O monstro abre a boca

Uma revolução chamada desejo. Este seria, sem dúvida, o fio condutor do movimento engendrado pela obra épica de Paul B. Preciado, pensador que luta pela emancipação dos corpos e das paixões. Aquele que disseca com paixão as fontes mais indizíveis da norma e do controle social acaba de publicar Soy el monstruo que os habla.[i] Esta publicação marca uma nova etapa no projeto de libertação crítica do filósofo que aqui se ocupa da psicanálise: é a transcrição de uma conferência na qual ele chama a “Escola da Causa Freudiana” a se posicionar contra a sociedade patriarcal e colonial, e assim revolucionar suas práticas. Aproveitamos esta oportunidade ideal para discutir com Paul B. Preciado sobre o futuro da atual revolução transfeminista e anti-racista.

Apresentar seu trabalho em poucas palavras é um desafio jornalístico. Tudo parece simplista e frio em comparação com seu pensamento abundante, complexo e óbvio. De Texto junkie (2008) a Um apartamento em Urano (2018), o corpus da obra de Paul B. Preciado vai abrindo gradativamente os caminhos de uma saída coletiva, os contornos de um mundo livre de machismo, homofobia, racismo… Porém, o discurso proferido por este homem trans em um corpo não binário antes da assembleia de psicanalistas na França causou rejeição e mal-entendidos quando foi proferido em 17 de novembro de 2019. Deve-se dizer que convidar o filósofo mais transbixasapa do país para uma jornada de estudos sobre “Mulheres na psicanálise” deu origem às fontes mais ferozes de seu verbo. Se no título de sua conferência Paul B. Preciado afirma a sua “monstruosidade”, é apenas para criticar melhor, mais uma vez, o domínio e a norma que se escondem sob uma aparente “neutralidade”. Esse título também carrega o peso de uma história de patologização e maus-tratos de diferentes corpos. Quem teve a sorte de assistir à primeira sessão de seu seminário “Uma Nova História da Sexualidade” – uma releitura radical da obra de Michel Foucault – no Museu Pompidou no início de março de 2020, pouco antes do confinamento, pode facilmente imaginar a exaltação do filósofo reivindicando a emancipação de todas as subjetividades. Outros podem imaginar assim: o pensamento de Paul B. Preciado parece estar a todo vapor, em sintonia com uma época que se mobiliza a favor de uma mudança radical de paradigma.

Manifesto XXI: Durante o confinamento, você escreveu o texto “Estávamos à beira de uma revolução feminista … e então o vírus chegou” no Libération. Você é tão pessimista quanto às notícias do Black Lives Matter?

Paul B. Preciado: A realidade é que, quando escrevi esse texto, não era pessimista de forma alguma. É verdade que para mim houve um impulso que descrevo como revolucionário. Pouco antes do confinamento, por volta das marchas de 8 de março, e quando fiz a primeira sessão do meu seminário, havia um ímpeto de transformação tão grande que tivemos a impressão de que fomos parados em pleno movimento…

Talvez a palavra não seja pessimista, então, mas frustrado. Você sentiu a chegada do coronavírus com frustração?

Sim, isso mesmo. No sentido em que senti que havia algum tipo de convergência. A marcha de 8 de março foi muito mais mista e complexa do que tínhamos visto antes. O seminário também: foi com pessoas de todas as idades e de horizontes muito diferentes. Pessoas racializadas, movimentos de surdos, com diversidade funcional… Era muito amplo. Foi com um entusiasmo louco, algo parecido com um sonho, dava a impressão de que algo se preparava. Acho que o que se seguiu, o Black Lives Matter, é a continuidade desse movimento. Quero vê-lo como uma unidade, embora o movimento seja feito de uma multiplicidade de forças e por diferentes contestações…

Ao colocar a maioria de nós novamente em contato com um imperativo vital, pode-se dizer que essa pausa também foi positiva para as consciências políticas?

Para mim, o período de confinamento, essa parada, foi muito importante. Tem sido muito descrito como uma crise sanitária, como uma crise política, mas também tem sido uma crise estética e da subjetividade. Quando digo estética, refiro-me ao regime de percepção. Pela primeira vez, ouvimos coisas que nunca ouvimos, que nunca percebemos antes. De repente, houve uma transformação, dissemos a nós mesmos: sim, as coisas podem ser diferentes. Havia dois elementos cruciais: de um lado, essa violenta ruptura estética; de outro, o fato de que, nesse período de crise, as linhas mais fortes de opressão recaíam justamente sobre os corpos racializados, sexualizados, os corpos mais precários.

Quanto ao que está acontecendo nos Estados Unidos, e na França neste momento, acho muito importante notar que é uma revolução que foi mobilizada inteiramente graças à Internet. Isso vai na direção de minhas análises biopolíticas sobre o vírus[ii], a passagem de um controle tradicional mais primário para um controle mais digital. Por fim, existe a possibilidade de uma reapropriação crítica dessas tecnologias digitais. Não vamos esquecer que o vídeo que gerou os protestos foi gravado por uma mulher na rua. É um exemplo de como a revolução pode ser lançada em escala mundial.

Então hoje estou, além de animado… cheio de alegria! Então devemos ter em mente que estamos em um contexto de guerra global, que as lutas serão muito difíceis.

Esse texto publicado no Libération de que você está falando foi publicado em inglês há algum tempo e acrescentei uma parte a ele, porque era impossível não levar em conta que houve uma interrupção, sim, mas que continua. É também uma bela resposta a todas aquelas pessoas, sejam Houellebecq ou Onfray, àquelas vozes completamente reacionárias, que disseram que nada iria mudar… e bem, não. Claro que estamos fazendo a diferença. Além disso, as pessoas que estão agindo, ao contrário do que imaginávamos, não são os políticos, são mesmo as novas gerações.

Este compromisso geracional foi de fato muito visível na marcha de 2 de junho, “Verdade e Justiça para Adama”… [iii]

É verdade, é uma das coisas que me marcou muito e que me surpreendeu. Naquele dia, pela primeira vez, como ativista, respirei em paz… Sim, disse a mim mesmo: “Ufa! Eles estão aqui.” Na minha geração, havia uma espécie de delírio neoliberal, era preciso ter sucesso a todo custo e voltar à norma. A geração seguinte percebeu que isso não era possível.

Em seus escritos, você nunca se esquece de esclarecer que é crítico da sociedade patriarcal e colonial. A quem você deve essa consciência do racismo estrutural?

Eu cresci e fui criado em uma tradição feminista. Fiz toda a minha formação acadêmica nos Estados Unidos, onde o pensamento das feministas negras está muito presente. O trabalho de Angela Davis foi absolutamente crucial para mim. É alguém que conheço pessoalmente, com quem trabalhei e adoro. Além disso, não é dito com frequência, mas ela é uma feminista lésbica. Nunca é dito abertamente, mas é verdade, e isso nos aproximou muito. Quando eu estava na América, foi a época da chegada das teorias queer, mas também das feministas não brancas. 

Então, eu não poderia separar a teoria queer da teoria anticolonial. Mas é verdade que quando cheguei à França… Bom, deixemos de lado a impressão de que depois de Simone de Beauvoir tudo acabou. (risos) O que me impressionou tanto foi que nos Estados Unidos eu havia lido muito sobre autores como Frantz Fanon, feministas negras ou latinas. No final dos anos 1990, todos esses pensamentos eram completamente desconhecidos na França. O que me pareceu muito difícil, porque todas as questões relacionadas às minorias sexuais e étnicas na França são classificadas sob o título de “comunitarismo”.

Para mim, significavam exatamente o contrário: constituíam um protesto radical contra a modernidade capitalista.

Você dedica este último livro a Judith Butler. Você se lembra de quando descobriu seu trabalho?

Sim, lembro-me muito bem. Eu tinha 23 anos e era estudante (já que era menina na época) na New School. Ouvi uma de suas palestras pela primeira vez e foi uma explosão. Para mim, houve um antes e um depois, com certeza. Especialmente porque naquela época havia uma oposição real entre as feministas marxistas e as queer. As marxistas eram consideradas muito mais rigorosas e as queers eram classificadas ao lado do pós-modernismo, como uma questão de reconhecimento das minorias…

Judith Butler foi uma pessoa muito importante para mim, uma pessoa que me ajudou muito, que esteve na defesa da minha tese… Acontece que este ano [2020] na Califórnia ela conseguiu mudar sua identidade para não-binária. Ela me ligou para dizer o quão feliz ela estava, e como eu estava escrevendo este texto, dediquei-o a ela. Para mim foi novamente uma questão geracional, no sentido de que, quando comecei a tomar testosterona, lembro-me de conversas com Judith e outras feministas de sua geração que nos olhavam com aquele ar de “Se fôssemos 15 anos mais jovens, talvez fizéssemos o mesmo”… Mas era como se a questão trans (ou certas tecnologias de transformação corporal) tivesse chegado tarde demais. Acho uma bela mutação pensar que entramos no mesmo barco chamando-nos de não-binários.

Você cita Frantz Fanon, que ressoa com aquela frase forte de sua palestra: “A psicanálise é um etnocentrismo que não reconhece sua posição situada.” Você levanta toda a parte crítica da psicanálise neste texto. Você acha que essa disciplina pode ser renovada? 

Creio que sucede com a psicanálise a mesma coisa que acontece com a França, com a universidade ou com a ciência, ou seja, que devemos pensar que o regime de saber e as práticas de modificação da subjetividade com que trabalhamos estão fortemente enraizados nessa tradição patriarcal e colonial. Para mim, a questão não é simplesmente “adicionar minorias”. Não se trata de pensar que temos uma ferramenta que funciona muito bem e à qual acrescentaríamos agora algumas notas de rodapé: “Pois é, não podemos tratar bichas como antes, porque não estava certo…” ou “Bom, é verdade, a transexualidade não é uma doença, mas ao mesmo tempo não é normal…” Você entende o que quero dizer? (Risos)

Sim, entendo! Então, o que a psicanálise deve mudar?

A teoria psicanalítica, com tudo o que compreende de filosofia do assunto e de antropologia, permanece intocável. O que queria mostrar é que não se trata apenas de escolher pessoas diferentes. Não entro nos debates internos da psicanálise. O que quis dizer é que a psicanálise é apresentada como uma prática extremamente progressista e crítica, mas, lamentavelmente, compartilha a epistemologia da diferença sexual. Ela também compartilha uma taxonomia, não explícita, mas altamente racializada, muito eurocentrada, e também uma taxonomia da norma e da patologia entre a homossexualidade e a heterossexualidade, ou frigidez versus sexualidade normal.

A questão fundamental para mim é: “O que fazemos com a subjetividade que foi destruída pela violência?” Quando vamos ao psi é porque não estamos bem, é porque sofremos, e se sofremos é porque o nosso aparelho psíquico foi marcado ou profundamente ferido pela violência. Essa violência não pode ser tratada voltando a relatos extremamente normativos, como o complexo de Édipo. Quando você é trans, o confronto com a psicanálise é aterrorizante, porque imediatamente a pergunta é: “Por que você quer fazer isso?” Mas “isso” o quê? Em vez disso, é a sociedade que nos faz algo com esse regime binário extremamente normativo, que não permite nenhuma variação, sutileza ou complexidade. Se uma mulher for muito masculina, não está tudo bem. Se um homem é muito feminino, também não está bem. Não me refiro apenas à questão trans, mas ao fato de que a possibilidade de avançar como sujeito dentro desse regime binário é quase impossível. 

Na verdade, estou preparando outro livro de releitura de Édipo, porque nas conversas que se seguiram àquela conferência, entendi que os próprios analistas são obrigados a trabalhar com essas ferramentas. Há uma lacuna terrível entre sua prática, que é muito mais viva, e a teoria, que nada tem a ver com isso. Então, por que continuamos falando sobre tudo isso? Por que continuar falando sobre o orgasmo clitoriano ou vaginal? Isso corresponde às práticas contemporâneas de gênero e sexualidade? Eu não acho que sim. Porém, meu texto tem sido interpretado por uma parte da comunidade científica como se eu estivesse jogando uma bomba…

Ainda assim, existem algumas frases picantes que devem ter doído muito.

Sim, é verdade. Mas tenho gana de dizer “dar e receber”! (risos) Na verdade, o que vejo nos grupos que frequento há muito tempo, feministas, antirracistas, transbixasapas, é precisamente a ferida desta violência patriarcal e colonial e a necessidade avassaladora de tratamento. A psicanálise não é capaz disso. 

Estávamos falando de Frantz Fanon: eu diria que existe uma outra tradição da psicanálise com François Tosquelles, que foi seu aluno, e de quem Félix Guattari e Jean Oury serão, por sua vez, alunos. Foi um momento de grande politização da psicanálise. Hoje estamos longe, mas longe desse entusiasmo político! Entramos em um momento de normalização aterrorizante… As vozes que se ouvem nas questões da homoparentalidade, da transexualidade, falando em termos de psicose, o perigo que representam para as crianças, etc… A psicanálise não é meu trabalho, simplesmente digo para meus amigos psicanalistas: é hora, para vocês também, de mudar. Porque estamos em um momento muito importante. Devemos estar completamente felizes em viver em uma época como esta. Historicamente, não acho que encontraremos muitos semelhantes, ou seja, uma época em que centenas de milhares de corpos que foram construídos como objetos de violência patriarcal e colonial – mulheres, crianças, pessoas racializadas, pessoas consideradas deficientes – se levantem e digam ‘Basta!’.

Essa foi a conclusão de sua primeira conferência no Pompidou: você pediu a criação de um Parlamento de corpos menores. Você pediu uma forma transcendente de solidariedade, de unidade entre as diferentes lutas. Estamos sem palavras para colocar isso em prática? A identidade e a identificação com um grupo continuam a ser a base das mobilizações militantes.

Sim, até agora todas as lutas políticas foram concebidas em termos de identidade, mesmo no feminismo. Se você pensar nas sufragistas, a luta já era identidade, tinha que ser mulher para lutar. As feministas travaram uma luta enorme, mas os homens ficaram de fora. A mesma coisa aconteceu com o movimento homossexual: a gente tinha a impressão de que você só se preocupava se fosse gay, e não se fosse heterossexual. Para mim, do ponto de vista filosófico, é a própria diferença entre homossexualidade e heterossexualidade, entre masculinidade e feminilidade, que temos que repensar. 

Há outra possibilidade, de desconstrução à maneira de Derrida, ou de destituição se você vem de uma tradição bastante anarquista, e que consiste em dizer de uma vez: “Não, não acreditamos nesta taxonomia que descreve quem somos!” Para mim, é a beleza do que está acontecendo agora com a nova geração. Nesse sentido, me sinto mais próximo de você do que da minha geração, que era muito “política de identidade ou nada”. O que acontece agora é que o que mais nos interessa é a própria transformação. 

É claro que agora, em momentos como os do Black Lives Matter, você tem que passar pelas políticas de identidade. E esses momentos de identidade, acho que devemos vivê-los como uma espécie de partido político coletivo. Devemos pensar: “Sim, temos que homenagear a cultura negra porque é uma cultura de incrível resiliência e sobrevivência”. É disso que eu gosto: que nos unamos para apoiar a cultura negra até as últimas consequências. Assim como vimos emergir as vozes de mulheres que foram estupradas, abusadas sexualmente. É algo único, que precisa ser ouvido e não pode ser apagado, pois a cada vez se fala de violências específicas que nos informam sobre a própria infraestrutura e os mecanismos de controle e poder. Violências que nos dizem onde agir. Há uma grande sutileza, essa revolução terá que ser feita, e de alguma forma ela atravessará corpos e desejos, a subjetividade como um todo.

Mas como traduzir essa intenção de convergência complexa em discurso político? Às vezes ficamos limitados quando se trata de falar de solidariedade e aliades.

Na realidade, com Black Lives Matter, já estamos testemunhando a convergência das tradições feministas e negras. As fundadoras do movimento são lésbicas feministas. Nossa representação política tradicional obriga-nos novamente a ver isso em termos de movimentos “negros”, como um movimento apenas de representação. Mas é muito importante ver como o movimento se formou nos Estados Unidos e como cresceu na França. Mulheres como Françoise Vergès[iv], Fania Noël[v], feministas negras, estão lá. Na verdade, tudo já está entrelaçado.

Como elas são representadas politicamente? Esse é o problema. Uma das coisas que me surpreendeu na marcha de 2 de junho, embora não fosse o caso fora de Paris, foi que havia tanto meninas quanto meninos, pessoas queer… assim como a marcha de 8 de março. Essa marcha traz consigo essa convergência. A questão é como vamos ser capazes de articular isso. Queerizar o movimento negro, decolonizar o movimento gay… e por isso precisamos desse Parlamento de corpos. Durante o período de confinamento, o fechamento de todas as instituições, incluindo a escola, mostrou seu colapso. Essas eram formas muito patriarcais e coloniais de aprender história e literatura… Então, de alguma forma, precisamos de novas instituições.

Surge então a questão dos (novos) espaços de encontro…

Este foi o sonho utópico que partilhei naquele seminário do Pompidou: pensar num fórum, um lugar de debate, onde cada um contribua com as suas tradições, as suas genealogias… É uma tarefa emocionante e inteiramente por realizar. Claro, o movimento contrarrevolucionário de Trump, Bolsonaro e outros vai durar um pouco mais nos próximos anos, mas acho que estamos experimentando uma mudança de perspectiva comparável à descoberta de Galileu de que a Terra é redonda. É por isso que as questões de gramática e linguagem são importantes. Chegará o momento em que perceberemos a realidade de forma diferente. É por isso que a psicanálise é importante. A psicanálise arroga-se a si mesma, se dá o poder de captar a totalidade do aparelho desejante. Acho que é muito importante extrair o desejo dessa captura, porque é com esse desejo que poderemos fazer a revolução.

Existem outras tradições ou culturas que o inspiram a pensar sobre gênero de forma diferente?

Com certeza, mas não sou antropólogo, há pessoas que conhecem esses assuntos muito melhor do que eu. Em vez de representar um lugar diferente, eu diria que me especializei em como ver essas tradições dentro de nossas sociedades. São tradições minoritárias. E toda vez fico maravilhada. Como Gertrude Stein poderia escrever? Como Virginia Woolf poderia escrever? Como isso foi possível, nesse contexto de apagamento institucional do saber feminino? Se é difícil hoje, como seria no século XIX? Apesar de tudo, sinto uma ligação muito forte com essa genealogia de resistência. É mais lá que me inscrevo. Embora seja verdade que, neste momento de mudança de paradigma, interessar-se por uma tradição alternativa completamente diferente, seja a dos povos indígenas ou a das culturas pré-coloniais na África (que contavam com mais de dois gêneros), é interessante. Essas tradições demonstram que é possível organizar instituições além da binaridade de gênero ou raça. 

Parece importante para mim porque raça e gênero estão tão arraigados em nossos corpos pelas tecnologias de controle que parece natural. Raça é uma tecnologia de controle desenvolvida durante a era do colonialismo capitalista. É o mesmo com a diferença sexual. O que me interessa é me perguntar: o que vamos ser coletivamente? O que seríamos se não fôssemos moldados por tecnologias de poder patriarcal e colonial? Como podemos desejar? É fascinante, todo o projeto de emancipação da liberdade está aí.

Em sua palestra, você evoca suas diferentes experiências de psicanálise. Você teria algum conselho para repassar aos jovens monstros que desejam iniciar uma análise?

Antes de mais nada, devo dizer que não fiz psicanálise porque quis. Foi o que aconteceu: quando eu era criança, morando em uma pequena cidade muito católica, alguém ligou para a casa dos meus pais, disse para minha mãe: “Sua filha é lésbica” e desligou. Isso criou uma espécie de catástrofe familiar. Minha mãe foi para a escola e eles a aconselharam a psicanálise. Então foi mesmo com a ideia de correção, de normalização. Para meus pais, era para me ajudar, embora para eles fosse uma doença. Depois fui para os Estados Unidos, onde o feminismo havia trilhado o caminho da psicanálise em torno dos escritos de Hélène Cixous, Luce Irigaray, Julia Kristeva; até mesmo, em um ponto, Judith Butler. Ela também era uma leitora ávida de Lacan. Estudei muito psicanálise e também me analisei, porque isso fazia parte das práticas. Então eu diria que sou uma bulímica das tecnologias da subjetividade. Fiz psicanálise kleiniana, junguiana, guattariana… 

Em suma, quando não é um projeto de normalização forçada, é um privilégio psicanalisar-se. É um momento cronometrado, dedicado a explorar a infraestrutura da consciência, por isso me parece um privilégio. Mas foi no decorrer de toda essa série de análises, e por meio de minhas próprias leituras, que entendi como funcionava o aparelho psicanalítico e, portanto, não dou a mínima para sua dificuldade em aceitar meu gênero. 

Tenho muitos problemas na minha vida, mas meu gênero não é um problema. Para os psicanalistas, por outro lado, isso apresenta muitos problemas. É o mesmo com a sexualidade. Já estive com meninas, com meninos, com tudo, e nem liguei. Mas isso também trouxe muitos problemas para a psicanálise. “Você é uma lésbica de verdade?” E quando você se torna trans, o que você se torna? Hetero? Isso tudo é totalmente ridículo. Foi então que percebi que, apesar do desejo da psicanálise de transformação, era uma disciplina muito, muito limitada. Para mim, uma sessão em um coletivo drag king[vi] ou uma colônia de verão em um acampamento decolonial é mil vezes mais interessante do que dez anos de psicanálise. Porque, de fato, a psicanálise pega o que busca. E seu pai e sua mãe? E o pênis? Você tem um pênis? Não estou interessado, esse não é o ponto. Duas sessões de tecnoxamanismo e avançamos mil vezes mais. (risos)

Você escreve no início de seu livro que faz um espetáculo de seu corpo. Muitos de nós se beneficiam das luzes desse show maravilhoso, mas às vezes não é uma postura alienante para você?

Não. Quando escrevo isso, é que de qualquer maneira quando você é trans e fala em público… Por muito tempo se acreditou que na filosofia sempre se tratava de colocar a Razão antes dos corpos, e havia a impressão de que os filósofos não tinham corpos. De modo que o corpo estar no centro dessa história filosófica me parece muito importante. Claro que se trata de uma ficção política, mas o corpo também. É construído como uma ficção política. Então, pelo contrário, me dá uma alegria enorme. Talvez seja minha dimensão pornográfica, mas é também uma forma de coletivizar o próprio corpo. Em nossa tradição ocidental, os corpos das mulheres e das minorias devem permanecer ocultos. Aqui, é o oposto. Meu corpo é construído por todas essas leituras cruzadas e se desdobra muito mais do que meu pobre corpo poderia desejar. Com todas as coisas difíceis pelas quais passou, ele tem uma bela potência de vida. Mas não todos os dias. Tem que saber por que, senão, acredita-se que estou sempre superentusiasmado. Também tive grandes momentos de angústia. Mas é como naquele artigo (“Estávamos no limite de…”) em que eu falava da cadeia alimentar: depende do que comemos e de como o fazemos. Portanto, é tudo uma questão de energia. A alegria também é aprendida. A alegria é uma tecnologia de vida. E a alegria também é uma técnica de resistência. Se muitas pessoas não estão felizes, tudo bem. O que realmente me assusta é a maneira dissimulada como a apatia se torna talvez a forma mais sofisticada de captura neoliberal. Diante disso, a utopia é necessária. Pode ser musical, poética… É aí que a arte é fundamental para mim, como baluarte contra a tristeza. Porque a arte é sempre uma estratégia de alegria.

Entrevista com Paul B. Preciado publicada em francês em 29 de junho de 2020 no site Manifesto XXI e divulgada no site Parole de Queer. Disponível em: <http://paroledequeer.blogspot.com/2021/01/entrevista-paul-b-preciado.html#more&gt;.

Tradução: Luiz Morando.


[i] PRECIADO, Paul B. Yo soy el monstruo que os habla. Informe para una Academia de psicoanalistas. Barcelona: Anagrama, 2020.

[ii] Ver: https://sxpolitics.org/es/paul-b-preciado-aprendiendo-del-virus/4740

[iii] Ver: http://www.laizquierdadiario.com.uy/Cuarta-movilizacion-en-Francia-en-reclamo-de-justicia-por-Adama-Traore

[iv] Ver: https://ctxt.es/es/20191023/Politica/29004/Fran%C3%A7oise-Verges-feminismodecolonial-racismo-mujeres-migrantes-racializadas.htm 

[v] Ver: http://www.afrocubaweb.com/mwasi.html 

[vi] Drag kings são pessoas artistas que se vestem masculinamente e performatizam estereótipos de gênero masculinos como parte de sua atuação. 

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