#MeTooGay: quando internautas quebram o tabu das violências sexuais na comunidade gay

Desde quinta-feira, 21 de janeiro, esta fanqueada a palavra sobre as violências sexuais na comunidade gay. Depois que um usuário acusou o parisiense Maxime Cochard, eleito para a subprefeitura do 14º distrito, e seu companheiro de estupro e agressão sexual, o Twitter viu a hashtag #MeTooGay – sempre muito alta no trend topics dessa rede social – graças à qual internautas relatam sobre agressões e violências sexuais sofridas.

Na esteira do #MeToo e, mais recentemente, #MeTooIncest, centenas de homens relatam essas vezes em que seu consentimento não foi levado em consideração, desde a infância até a idade adulta. “Eu tinha 10 anos, era uma pessoa da minha família que eu idealizava, em quem confiava. Lembro-me de onde e a maneira, como se fosse ontem. É a primeira vez que fala sobre isso”, diz, por exemplo, esse internauta.

“Ele era meu namorado”

São também as primeiras vezes para muitas pessoas que testemunham experiências de agressões sexuais traumatizantes. “Sempre considerei que na minha primeira vez tudo deu errado, mas pelo menos estava resolvido e que eu tinha mais coisas para cuidar para além disso. Lendo seus depoimentos, lembro que não foi bem isso naquela noite, ele sabia disso, ele aproveitou a ocasião para me trazer para sua casa”, diz um tuíte.

Os internautas também relatam muitos fatos de sexo forçado, de relação de dominação e influência de homens mais velhos ou em posição de poder – ou capazes de revelar a orientação sexual das vítimas se elas ainda não tivessem saído do armário. Numerosos depoimentos também insistem no estupro conjugal: “Era sempre de manhã, eu não reagia aos avanços na cama, na esperança de que ele parasse de insistir, eu virava s costas para dar a entender que não, eu cedia me fazendo de morto para evitar discussões, ele era meu namorado”, conta, por exemplo, este internauta.

“Não estamos mais nos divertindo”

Mas o meio da noite também é apontado como um momento em que o consentimento seria frequentemente ignorado. “Meu #MeTooGay remonta há pouco tempo, eu conhecia meu parceiro. Ele estava atordoado e ignorou todas as minhas recusas, voltando constantemente à carga, insistindo, forçando, dizendo ‘mas não se preocupe, vamos apenas nos divertir’”. Mas não, não estávamos mais nos divertindo. Não eu. “Mesmo aos 30 anos, esse tipo de agressão pode existir. Em qualquer idade, com qualquer pessoa, em qualquer situação.” Existem também muitos testemunhos de estupro ou agressão sexual contra pessoas drogadas ou alcoolizadas.

Outro caso frequentemente citado: tirar o preservativo sem o consentimento do parceiro. “É difícil contar, mas acho que é necessário. Então vamos lá: a camisinha rasgou, pedi pra ele parar e ele não quis, consegui escapar do apartamento dele, debaixo de insultos. Corri para o pronto-socorro para tratamento profilático pós-exposição” diz este internauta.

Reações políticas

Essa liberdade de expressão causou uma grande emoção na comunidade gay, e homens e mulheres políticos expressaram seu apoio às vítimas, em particular Elisabeth Moreno, Ministra da Igualdade entre Mulheres e Homens, responsável pelo luta contra as discriminações.

A liberdade de expressão requer coragem. Todo o meu apoio a todas e todos que testemunham através do #MeTooGay. As violências sexistas e sexuais são um flagelo que devemos combater coletivamente. Devemos acreditar, ouvir e acompanhar as vítimas. (Elisabeth Moreno)

Na tarde de 22 de janeiro, Anne Hidalgo, prefeita de Paris, saudou “a coragem das vítimas que rompem o silêncio. A liberdade de expressão deve avançar na luta contra as violências sexuais”, ela escreveu no Twitter. “Apoio àquelas e àqueles que ainda não podem colocar suas histórias em palavras. Estou do lado de vocês.”

As associações LGBT + também prestaram apoio às vítimas. “Essas pessoas devem ser ouvidas e protegidas”, tuitou a associação de luta contra as LGBTfobias. “Acreditamos em vocês e os apoiamos.”

Alinhado com #MeToo e #MeTooIncest, o movimento #MeTooGay marca uma necessária liberdade de expressão de vítimas de violências sexuais. Essas pessoas devem ser ouvidas e protegidas. Acreditamos em vocês e os apoiamos.” (SOS Homofobia)

Desde o #MeToo, muitos se surpreenderam ao não ver surgir depoimentos sobre violências sexuais na comunidade gay. Em setembro, o jornalista Matthieu Foucher, da Vice, questionava sobre as razões desse tabu persistente na comunidade gay. “Depois de termos percorrido esta jornada identitária que não é tão simples como se diz, mesmo em Paris em 2020, não sentimos necessidade de deixar de expor nossa dificuldade? É preciso força para se posicionar como vítima, para ser reavaliado, julgado pelos outros. Muitas coisas se repetem quando as assumimos”, considerou Nadège Pierre, psicóloga do centro de saúde sexual, o 190.

Na sequência do discurso da presumida vítima de Maxime Cochard e seu companheiro – que negam os fatos de que são acusados ​​e anunciaram apresentar queixa por difamação –, a palavra é finalmente libertada. Esperando que isso leve a um exame de consciência coletivo dentro da comunidade gay.

Artigo de Antoine Patinet publicado em Têtu em 22 de janeiro de 2021. Disponível em: https://tetu.com/2021/01/22/metoogay-quand-les-internautes-brisent-le-tabou-des-violences-sexuelles-dans-la-communaute-gay/.

Tradução: Luiz Morando

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s