Interseccionalidade e feminismo decolonial. Voltando ao tema

O feminismo decolonial e antirracista é vendido hoje como pão quente em cada esquina. Enquanto isso nos enche de satisfação, devo admitir que uma angústia me invade. À medida que o movimento se expande, deparamo-nos com um problema latente: o risco que corremos é o da perda de identidade e radicalidade do gesto, processo através do qual muitos dos postulados críticos que nos encorajaram e nos guiaram nas batalhas que travamos contra o feminismo branco parecem se diluir ou se perder com o passar do tempo. Eu me pergunto o quanto desse processo de expansão de uma consciência decolonial acaba sendo mais nominativo do que substantivo.

Quando cheguei ao feminismo, vi como um punhado de feministas negras se uniu em 1992, criando uma rede que as articulasse, ao mesmo tempo em que censuravam o feminismo pela falta de mulheres negras em seus espaços. Esse movimento de curto prazo não se intensificou uma vez que boa parte de suas principais lideranças conseguiu se inserir no mainstream feminista e em seu mercado de trabalho, nas instituições estatais e na cooperação internacional. Pouco mais de uma década depois, e já em um novo século, algumas das participantes ou testemunhas daquele 1992 foram forçadas a retornar à questão e o fizemos tornando a análise mais complexa e revisando o programa político a seguir. Digo que fomos forçadas pelas circunstâncias, depois de ter persistido em fazer parte do movimento feminista unificado e sob o lema da irmandade entre as mulheres, acabamos percebendo o falso. Daí emergiu um gesto radical que permitiu uma crítica contundente ao feminismo hegemônico e contra-hegemônico (de onde algumas de nós viéramos) observando suas cumplicidades com o eurocentrismo, portanto, com o racismo e a colonialidade. Nesse processo de distanciamento, decidimos nos envolver ativamente na promoção de um movimento de feministas não brancas capaz de enfrentar o mais difundido entendimento feminista e seu programa de libertação. Tornamos esse novo momento conhecido como feminismo decolonial ou feminismo antirracista. Mas nesse ínterim, novas nomenclaturas surgiram ou foram reapropriadas: feminismo negro, afrofeminismo, feminismo interseccional etc.

Essa última nominação recria o que talvez seja uma das contribuições mais importantes e conhecidas do feminismo negro: a interseccionalidade. Essa perspectiva é aquela que reivindicamos como lugar-comum às feministas racializadas e, cada vez mais inesperadamente, às feministas de todos os matizes. Com o tempo, no entanto, aquelas de nós que o introduziram na política feminista latino-americana, as mesmas que se dedicaram ao seu estudo rigoroso, vemos um uso cada vez mais difundido do substantivo “interseccional” para justificar leituras da realidade, na minha opinião, cada vez mais distantes daquelas que iniciaram o processo de pensamento graças ao qual Kimberle Crenshaw cunhou o termo nos anos 70 do século passado. Se as primeiras feministas decoloniais antirracistas da América Latina e do Caribe já observavam as vantagens e fragilidades da análise interseccional, nos últimos anos vimos como esses problemas se agravaram sob uma recepção, a meu ver, distorcida, que dá continuidade à história e ao programa feminista inicialmente produzido pelo feminismo branco que tentamos enfrentar, mas que agora aparece disfarçados sob discursos ou autoidentificações que pretendem assumir essa perspectiva.

A isso deve ser adicionado um novo problema com o qual não contávamos: o feminismo negro ou o afrofeminismo contemporâneo, ao se nomear a partir de uma identidade, carrega consigo o problema da política de identidade. Em suma, isso se refere à falsa crença de que há uma unidade entre experiência, política e desejo. Embora, de fato, a interseccionalidade só tivesse que surgir de corpos racializados, isso não se aplica ao contrário: nem todos os corpos racializados teriam que desenvolver essa perspectiva de forma “natural”. Algumas de nós passaram anos estudando-a, aplicando-a, aprendendo com a experiência, observando seus desdobramentos e limites. Dominar a interseccionalidade vai além de citar nomes lendários cujas obras não estudamos em profundidade, porque, se o fizéssemos, talvez não as citássemos, pois suas posições são muito diferentes das que estamos sustentando.

Estamos em um momento em que mulheres e pessoas não normativas de gênero e sexualidade brancas, assim como companheiras racializadas ou de origem subalterna, falam indistintamente de interseccionalidade e até fingem ensinar do que se trata ao mesmo tempo em que se vê com pesar como deixam intacta a análise e a política feminista a que veio se opor. A interseccionalidade não é uma identidade, não cai do céu, não é herdada, não é uma condição natural pertencente a algum grupo. Essa ideia de que um sujeito por sua única condição carrega ou representa naturalmente um projeto político é um erro grave que deveríamos evitar. Tampouco, a interseccionalidade é investigar ou trabalhar com populações indígena, afro ou popular; na verdade, isso sempre foi feito. Se, ao dizer interseccionalidade, o discurso feminista permanece intacto; se o argumento, a análise, o tratamento é apenas aplicar as máximas convicções e verdades feministas (brancas) para a compreensão do mundo daquelas que estão abaixo e redobrar a aposta ao apontar que aí tudo piora, estamos entendendo mal a tarefa.

Ao contrário, a interseccionalidade nos leva a uma nova forma de interpretação que abandona o ponto de vista feminista conhecido e centrado no gênero por um mais compreensivo. O fracasso dos principais sistemas críticos de interpretação da ordem social – marxismo, feminismo, teoria crítica da raça – consiste em que cada um tenta dar uma interpretação a partir do que assume como eixo fundamental de dominação. Ao partir desse pressuposto, constrói-se uma falsa unidade da coisa definida por esse eixo ou categoria, bem como uma falsa ideia de autonomia da categoria. Mas há uma indissociabilidade da dominação e da experiência de dominação que excede ao método categorial que tenta explicá-la.

Mas atenção, como nos adverte María Lugones: a interseccionalidade não resolve o problema, apenas o mostra. A interseccionalidade pode dar a falsa impressão de que, além da intersecção, esses conjuntos existem e funcionam independentemente. A realidade é que o conjunto “gênero”, por exemplo, é uma produção historicamente pensada e vivenciada pelas mulheres brancas e tudo o que se segue é pensamento delas. Portanto, todas as verdades, as posições, as estratégias elaboradas a partir da categoria de gênero NÃO SERVEM para pensar as condições de nossa dominação como racializadas. É por isso mesmo que a interseccionalidade não é pegar essas interpretações e replicá-las para as mulheres negras, apontando que “além do racismo, a ordem de gênero nos afeta”. Afirmar isso não é entender que o gênero é sempre condicionado pela colonialidade e estruturação racial do mundo.

Para que você entenda do que estou falando, quero dar um exemplo. A grande maioria das feministas que hoje diz ter uma visão interseccional ou antirracista (incluindo feministas negras), bem como parte da academia e das instituições, de fato, tem incorporado uma sensibilidade face ao racismo. Isso não significou, entretanto, o abandono do ponto de vista feminista branco quando se trata dos problemas que a teoria e o programa feministas definiram como seus. Então você conhece feministas que se escandalizam com o assassinato de George Floyd ou com o Estado chileno que deixou Machi Celestino morrer em greve de fome por uma condenação injusta. São as mesmas pessoas que estão horrorizadas porque as prisões estão cheias de aldeões, homens negros e indígenas, migrantes de países pobres do sul no norte global e pessoas racializadas em geral. Digamos que, diante desses problemas evidentemente advindos da analítica crítica do racismo, parece haver um consenso de indignação geral em nossos movimentos feministas e de esquerda.

Ora, é altamente contraditório que essas mesmas pessoas sejam as que vão concentrar suas demandas de justiça para as mulheres com base em uma condenação exemplar (por via judicial ou por escracho e proscrição social) para aqueles que cometeram algum tipo ofensa contra “as mulheres”, desde a menor ofensa até a mais cruel e implacável como o homicídio. A justiça feminista pedirá mais prisões, maior controle policial e penas mais altas contra estupradores, abusadores, assassinos, traficantes etc. Quando se trata de crimes menores, o nível de crueldade não será menor, embora seja processado por meio de escárnio e perseguição pública. Para a justiça feminista, todos os homens são igualmente suspeitos, independentemente de sua origem étnico-racial, sua condição social, sua origem. Se já foi aceito que as mulheres não são uma única categoria, isso não parece afetar o tratamento dos homens da espécie. Todos receberão o mesmo tratamento… ao menos em teoria. Porque, devemos nos lembrar, as faces mais visíveis e representativas desses machos, abusadores, estupradores, assassinos, traficantes de drogas… a grande maioria é formada por homens racializados.

No entanto, para além de um sistema judicial injusto e racista que condena os pobres e liberta os poderosos, para além das condenações de inocentes apenas por ostentarem a sua cara, estes homens estão ali porque cometeram um crime, não porque sejam santos. Temos isso em mente na hora de condená-los e pedir justiça porque tocaram em uma mulher, mas parece que esquecemos ou decidimos dar outro tratamento quando ficamos indignados porque as prisões estão cheias de negros e indígenas. Enquanto em um caso somos implacáveis ​​em pedir sua cabeça, em outro, ficamos indignados com um sistema que sistematicamente os condena como escória social. Parece que não se trata do mesmo sujeito, mas não, afinal é o mesmo sujeito racializado que em um caso produz empatia por ser vítima de uma ordem social que o condena e em outro caso só merece nossa crueldade, repúdio e condenação; se antes ficávamos horrorizados com a ação policial, agora somos os algozes que anunciam sua morte, gritando para o Estado e a polícia agirem.

Como explicar isso? É exatamente sobre isso que a interseccionalidade nos adverte. É que respondemos de acordo com a definição do problema e seu tratamento desenvolvido a partir de cada um desses conjuntos analíticos produzidos de uma categoria central. Cada problema foi definido a partir de um sistema de interpretação e daí se define o tipo de resposta, atitude ou solução para o mesmo. Ao tratarmos dos problemas clássicos da luta antirracista, aplicaremos o tratamento que emerge desse programa de interpretação e ação; quando se tratar de “mulheres”, aplicaremos a análise e o programa político do feminismo… branco!

Portanto, sejamos claros: ou concordamos que matem ou aprisionem a todos, ou começamos a pensar seriamente nos processos constitutivos dessa masculinidade violenta que, é claro, ultrapassa a análise de gênero, porque não se trata apenas de lhes dar bolas e armas de brinquedo desde crianças, trata-se de condições estruturais históricas que estão configurando essa subjetividade.

O desafio que a interseccionalidade nos apresenta implica o abandono progressivo do olhar categorial e somativo, por um mais alquimista onde a ordem de gênero sempre está racializada e mediada geopoliticamente; um onde esses tratamentos se fundem, produzindo um novo, distante das formulações as quais o feminismo nos acostumou. Isso nos permite caminhar em direção a uma política e de forma muito diferenciada de acordo com o lugar que ocupamos comunitariamente dentro da matriz de dominação e, concomitantemente, a forma como agimos para enfrentá-la. Não deveríamos esquecer isso na análise ou na definição de estratégias para impedir os problemas que enfrentamos de um ponto de vista não dominante e dos mais afetados pela colonialidade.

Texto de Yuderkis Espinosa Miñoso publicado em Pikara online magazine em 16 de dezembro de 2020. Disponível em: https://bit.ly/34y2rC1

Tradução: Luiz Morando.

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