Romantização da autoestima: uma discussão sobre gordofobia, saberes e posturas decoloniais

Sim, esse título pretende ser provocativo e surge justamente das lembranças de inúmeras vezes em que ouvi pessoas magras falarem em “romantização da obesidade” ao se referirem ao movimento antigordofobia. Escrevo este texto com base no lugar que ocupo atualmente: o de uma mulher gorda, branca, feminista, leitora, defensora de uma postura decolonial para a vida e doutoranda em Letras num país que desacredita da ciência e das artes. A partir da minha formação leitora de criança/adolescente/adulta, a qual permitiu que, muitas vezes, eu me refugiasse do mundo nos livros, e da minha atuação no campo das letras, convido as/es/os leitoras/es à reflexão sobre a romantização, as implicações do termo romantização da obesidade e, ainda, sobre a romantização – esta sim, contraditoriamente, palpável – da autoestima.

Na seara literária, o Romantismo foi o período em que, na sua primeira geração brasileira, houve o predomínio da literatura indianista. Conforme analisa Jairo da Silva e Silva, o indígena foi colocado como símbolo de identidade nacional, a partir de uma representação construída por autores não indígenas que tiveram como molde o cavaleiro medieval.[i] Reproduziram, assim, uma perspectiva eurocentrista, idealizada, a qual não correspondia à realidade brasileira. Já na segunda geração, a temática principal era direcionada aos amores impossíveis, às santas virgens irreais, ao sobrenatural e à exaltação da morte e do sofrimento, em textos escritos por autores ainda jovens que apenas sonhavam com os temas que escreviam, em busca de escapismos e viveres desregrados por noitadas e bebidas. Por sua vez, a terceira geração romântica, ainda que mais próxima das problematizações sociais, também transitava por amores ora impossíveis, ora carnais; além de idealizar a liberdade, a luta abolicionista e a figura de escravocratas e escravizados, tal como o fizera Joaquim Manuel de Macedo em As vítimas-algozes: quadros da escravidão (1869)[ii].

Em comum, as três gerações trouxeram interpretações idealizadas, imaginadas sobremaneira em relação à realidade, não tendo com esta, majoritariamente, o compromisso da verossimilhança, de uma representação similar ao que ocorria no entorno social. Essa idealização conduziu, portanto, a uma romantização da realidade pungente, ignorando, muitas vezes, os problemas e sobredourando os contextos representados na literatura.

Romantização, nesse sentido, é sinônimo de idealização escapista e fugidia, de criação imaginativa que não corresponde a determinada realidade, pois a falseia e a idealiza como situação idílica, isenta de problematizações. Nessa perspectiva, quando alguém denomina a luta antigordofobia como romantização da obesidade está justamente querendo dizer que há uma idealização escapista da obesidade e que, como tal, se quer falsear idilicamente a realidade acerca das vivências em torno do corpo gordo. Convenhamos que há, nessa interpretação, ou muita ignorância, muito desconhecimento sobre o movimento antigordofobia ou, por outro viés, muito mau-caratismo e falta de interpretação de texto alinhada ao interesse do capital em controlar os corpos.

Esse discurso de que a obesidade é romantizada vem permeado de falsas informações acerca do que é o movimento antigordofobia, que em nada pleiteia um olhar idílico sobre uma doença. Muito ao contrário, a luta antigordofóbica traz inúmeras problematizações acerca da realidade de pessoas gordas, tendo em seu cerne o combate à gordofobia e a despatologização do corpo gordo. O que se pleiteia, de forma muito objetiva, é que parem de considerar todo e qualquer corpo gordo como doente, e que a obesidade, nos casos em que ocorrer, seja compreendida por um viés multidisciplinar. Para tanto, é preciso revisar o que se tem caracterizado como obesidade – dado que já está cientificamente comprovado que ter como único critério de análise o Índice de Massa Corporal (IMC) é, além de limitante, insuficiente.[iii] Por essa perspectiva limitada, toda pessoa gorda seria obesa e não seria possível que existissem corpos gordos saudáveis – o que, inclusive, também tem sido indicado para a revisão, tal como o uso do termo “obesa/e/o”.

Por esse viés, insistir na ideia de romantização da obesidade é de uma violência enorme, porque não apenas tenta desqualificar um movimento legítimo, que é a luta antigordofobia, como é extremamente gordofóbico ao colocar todas as pessoas gordas na condição de doentes. Com isso, mais uma vez, há uma invisibilização das pautas dessas pessoas. Quem, em sã consciência, vai romantizar a falta de acessibilidade, a ridicularização do seu corpo, o fato de ser tratado como um corpo doente pela sociedade? Em que auxiliaria idealizar idilicamente os xingamentos, as ofensas, a zona de abjeção reservada aos corpos gordos? Qual a finalidade de romantizar o sofrimento de ser tratado como “inútil”, “feio”, “repulsivo” e “inadequado” pela sociedade? Como idealizar de forma romântica a solidão, a rejeição, o direito negado à sexualidade, a opressão socioestética imposta aos corpos gordos? Insistir em ignorar todas essas problematizações levantadas pelo movimento antigordofobia, afirmando que o pedido de respeito aos corpos gordos se trata de romantização da obesidade, é não reconhecer o direito à existência de todos os que são gordos e exigem, unicamente, respeito e liberdade em e para com as suas vidas.

Nesse sentido, a romantização da obesidade, além de uma falácia, aparece como um instrumento biopolítico a favor do controle dos corpos. É preciso, nessa perspectiva, parametrizar corporalidades e instrumentalizar discursos que atuem de modo gordofóbico a partir da ótica da preocupação com a saúde, em nome da “beleza” e em favor do capital socioestético – incorporado a este último todo o lucro da maquinaria cosmética e da biomedicina patologizante. Desse modo, a imposição de padrões corporais, tendo em corpos magros o ideal hegemônico a ser atingido por todas/es/os as/es/os sujeitas/es/os, atualiza novas formas de colonizar saberes e poderes sobre os indivíduos. De forma particular, tal imposição é veiculada em mídias, geralmente sob o viés da saúde e da aceitação social, acentuando o protagonismo de pessoas magras, malhadas, com barrigas definidas, brancas de corpos bronzeados e cabelos lisos, exibindo a estas como modelos a serem alcançados. Perpetua, assim, a gordofobia – preconceito direcionado às pessoas gordas – de forma entrecruzada ao racismo, às questões de gênero e sexualidade, à condição social e à violência.

Na esteira dessas proposições, uma das formas mais violentas desse discurso de romantização da obesidade está, justamente, na culpabilização de pessoas gordas. A estas é atribuída a “culpa” por serem gordas: comem descontroladamente, são viciadas em comidas gordurosas, não se esforçam em dietas restritivas, são sedentárias, são desleixadas, não se cuidam, não têm autoestima. Por esse paradigma, o corpo gordo é sinônimo do fracasso individual, em oposição ao corpo magro, visto como o representante do sucesso. Percebem a violência que é atribuir a uma pessoa o sucesso ou o fracasso simples e unicamente pelo corpo que ela tem? Além disso, é preciso ressaltar ainda que sucesso e fracasso são muito relativos e subjetivos, variando de acordo com os ideais de cada pessoa.

Como falar, então, que o discurso de romantização da obesidade está preocupado com a saúde de quem é gordo se não há, por exemplo, o mínimo cuidado com a saúde mental e com as consequências devastadoras desse tipo de discurso na vida daqueles que somente desejam respeito por suas existências? Uma das faces mais violentas desse não-cuidado é a reprodução e imposição de um discurso superficial sobre autoestima – tratada, neste texto, com foco nas relações com a gordofobia, mas entendemos que a crítica se aplica às relações entre a superficialização da autoestima e demais fobias e preconceitos sociais. Com isso estou querendo dizer que autoestima não é importante? Jamais! Ela é fundamental no processo de empoderamento e decolonização de saberes e poderes a fim de assumir uma postura antigordofóbica e de aceitação sobre o próprio corpo gordo. O problema aqui está, justamente, na romantização da autoestima.

Conforme discuti anteriormente, a romantização pode ser compreendida como uma interpretação idealizada e idílica sobre determinado aspecto. Ora, quando a autoestima é alçada à solução mágica que resolve todos os problemas de quem é gordo, isso nada mais é do que romantização da autoestima e forma de controle sobre o corpo do outro. Aqui, a romantização é, de fato, romantização. Dizer a uma pessoa gorda que ela deve ter autoestima se bifurca em dois caminhos: 1. Se ame, o que pode ser entendido como “se esforce e emagreça”; 2. Você é gorda/e/o, só precisa de autoestima para resolver seus problemas. As duas abordagens são falaciosas e idealizadas, pois nem o emagrecimento está ligado somente ao esforço, muito menos deve ser a única opção de felicidade para as pessoas gordas, nem a autoestima resolve todos os problemas de quem é gorda/e/o. Se uma pessoa gorda quer emagrecer, muito obviamente ela tem total direito de fazê-lo. O que é preciso questionar é o quanto essa decisão parte de anseios próprios e o quanto se adere a ela a partir somente de imposições biopolíticas instrumentalizadas em discursos de saúde, beleza e controle social.

A autoestima não deve ter como finalidade única levar ao emagrecimento e, ao contrário, ela é fundamental para que uma pessoa gorda assuma uma postura decolonial quanto aos saberes e poderes instituídos socialmente por meio da colonização, bem como da neocolonização.[iv] Isso permitirá reconhecer beleza em seu próprio corpo e encontrar forças para enfrentar as estigmatizações provenientes de um preconceito estrutural como a gordofobia. Contudo, ilude-se quem pensa que esse é um processo fácil. Não é! É extremamente necessário, é urgente, mas não é fácil. Inclui altos e baixos, consciência sobre o corpo e seus limites, ressignificação do termo gorda/e/o, bem como autoconhecimento. É, portanto, ilusório e idealizador vender a ideia de que ter autoestima é algo que se consegue da noite para o dia, num piscar de olhos, assim como é falso que tudo se resolve com autoestima. Não! Defender isso é romantizar a autoestima.

Essa romantização incorre em nova culpabilização da/de/do sujeita/e/o gorda/e/o que, por vezes, não consegue desenvolver rapidamente esse olhar de estima para si mesma/e/o ou, ainda, que não emagrece milagrosamente como indicam as mil fórmulas prontas de emagrecimento. Em seus desdobramentos, mais uma vez a pessoa gorda adentra o círculo daquilo que é supostamente tido como fracasso: não se ama, não tem autoestima, não se esforça, não emagrece – como se emagrecer fosse a única opção possível para quem é gorda/e/o. Isso é muito violento, sobretudo porque traz para o campo de responsabilização individual algo que é social, que deve ter claras contrapartidas sociais. Como exigir de alguém autoestima se, socialmente, essa pessoa é a todo o momento rechaçada, humilhada, apontada socialmente? Que amor próprio resiste a não passar nas catracas dos ônibus e a ser ridicularizada/e/o por isso? Ou, ainda, a ir a um passeio e perceber que as cadeiras do local não lhe cabem? Como viver com autoestima sendo gorda/e/o num mundo feito para magros?

Não há, desse modo, autoestima que se sustente sem que haja, conjuntamente, a criação e adoção de políticas públicas voltadas à inclusão de pessoas gordas na sociedade, bem como um amplo movimento de conscientiz-Ação social sobre o que é a gordofobia e de como esse preconceito é nefasto. Sustentar discursivamente o contrário dessa proposição é, justamente, romantizar a autoestima, atribuindo a esta um caráter individualista que não condiz com a vida em sociedade. É, portanto, urgente que a gordofobia seja debatida, que a patologização dos corpos gordos seja combatida e, conjuntamente, que o processo íntimo de autoestima dos sujeitos seja desenvolvido, promovendo o empoderamento e a aceitação em uma via de mão dupla – pessoal e social. O oposto disso é, apenas, sustentar um discurso superficial, idealizado e idílico que incorre na romantização da autoestima e em mais sofrimento para as pessoas gordas.

Cabe, portanto, a nós, que somos gordas/es/os, enfrentar, resistir e decolonizar essas amarras que buscam limitar nossas existências. É preciso que, cada vez mais, possamos ter espaço e voz, seja no trabalho, seja nos estudos, seja nas redes sociais, seja na família/nos grupos sociais que frequentamos. Isso para que escrevamos na história as nossas próprias narrativas, construindo espaços coletivos de empoderamento gordo, no intuito de visibilizar a possibilidade de vivências outras, evidenciando que o emagrecimento não é nosso único caminho. Afinal, se é para romantizar algo, que seja para transformar em verbo, em ação, o doce sentido literário dos poemas amorosos com finais felizes – que estes se traduzam em encontros afetivos entre corpos, preferencialmente, gordos. Pois, sim, também temos direito ao amor e a amar!

Leila Cunha Raposo, mulher, gorda e feminista. Um corpo decolonial em território de saberes e poderes colonizados. Pesquisadora, doutoranda (PPGL/UESC), mestra em Letras. Bolsista Fapesb (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia), num país que desvaloriza a educação, a ciência e as artes.


[i] SILVA, Jairo da Silva e. “Acho que educar é como catar piolho na cabeça de criança”: reflexões sobre a literatura indígena em provas do Enem. Tear. Revista de Educação Ciência e Tecnologia, v. 9, n. 2, 2020, p. 1-17.

[ii] MACEDO, Joaquim Manuel de. As vítimas algozes: quadros da escravidão. (1869) 4. ed. São Paulo: Editora Globo, 2015.

[iii] Sobre esse tema, consultar: FLEGAL, Katherine; KIT, Brian; ORPANA, Heather et al. Association of All-Cause Mortality With Overweight and Obesity Using Standard Body Mass Index Categories: A Systematic Review and Meta-analysis. 2012. Disponível em: <http://jama.jamanetwork.com/article.aspx?articleid=1555137&gt;. Acesso em: 12 jan. 2020.

[iv] Sobre o movimento antigordofobia em perspectiva decolonial, defendo que é preciso decolonizarmos saberes e poderes a fim de agenciarmos possibilidades outras de existências em nossa sociedade. Mais informações sobre a temática podem ser encontradas em: RAPOSO, Leila Cunha. Antigordofobia em perspectiva decolonial. Resista! Observatório de resistências plurais, 17 nov. 2020. Disponível em: <https://resistaorp.blog/2020/11/17/antigordofobia-em-perspectiva-decolonial/>.

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