“O imaginário de Deus como homem e branco justifica uma moralidade patriarcal e classista.”

Pepa Torres se define como freira, feminista e de esquerda. Há 30 anos é uma participante histórica dos movimentos populares do bairro madrilenho de Lavapiés, nos quais, através da solidariedade e da luta pelo bem comum, são reforçadas suas crenças evangélicas. “Eu me sinto muito confortável sendo freira, mesmo que as pessoas me digam que sou estranha”, ela reconhece. Torres afirma que é nos espaços laicos onde sabe que está mais livre para lutar pelo bem comum, também a partir da fé cristã.

Mesmo assim, ela não renuncia à Igreja Católica, instituição que historicamente menosprezou e discriminou as mulheres. A partir da teologia feminista, ela trabalha para reler a Bíblia e as tradições cristãs de uma perspectiva de gênero, a fim de mudar “essa Igreja que não nos entende”. A luta bicéfala de mulheres cristãs como Pepa Torres é necessária, mas também dura. “Nós nos sentimos como intrusas na Igreja e em muitos movimentos feministas”, diz ela. Há quem não conceba que se possa ser freira e feminista, mas, diante disso, Pepa Torres responde que “devemos sair de nossos estereótipos e nos encontrar nas lutas, nas praças e nos sonhos”.

Há uma tendência de colocar a religião e a Igreja no mesmo saco. A Igreja Católica nos oferece imagens que nos deixam claro que é uma instituição machista, mas e a religião? Qual é o papel da mulher nisso?

Nós, teólogas, entendemos que religião é aquilo capaz de unir o humano e o mistério, aquilo que, a partir de sua dimensão mais transcendente, busca o bem universal valorizando o comum. É por isso que acredito que as religiões não podem ser íntimas nem privadas, mas sim ter uma importante dimensão pública e política e que, portanto, não podem ser ignoradas da justiça social, dos direitos humanos em geral e, em particular, das mulheres. Ora, é verdade que alguns setores das religiões tendem a se instalar e a impor suas crenças. É quando o objetivo é pervertido.

Todas as religiões passaram por um processo de domesticação, de assimilação ao status quo. Isso começa já no século II, quando o cristianismo se institucionaliza para se adaptar às culturas greco-latinas e começa a ceder em alguns aspectos, como a liderança feminina. Lá passamos de uma tradição na qual as mulheres são discípulas e apóstatas, para uma Igreja na qual elas são apenas subordinadas e complementos.

Existem correntes críticas dentro da Igreja que resistem, embora sejam invisíveis, estigmatizadas e condenadas pela instituição, e que aspiram ao bem comum. E isso acontece para garantir os direitos e a libertação das mulheres, provocando mudanças em um sistema tão biocida como o do neoliberalismo patriarcal. Mas as mudanças são lentas e insuficientes. O que o Papa Francisco acaba de fazer, reconhecendo que mulheres podem ser acólitas e leitoras, parece-nos um escândalo, mas faz parte do anacronismo em que a Igreja está ancorada.

Por que você acha que a Igreja é tão anacrônica? Por que é tão difícil implementar avanços sociais que já estão estabelecidos em outras esferas sociais?

Porque são séculos interpretando a Bíblia de forma patriarcal. A Igreja é a instituição mais patriarcal que existe, embora haja espaços liberados. É o bastião do patriarcado, legitimado por uma leitura da tradição androcêntrica. É por isso que as teólogas feministas acham tão importante reler a Bíblia a partir da hermenêutica dos movimentos feministas. Sempre recebemos um imaginário de Deus absolutamente masculino. E branco. Essa linguagem gera uma moral patriarcal e de classe. Por isso foi tão importante o grito dos primeiros teólogos africanos, que afirmavam que “Deus é negro”. Exigimos outras linguagens sobre a realidade que nós crentes chamamos de Deus, para abrir o nosso olhar e que em seu nome a discriminação das mulheres não se legitima.

Quais realidades as teólogas feministas descobriram na Bíblia que nos foram negadas?

Abordamos os textos a partir da suspeita, despatriarcalizando-os e analisando por que as mulheres não aparecem ou por que aparecemos de determinada maneira. E continuamente nos perguntamos se aquilo que oprime e legitima a discriminação e a violência pode ser a palavra de Deus. Quando eu era jovem, socializávamos muito no compromisso cristão com um texto de Jeremias que dizia: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir. Tu me violaste e me possuíste”. Isso, que vemos hoje como ultrajante, pode ser a palavra de Deus? Obviamente, não.

A partir dessa suspeita, descobrimos mulheres que são grandes estranhas como Agar, uma escrava em busca de libertação. Há também Sifra e Púa, a quem apenas duas linhas são dedicadas no Êxodo, mas que foram grandes mulheres: duas parteiras egípcias que se rebelaram contra as leis genocidas que ordenavam que crianças judias fossem abandonadas no rio para se afogarem. Judith enfrentou o poder político e militar; Deborah foi uma juíza em Israel…

A Bíblia, como qualquer texto, deve ser lida pensando no contexto em que foi escrita. Porém, não é um romance, mas um livro que serve de guia moral para muitas pessoas. Como resultado dessas passagens, que você descreve como ultrajantes, comportamentos discriminatórios são justificados contra mulheres, migrantes, pessoas LGTBI…

Uma das coisas mais terríveis é fazer uma leitura fundamentalista dos textos sagrados, porque eles têm muitas consequências na práxis social. A Bíblia é um livro inspirado e, portanto, não pode ser interpretado literalmente, mas à luz dos sinais dos tempos e em diálogo com as novas hermenêuticas. Um dos maiores erros da Igreja institucional é a demonização dos feminismos porque eles têm contribuições importantes para podermos criticar nossas tradições. Assim, a teologia feminista é considerada mais feminista do que teologia e, portanto, não acaba tendo voz na Igreja. A religião tem medo dos feminismos porque eles envolvem mudanças grandes e radicais. Apesar disso, muitas mulheres temos aplicado a perspectiva de gênero em nossa experiência da Igreja e continuamos a ser cristãs. Mas também há muitas mulheres que, não encontrando solução nessa situação, abandonam a Igreja. E isso deveria nos fazer pensar muito sobre para onde estamos indo.

Quais são as consequências para alguém ter que abandonar sua fé por ser discriminada como mulher?

Anos atrás, como freira, comecei a trabalhar com mulheres pobres e percebi que a categoria ‘classe’ não era suficiente para nos libertar. Tive contato com o feminismo, com a teologia feminista e isso mudou minha consciência de mim mesma e meu compromisso social. Mas posso dizer que as feministas cristãs somos intrusas na Igreja e nos movimentos feministas. Muitas mulheres têm uma ferida aberta, porque ainda são crentes, mas se sentiram expulsas. É nas práticas e militâncias compartilhadas que podemos nos reconhecer e temos muito para esclarecer sobre isso.

Muitas pessoas falam que feminismo e religião são incompatíveis por causa da negação histórica de direitos como o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a libertação das mulheres. Como você reage a isso a partir da teologia feminista?

Uma coisa são as ideias e outra, o corpo. Alguns dizem que freiras esquerdistas e feministas não existem. Porra, eu sou uma! Há 30 anos sou membro de organizações sociais e grupos feministas de bairro. As pessoas nesses ambientes me reconhecem, embora teoricamente eu seja um oximoro. É importante que cada um de nós saia dos estereótipos para nos encontrar nas ruas, nas praças, nas lutas e nos sonhos. É graças a esses espaços onde respiramos que as mulheres feministas da Igreja sobrevivem. Ali nos alimentamos para lutar contra uma Igreja que não nos entende.

E, às vezes, também nos sentimos intrusas nos feminismos. Lembro-me de quando um grupo de freiras divulgou um vídeo apoiando a greve feminista de 2019. Éramos 10 mulheres mais velhas que se cansaram de ficar invisíveis e logo se tornou viral. Você pode imaginar os comentários da extrema-direita, mas a resposta de certos setores da esquerda nos magoou muito. Teve quem dissesse que viemos boicotar a greve, ou que se as freiras participassem, não era mais feminismo. Geralmente me sinto mais confortável no feminismo civil do que no feminismo cristão, mas há momentos complicados.

Em seu livro Teología en las periferias, você fala da fé a partir da periferia do ativismo. O que significa para uma teóloga contribuir mais para a mudança de uma assembleia de Lavapiés do que da Igreja?

Recuperamos formas de Igreja que nada têm a ver com paróquias. Reivindicamos os locais de encontro onde existem pessoas crentes e não crentes de diferentes culturas. É uma prática eclesial que existe. Não pretendemos convencer, mas lutar a partir do compromisso da fé, que é mais do que uma doutrina: é a experiência do amor na história, nos povos e nas culturas. Sentir a Igreja como ferramenta para preservar a justiça e a igualdade nos leva a ver que o que está em jogo é a vida e onde a vida é mais defendida é nos movimentos sociais.

As assembleias e os espaços de troca de ideias são inspiradores para minha experiência religiosa, para descobrir uma divindade que não entende fronteiras ou limites e não liga se você é negro, se tem documentos, se é pobre, gay, trans ou se você é uma mulher. É uma experiência que nos une e nos leva a viver a comunidade. E isso, em tempos de pandemia, é fundamental: se aprendemos alguma coisa, é que sem comunidade não há vida. Acho o feminismo uma enorme amostra de espiritualidade, porque a fé não é monopólio de nenhuma religião. Por trás de grandes palavras como espiritualidade, existem conceitos universais. É o que temos feito com esses conceitos que está nos distanciando uns dos outros.

Entrevista de Pepa Torres a Sandra Vicente publicada em Pikara online magazine em 3 de março de 2021. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2021/03/el-imaginario-de-dios-como-hombre-y-blanco-justifica-una-moralidad-patriarcal-y-clasista/.

Tradução: Luiz Morando.

Pepa Torres atua há 30 anos em movimentos feministas e espaços populares no bairro madrilenho de Lavapiés. Além disso, ela é freira e teóloga feminista. Ela critica com firmeza essa Igreja "anacrônica e patriarcal", mas não renuncia ao sonho de poder criar uma instituição que busque o bem comum e a libertação das mulheres.

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