Prefiro muito mais o “samba do crioulo doido” do que o samba do branco manco

(Numa roda de capoeira)

Capoeirista: VOU DIZER A MEU SENHOR,

(Silêncio)

Há uma lacuna nessa esquete e quero, até o final deste texto, decidir qual vai ser a melhor resposta. O preenchimento dessa lacuna está relacionado com o desejo e a vontade política do ator da cena e nesse espaço de disputa não há a “História dada” ou como “fato” (História daqueles historiadores que mandam ler um livro quando há posições divergentes às deles, ignorando o processo de assassínio e apagamento da “História oficial”; ou a História dos porta-vozes da deusa “Tradição” com seu primeiro mandamento de “as coisas sempre foram assim”). As escolhas possíveis para essa lacuna extrapolam qualquer dualidade da modernidade e da democracia burguesa que sempre tentam dar respostas “definitivas” antagonizando as discussões, criando “lutas” entre o bem e o mal, entre candidatos x e y, ciência e natureza, homem e mulher etc. Na melhor simulação da fala deles, eles dizem: “escolha o menos pior, tenha modos e não se exceda” e mandam o neguinho dar continuidade à peça:

Capoeirista: VOU DIZER A MEU SENHOR QUE A MANTEIGA DERRAMOU

A MANTEIGA NÃO É MINHA, A MANTEIGA É DE IOIÔ.

Nas expressões afro-indígenas brasileiras[i] não é incomum vermos músicas, palavras, comportamentos que traem a vontade de ser livre desses corpos. Não quero de modo algum negar as muitas potências das expressões afro-indígenas (potência de luta e resistência ao ritmo compassado da marcha da colonialidade), mas se faz necessário reconhecer os elementos transfóbicos, misóginos, racistas, classistas que também estão presentes nessas manifestações. Como ilustrado na nossa esquete, após a ordem dos diretores da colonialidade para continuar, vemos a criação da necessidade de cantar uma música que marque a posição de subserviência do corpo negro ao Ioiô (leia-se aqui: branco, proprietário, capitalista, heterossexual, patriarcal). Quero chamar essa ordem dos diretores de embranquecimento das expressões populares.

O embranquecimento das expressões populares faz com que leituras interseccionalizadas – leituras que atravessam os corpos periféricos, marginalizados, criminalizados – sejam taxadas como o início da ladeira abaixo e do futuro escatológico em que ninguém se entende (uma dramaturgia branca do final dos tempos que só poderia existir mesmo dentro da cabeça dos racistas, dos machistas, dos transfóbicos, dos classistas ao perceber uma possível ameaça ao seu status quo); a reflexão interseccionalizada é, então, taxada como “muito problemática”, “confusão generalizada”, ou melhor, “samba do crioulo doido”. Geraldo Firme, no samba Vá cuidar de sua vida, traz muito bem esse processo de embranquecimento das expressões afro-indígenas no racismo brasileiro: “Negro falava de umbanda, branco ficava cabreiro / Fica longe desse nego, esse nego é feiticeiro / Hoje negro vai à missa e chega sempre primeiro / O branco vai pra macumba e já é babá[ii] de terreiro”. Será que ninguém vai se entender nesse “futuro escatológico” ou será que os corpos dissidentes nunca se entenderam com essas músicas, expressões, práticas, falas atravessadas pelo desejo do dominante? Será que esses posicionamentos não serviram apenas para alimentar a vontade de sinhozinho em ver os corpos “livres”, mas “livres” sem excessos, sem pôr em risco sua posição de classe privilegiada, de centralidade, de salvador do “fardo negro”? Esses posicionamentos serviram apenas para alimentar a vontade do sinhozinho de embranquecer o negro. Melhor dizendo, a princesa boazinha está salva nessa versão do dominante!

Voltando às nossas escolhas para a lacuna, acredito que, afirmativamente, devemos tomar posição política e dizer “NÃO” a esses desejos dominantes e “SIM” a todas as possibilidades de libertação dos corpos; dizer sim para uma libertação que vai para além da vontade liberal que cria “liberdades” que se encerram com as dos outros. A nossa liberdade só se dará de fato quando ela estiver associada a todas as liberdades dos outros e em igualdade com equidade. Como diz Komboa em seu livro Anarquismo e revolução negra: “amor perfeito para o povo, ódio perfeito para o inimigo”. Construindo novos desejos e mundos, devemos ser capoeiristas e alertar ao senhor:

Capoeirista: VOU DIZER A MEU SENHOR, CAPOEIRA JÁ MATOU

CAPOEIRA É LUTA MINHA, RESISTÊNCIA AO SENHOR.

Yago Pena é colaborador do Resista! Acompanhe seu Instagram artístico (@ilestracoes).


[i] Vejo necessidade aqui de marcar essa qualidade de “brasileiro” para somar ao meu pensamento o processo de forçação – com procedimentos na violência, no estupro, nas baionetas, nos ossos quebrados, nos cassetetes, nos coturnos no pescoço – aos corpos afro-indígenas como elementos do povo “encontro das três raças”.

[ii] Babalorixá ou pai de santo.

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