“O problema é a maneira como os homens se tornam homens.”

Então, o feminismo estaria na moda? A ponto de ter se tornado “bacana”. Isso seria, diz a ativista e ensaísta Valérie Rey-Robert – a quem devemos duas obras publicadas pelas edições Libertalia –, o sinal de sua perda de radicalismo. E é justamente esse radicalismo que se discute em sua última publicação, Le Sexisme, une affaire d’hommes [O sexismo, um caso de homens, em tradução livre], já que Rey-Robert pretende voltar à fonte: como se perpetua essa “guerra” travada contra as mulheres em nome de um sistema ideológico articulado conhecido como “patriarcado”? Embora o confinamento seja associado a um aumento da violência doméstica, voltamos com ela à reflexão que ela fez, como blogueira inicialmente, por quase 15 anos.

A situação atual é peculiar. Violência intraconjugal favorecida pelo confinamento, rebaixamento do aborto à categoria de intervenções “não urgentes” em certos hospitais ou estados, aumento do trabalho doméstico… Isso significa que as situações de crise exacerbam a violência patriarcal?

Um artigo com título evocador, “Coronavírus é um desastre para o feminismo”, apareceu recentemente. As mulheres, devido às estruturas patriarcais que, entre outras coisas, as tornam menos remuneradas e mais frequentemente em tempo parcial, estão em tempos de epidemia ainda mais responsáveis ​​pelos doentes, idosos e crianças que já não vão à escola – e isso sem serem remuneradas. A maioria das famílias monoparentais é chefiada por mulheres, muitas vezes em condições precarizadas, que são colocadas em grande dificuldade com o fechamento de escolas e creches. Outro artigo aliás mostrou que muitas mães que pararam de trabalhar para cuidar dos filhos acabaram não tendo os salários mantidos, contrariando as promessas do governo.

Também sabemos que a violência patriarcal aumentou: o Secretário-Geral da ONU pediu aos governos que reajam a estes fatos. O coletivo NousToutes, que lançou a campanha “Parentalidade e confinamento”, também destacou que a maioria das pessoas presentes em seus grupos de WhatsApp eram mulheres. Portanto, de fato, o confinamento não resolve os problemas de desigualdades domésticas e econômicas em casais heterossexuais – ao contrário, os acentua, em todos os níveis. Seríamos ingênuos em acreditar no contrário: assim como para a própria crise de saúde, as ativistas feministas vêm exigindo há anos os meios para resolver o problema da violência patriarcal (abrigos, medidas de afastamento do cônjuge etc.), e o dinheiro nunca foi colocado na mesa. Ainda mais do que a pandemia, o aumento dessa violência em tempos de crise era altamente previsível. No entanto, algumas medidas foram tomadas: em Seine-Saint-Denis, por exemplo, hotéis foram requisitados para afastar e acomodar maridos violentos. Questiona-se por que essa iniciativa não está difundida em todo o território e por que foi criada apenas durante o confinamento.

[…]

Você trabalha em particular na questão da violência sexual e de gênero. Além disso, você é moderadora de conteúdo na Internet: portanto, é confrontada diretamente com a violência on-line. As redes sociais são um espaço adequado para combater essa violência ou principalmente a alimentam?

Em primeiro lugar, devemos lembrar que não podemos separar radicalmente o virtual do real: as ameaças virtuais têm uma existência muito real e impactam na vida das pessoas em questão, em seu trabalho e em sua saúde. Vimos isso no caso dos membros do fórum “18-25” que perseguiram a jornalista Nadia Daam: teve um impacto claro em sua vida pessoal e profissional! Quanto à possibilidade de combate a essa violência na Internet, devemos distinguir entre o que é da ordem da ideia recebida (por exemplo, a ideia de que um estupro sempre ocorre em uma rua escura, com um desconhecido etc.) e o que é preconceito ou fantasia (por exemplo, que as feministas gostariam de matar todos os homens). Uma ideia preconcebida pode ser derrotada pelo raciocínio. Mas é muito mais complicado com o preconceito ou a fantasia – seja sexista, antissemita, racista – porque simplesmente não existe. Assim como não posso provar para você definitivamente que um unicórnio não existe, também não posso provar para você que as feministas não querem matar todos os homens – e, francamente, não me importo. Realmente fazer isso…

E pretender desmantelar os preconceitos on-line?

Isso não é apenas uma perda de tempo, mas muitas vezes tem o efeito oposto. Pude observá-lo muito claramente, no quadro do meu trabalho de moderação, no que diz respeito à propaganda antissemita: quando os jornais tentam desmantelar os preconceitos antissemitas, acabam por ajudar a alimentá-los e a publicizá-los, porque só convence os convictos. Isso também fica muito claro no caso das teorias da conspiração. Este é um dos limites da Internet: quando as pessoas dizem abertamente coisas que mais ou menos correspondem ao seu pensamento, isso lhe dá legitimidade. E quanto mais virulentos eles são, mais isso faz você parecer alguém moderado e, portanto, o fortalece e o conforta em seu pensamento. É até uma técnica que tem sido usada diretamente por grupos de extrema-direita ou grupos masculinistas: primeiro para enviar ativistas que fazem os comentários mais virulentos à mídia para chocar, depois enviar aqueles que parecem mais moderados para que seus discursos pareçam muito mais audíveis.

No entanto, é preciso entender que, muitas vezes, os oponentes do feminismo procuram na mídia palavras que os confortem no que pensam. Considere um assunto como a galanteria: se as feministas lhes disserem que é uma forma de sexismo, eles procurarão até encontrar uma interlocutora que lhes diga que adora os homens galantes e, então, eles se sentirão seguros em suas posições. A Internet também serve para unir esses grupos e é principalmente graças a ela que se fortalecem e se tornam cada vez mais violentos. Deve ser entendido que a violência masculinista – como a violência homofóbica ou racista – é uma doutrina política onde as pessoas acreditam sinceramente que as mulheres – ou homossexuais, pessoas racializadas – não deveriam ter os mesmos direitos que eles. Esta não é uma história de estupidez, de falta de reflexão…

[…]

Você trabalhou a cultura do estupro em sua singularidade nacional: “à francesa”, como se diz…

Enquanto “cultura”, a cultura do estupro está necessariamente ligada a um determinado lugar, para que haja uma cultura do estupro no estilo americano, no italiano… E, portanto, uma cultura do estupro no estilo francês, cada um com suas especificidades. Na França, as ativistas que denunciam a violência sexual são sistematicamente explicadas que estão erradas, que não é violência sexual, mas que é uma forma tipicamente francesa de considerar as relações entre homens e mulheres – que seriam inerentemente desiguais e violentas. Foi particularmente observado em 2011, quando os defensores de Dominique Strauss-Kahn declararam que com o seu julgamento, era o “amor cortês” e, portanto, a herança francesa que os americanos – que nada sabiam sobre isso! – atacavam. O que sempre surge é que a denúncia da violência sexual seria, no fundo, uma denúncia do espírito verdadeiramente “gaulês” e da ideia de “galanteria à francesa”. Além disso, é esta ideia que possibilita a comparação por vezes traçada entre feministas que acusam agressores sexuais e estupradores, por um lado, e colaboradoras que denunciam judeus durante a guerra, por outro lado: ambas seriam traidoras da nação.

Para entender como isso é específico da França, podemos tomar os exemplos de Silvio Berlusconi e Donald Trump, ambos acusados ​​de violência sexual, mas vindos de países fundamentalmente diferentes. Você pode pensar que, culturalmente, a Itália está mais perto da França do que os Estados Unidos; entretanto, quando analisamos os discursos daqueles que os defenderam, observamos que os argumentos eram basicamente bastante semelhantes – e bem diferentes daqueles que ouvimos na França: “Eles são homens”, “Eles são assim.”, “Nós não podemos esperar isso de muitos deles”, e assim por diante. Não invocamos a cultura nacional, não procuramos Dante ou Casanova para defender Berlusconi. Aqui, por outro lado, os editorialistas não hesitam em apontar que a França é o país que teria inventado o amor e que esse protótipo do sedutor “à francesa” teria por trás 500 anos de literatura para legitimá-lo. Estupradores de todos os países encontram seus defensores, mas é apenas na França que o fazem invocando uma ideia fantasiada de identidade nacional.

[…]

Esse é o ponto principal de seu último livro, Le Sexisme, une affaire d’hommes [O sexismo, um caso de homens, em tradução livre]. Como você evita isso, então?

É preciso degenerificar a educação. Devemos aprender a considerar que apenas as aspirações das crianças contam e que não há brincadeira, lazer, esporte, atividade ou ocupação estritamente “masculina” ou “feminina”. Em suma, devemos educar os meninos para que não sejam viris. A virilidade é composta por vários elementos, como o fato de não exprimir nenhuma emoção, exceto aspereza e agressividade, estar em constante competição com outros homens, sempre buscar e querer sexo com mulheres, evitar tudo o que é considerado “feminino” para que não haja nenhuma confusão sobre a sua masculinidade e, finalmente, recusar a homossexualidade. Os meninos aprendem rapidamente a desprezar as mulheres, a pensar que são melhores do que elas. Considere que o maior elogio que você pode fazer a uma mulher que executa uma tarefa considerada masculina muito bem é dizer a ela que ela é “tão boa quanto um homem” ou “uma Maria Homem”. Por outro lado, nunca será considerado positivo dizer a um homem que ele é “um Zé Mulher” – isso será visto como um insulto. É essa binaridade que sustenta o sexismo.

Este livro destina-se principalmente a homens?

Fiquei muito impressionada – embora não surpresa – ao constatar que, quando estava fazendo as apresentações do meu primeiro livro, o público era quase inteiramente formado por mulheres. Lembro-me até de uma intervenção em um café associativo onde um homem presente antes da apresentação disse a uma mulher que ele não iria ficar porque não se sentia envolvido. Eu então me perguntei por que, em nossa sociedade, todas as mulheres – mesmo que não tenham sido estupradas – deveriam se preocupar com a questão da violência sexual e de gênero e lutar contra ela, enquanto nenhum homem – nem aqueles que estupraram, nem aqueles que não estupraram – não deveria fazê-lo. Afinal, como esse tipo de crime e contravenção é cometido em sua maioria por homens, cabe a eles enfrentá-lo! Neste momento, muitos homens se dizem feministas e dizem que querem contribuir para essa luta: deixem que se encarreguem de educar seus amigos, colegas, irmãos, pais! A construção da virilidade envolve, em particular, a humilhação de mulheres e homens homossexuais. É o famoso “Bros before Hoes” [Os amigos antes das putas]. Homens heterossexuais que afirmam ser afetados pela violência contra as mulheres, sexismo, homofobia, podem, portanto, começar cortando toda a amizade, camaradagem e conexão com os homens sexistas ou homofóbicos ao seu redor. Eles podem recusar piadas sexistas em torno da máquina de café, recusar-se a calar a boca diante de mais uma piada homofóbica – mesmo que aquele que a diga “seja legal”. Eles podem, em vez de continuar a sair com um homem que dizem ser “pesado” com mulheres, cortar todo contato com ele, confrontá-lo com suas ações, explicar a ele que não as aprova – porque sabemos o que quer dizer “pesado”: que ele é um agressor sexual. Já que a primeira reação dos homens quando falamos em sexismo ou violência sexual é explicar que eles “não são assim”, cabe a eles demonstrá-lo pelo exemplo, educando aqueles que “são assim”.

Mas o que você diria àquelas que te dissessem que não devemos desperdiçar energia tentando educar os homens, “reformá-los”, e que é melhor nos dedicarmos à construção de espaços feministas e de autodefesa?

Ambos são essenciais e complementares. Quando falo de educação, penso antes de mais nada nas crianças, meninas e meninos, que todos nós educamos coletivamente – quer tenhamos ou não filhos, aliás. Se nos comportarmos de maneira sexista, as crianças compreenderão que não há problema em fazê-lo. Uma campanha publicitária australiana denunciando a violência patriarcal mostra em minutos como ela começa: explicando que meninos que machucam meninas o fazem “porque gostam delas”. E os homens adultos que se dizem feministas também devem educar os outros homens, não devem dar folga, nem permitir-lhes nenhum comportamento, piada, atitude sexista. É aqui que eles vão mostrar que são verdadeiros aliados. Mas, é claro, o feminismo existe para empoderar, para dar poder, dar potência às mulheres; ele está lá para lhes dar autonomia suficiente (tanto financeira quanto moral, se posso dizer assim) para não ter que depender dos homens, estabelecendo fortes laços de fraternidade – algo que o patriarcado nos impede de fazer.

Você denuncia regularmente o feminism washing, ou seja, a instrumentalização e despolitização realizada por personalidades ou empresas…

Qualquer movimento é recuperável: o feminismo também. Quando uma empresa capitalista como a H&M – que tem fábricas onde mulheres e às vezes crianças trabalham em péssimas condições sanitárias – produz camisetas para o Dia Internacional da Mulher, o 8 de março, ela está fazendo feminism washing, ou seja, ela usa o feminismo para ser vista bem sem ter consciência feminista. Quando Karl Lagerfeld desfilou modelos com slogans feministas para a Chanel em 2014, ele o fez porque sabia que o feminismo estava em ascensão e que não estava mais na moda ser abertamente antifeminista – mesmo que em suas declarações ele se mostre sim profundamente sexista e misógino. Pode-se ficar feliz que o feminismo agora tenha essa imagem “legal”, mas se tiver, é porque não é mais radical. Você não precisa necessariamente querer que o feminismo atraia o maior número de pessoas possível, porque ser feminista significa ter um projeto radical para mudar a sociedade. Mas os homens não têm interesse em sua mudança. O feminismo nunca servirá aos interesses masculinos – se as mulheres são mais fortes, então mecanicamente os homens serão menos. Portanto, eles perderão. E não adianta fingir que o feminismo vai ser útil para eles também: isso não é verdade.

Feminismo, portanto, não deve ser uma palavra vazia. Deve ser inclusivo. Ele se preocupa com os direitos de todas as mulheres? Ele se esquece de algum no chão? Ele levou em consideração que, ao lutar contra essa discriminação, estava apagando as reivindicações de outras mulheres? Devemos interrogar constantemente nosso feminismo, questioná-lo. Eu estava falando anteriormente sobre violência ginecológica e obstétrica, que é uma luta feminista recente: essa luta não pode ser travada sem levar em conta as discriminações cruzadas – se você é uma mulher trans, uma mulher gorda, uma mulher racializada, uma lésbica, então você é ainda mais suscetível de ser vítima de discriminação por parte da profissão médica. Dizer isso, ao contrário do que afirmam algumas feministas ditas “universalistas”, em nada apaga o sexismo vivido; isso ajuda a direcionar melhor as lutas.

Entrevista com Valérie Rey-Robert publicada em 24 de abril de 2020. Disponível em: https://www.revue-ballast.fr/valerie-rey-robert-le-probleme-cest-la-maniere-dont-les-hommes-deviennent-des-hommes/

Tradução: Luiz Morando.

A ativista e ensaísta Valérie Rey-Robert desenvolve uma série de reflexões muito atuais sobre o feminismo e as consequências de uma educação misógina e sexista recebida por homens como um grande prejuízo à luta feminista.

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