da pornografia, mas de todo trabalho no contexto capitalista. A atriz é uma trabalhadora. Com isso, quero dizer que é de suma importância compreender a relação entre classe econômica e gênero. Atores pornôs também sofrem danos com a indústria pornográfica. Aquelas pirocas duras costumam resultar em problemas cardíacos posteriores, pois elas não ficam duras espontaneamente, isto é, dependem de medicamentos. No teatro também há abuso sexual, bem como há na indústria cinematográfica. A atriz Tippi Hedren conta que, quando interpretou a personagem Melanie Daniels no filme Os pássaros (1963), sofreu assédio sexual do diretor Alfred Hitchcock. O produtor Harvey Weinstein, famoso pelos filmes Pulp fiction e Gangues de Nova York, foi demitido após acusações de assédio sexual virem à tona em matérias da revista New Yorker e do New York Times. Isso não se restringe ao campo da arte. A nadadora Joanna Maranhão denunciou o ex-técnico Eugênio Miranda por estupro. Contudo, o moralismo faz com que olhemos única e exclusivamente para a pornografia.

Erika Lust, diretora de cinema adulto independente, produz filmes pornográficos que fogem ao que concebemos como “pornografia”. O vídeo independente Two beautiful girl with tan line…, disponível no site Xvideos, provoca uma surpresa – agradável para muitos – após 9 segundos de vídeo. É outro corpo que se torna presente, é uma quebra de expectativa o que se realiza. O filme brasileiro Hungry Bitches, popularmente conhecido como 2 Girls 1 Cup, produzido pela Fachini Media, é caracterizado pela interação erótica entre duas mulheres cisgênero explorando o fetiche da coprofilia com cenas de defecação, coprofagia e vômito. O trailer desse filme, com um minuto de duração, se tornou um vídeo viral, considerado um fenômeno na internet pela popularidade junto a bloggers e fóruns de discussão. Ele não atende ao que se espera dum filme pornô. Nele, a penetração, que se costuma considerar como marca registrada do pornô – e que não deve ser compreendida como algo negativo, tal como fazem algumas militantes do movimento feminino de direita conhecido como “feminismo radical” –, não possui razão de ser alguma. Erika Lust, que mencionei no início do parágrafo, faz parte do que se compreende como pornô feminista. Há também Diana J. Torres, que possui um site pornô chamado Pornoterrorismo. Diana é conhecida por suas performances artísticas feministas mesclando poesia e masturbação.

O capitalismo faz da obra de arte uma mercadoria. Templos hindus com corpos nus e às vezes transando são manifestações pornográficas, bem como é o kamasutra – que, aliás, só conhecemos um dos seus sete capítulos. Adivinhem: o capítulo que conhecemos é o que diz respeito à sexualidade que correspondia à sexualidade burguesa –, mas aí é tudo considerado como estética erótica, como se a pornografia não fosse erótica. No contexto capitalista patriarcal, obviamente, a pornografia será despojada de seu erotismo em prol de sua transformação em mercadoria, bem como a sexualidade será reduzida a mera reprodução. Além do mais, a negação da pornografia é uma característica da classe dominante. Poetas e escritores de mais conteúdo erótico, como Byron, Shelley, Júlio Ribeiro, Boca do Inferno [Gregório de Matos], Álvares de Azevedo (este possuía inclusive uma escrita considerada informal na sua época), costumavam ser mais lidos entre os proletários, ao passo que entre a classe dominante era regra a literatura romântica, que prezava a moralidade. Costumamos achar que, por conta disso, a negação da pornografia consiste em algo “bom”, pois condiria a uma condição de existência melhor, mas não é assim que a banda toca. A burguesia afirmava esse tipo de literatura, pois é o que diz respeito à sua forma de vida, à instituição da família nuclear, da heterossexualidade compulsória, do dimorfismo e da hierarquização sexuais. A prática da sodomia – dar o cu –, que era condenada pela burguesia, era tema comum na literatura que o proletariado lia.

Não vou me estender como gostaria. O que quero dizer com este textículo é que devemos parar de analisar a pornografia em termos morais. É preciso compreendê-la de maneira situada, compreender seu contexto, escrever sobre ela, sem recorrer ao moralismo, sem cair nas armadilhas da mentalidade de classe média que tem se infiltrado cada vez mais nos movimentos sociais. Enquanto vivermos numa sociedade dominada pelo capitalismo, estaremos constantemente lidando com manifestações da classe dominante em nosso viver cotidiano. Se não nos atentarmos a isso, se não nos propusermos a pensar como nos tornamos o que somos – e isso diz respeito a como pensamos sobre as coisas –, continuaremos dando vazão aos anseios da classe dominante.

Inaê Diana Ashokasundari Shravya

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