Levantem suas bundas! Memória da insubmissão bixa

“Na Radical Gai havia bixas que também alegavam objeções e queriam se tornar insubmissas. Aí criamos a ‘insubmissão gay’, que dizia: ‘Não vamos para o exército não porque não acreditamos em guerras, mas porque o que vamos fazer lá com tantos homens se não podemos trepar com eles’ ( risos). Editamos um dossiê muito bom intitulado ‘Levantem suas bundas’. A objeção deveria ser radicalizada porque a prisão estava no caminho.”

Esta citação do ativista cuir Sejo Carrascosa em uma entrevista para a Pikara Magazine é a centelha que acende esta reportagem. A próxima pista nos leva a Iruñea, a cidade que sediou em 1995 um encontro sobre a insubmissão bixa organizado pelo EHGAM, o movimento de libertação gay do País Basco.

“Se tiver que ir, eu me mato”

Joan, aliás Juanita Márkez, tinha 17 anos quando recebeu a temida carta da Junta de Cornellà: teve que se apresentar em 24 de outubro de 1988 perante a Junta de Serviço Militar para formalizar sua inscrição no serviço militar. Como um sobrevivente de bullying homofóbico no colégio, ela imaginava a crueldade que a esperava no quartel. Isso ficou muito claro para ela: “Se tiver que fazer o serviço militar, eu me mato”. Ela recorreu ao movimento antimilitarista Mili KK, mas não encontrou o apoio que esperava. Decidiu alegar homossexualidade primária, uma forma de dispensa contemplada pelo Exército por considerá-la uma incapacidade incompatível com a disciplina militar. A Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da classificação das doenças mentais em 1993, ano em que Juanita respirou com tranquilidade.

Primeiro ela foi ao médico de família para pedir o atestado exigido pela Junta de Serviço Militar. Ele a encaminhou ao urologista, que a examinou como vacas no trem e a encaminhou ao psiquiatra, que lhe disse que não sabia como provar algo assim. Por fim, a psicopedagoga do colégio colocou-a em contato com um amigo psiquiatra da rede privada de saúde que lhe entregou o atestado em dois minutos. Juanita reconhece o incômodo de aceitar esse diagnóstico, mas o compara ao fato de que, ainda hoje, pessoas transexuais precisem ser diagnosticadas com disforia de gênero para mudar de nome no registro civil.

A resposta foi um balde de água fria: “Depois de examinar o processo do rapaz, esta junta de classificação e revisão decide declará-lo apto ao serviço militar.” Juanita Márkez apelou e, enquanto isso, declarou-se com objeção de consciência. Sua Via Sacra incluiu viajar a cada dois anos a um hospital militar de Madri. “O psiquiatra teve que se certificar de que eu continuava sendo bixa. Ele me pedia para desenhar a mim mesmo. Esforcei-me por me desenhar muito triste, marginal, na rua.” Naquela época, ela já havia se engajado no movimento okupa e se tornado uma punk e orgulhosa bixa; ela ia aos retornos vestindo seu penacho vermelho e seus trejeitos. Ela estava terminando sua graduação em Psicologia e essa formação deu-lhe serenidade para enfrentar o poder psiquiátrico.

O tempo aumentava a angústia, mas também trabalhava a seu favor: o Movimento de Objeção de Consciência (MOC) registrou 100.000 objetores e 2.000 insubmissos, que desafiavam o sistema com ações de rua e greves de fome nas prisões. Em 1993, ano em que os parlamentos basco e catalão aprovaram moções a favor da descriminalização da insubmissão, Juanita enfrentou o psiquiatra que devia avaliar sua exclusão do serviço militar e da prestação de serviço social obrigatório (PSS) e disse-lhe sem rodeios: “Estou absolutamente loka e sou uma bixa perdida. Ou você me dá a declaração de incapacidade permanente ou me torno insubmissa.” E funcionou.

Escolher a bofetada

O governo de Felipe González aprovou a Lei de Objeção de Consciência em 1984. Como única alternativa, impôs um serviço civil com duração superior ao militar, que consistia em trabalhar gratuitamente para entidades sociais ou governamentais. Como se não bastasse a pena, estabeleceu penas de dois anos, quatro meses e um dia para quem se recusasse a fazer a PSS. Quando obteve a exclusão temporária do serviço militar por homossexualidade primária, Juanita já havia sido chamada para fazer a PSS. Ela se recusava a fazer o serviço militar por medo – “Eu não queria ter militares em cima de mim, rindo de mim por ser bixa. Isso eu já vivenciei no colégio.” – e ela se recusava a fazer a PSS por dignidade política: “Preferia ir para a cadeia. Eu tinha começado a guerra e essa era a última batalha.”

O movimento de insubmissão – estimulado por homens e mulheres antimilitaristas, anarquistas, comunistas, independentistas e feministas – foi acionado como tal em 1988, ano em que foi aprovado o regulamento da PSS e realizada, em Saragoça, a Segunda Conferência Estadual Antimilitarista.

Carlos Herrero Canencia estava lá. Era estudante de Filologia na Universidade Complutense, membro da sua Assembleia Antimilitarista. Em março de 1990, aos 21 anos, apresentou-se como insubmisso, alegou ser gay e se recusou a participar de uma instituição homofóbica. “Nunca pensei em alegar homossexualidade para me livrar de mim mesmo; tampouco tentei me livrar alegando pés chatos. Eu não queria me livrar, eu queria me opor”, diz ele. Ao seu redor, a maioria dos gays optou por fazer a PSS. “A ilegalidade provocava medo”, reconhece ele.

A juíza reduziu sua sentença para um ano porque ele não tinha antecedentes criminais, mas ele se recusou a assinar a liberdade condicional e entrou na prisão em 1996. Ele cumpriu um mês e meio em regime fechado e depois passou para o semiaberto. Ele foi entrevistado pelo jornal El Mundo com a manchete “O serviço militar não é cor-de-rosa”. “O serviço militar é uma cadeia de humilhações, e o último elo, que é o soldado, humilha aquele que considera ainda mais fraco que ele, a bixa que está ao lado dele”, respondeu ao jornalista.

Nesse movimento antimilitarista dos anos 80 havia muitos gays, mas a maioria estava no armário. “Então, com 20 anos, era muito complicado dizer que você era insubmisso e também gay. Muitos escolheram onde queriam receber as bofetadas”, valoriza. A corrente em que atuou estava ligada ao Movimento Comunista, do qual participavam lésbicas feministas como Empar Pineda e Cristina Garaizabal. Por isso, o feminismo e a crítica à homofobia estiveram presentes no discurso de seu coletivo.

Juanjo Compairé, membro da associação Homes Igualitaris, recolheu em um artigo acadêmico em 2011 depoimentos de insubmissos e objetores de consciência. Alguns apontam que conviver com homossexuais dentro desses movimentos os ajudaram a rever sua homofobia. “Aprendi muito com o movimento gay. Eles eram caras muito engraçados. Eles me provocavam muito, me obrigavam a reagir”, diz um entrevistado. Outro assinala que na cadeia havia muitos presos homossexuais e que eram “pessoas declaradas, não se escondiam e cumpriam uma função: eram eles que faziam as tarefas femininas”.

Carlos Herrero não se arriscou a verificar isso. “Na prisão eu fiquei no armário. Mas também não fiquei posando de machinho. Quando me entrevistaram no rádio, cruzei os dedos para que nenhum prisioneiro me ouvisse.” Ele diz que os insubmissos gozavam de grande respeito: “Os prisioneiros ficaram maravilhados por termos escolhido a prisão. Além disso, não éramos lúmpen, tínhamos estudos. Um prisioneiro me disse: ‘Você não tem cara de prisão!’”.

Paradoxalmente, o espaço em que Herrero se sentiu mais mal foi o Colectivo Gay de Madrid (COGAM), que lhe deu as costas: “Decidiram acolher objetores, isso significava nos sufocar”.

O nojo é mútuo

No dia do seu julgamento, Xabi Sánchez Goronaeta usava brincos vistosos e a camisa que seu coletivo, EHGAM Nafarroa, havia desenhado com o slogan “Borrokarako gai” (trocadilho entre “gay para lutar” e “capaz de lutar”) e uma figura ameaçando com um estilingue dentro de um triângulo rosa. Ele foi um insubmisso total, estratégia que consistia em ignorar as intimações do tribunal. Ele estava sob mandado de busca e ordem de prisão até ser preso. Na sala, disse: “Nós, bixas, não aceitamos que o Exército diga que somos doentes, por isso nos recusamos a aceitar a saída que nos é oferecida. Somos nós que repudiamos essa instituição”. “Assim como em outros lugares a crise da Aids politizou os gays, no País Basco foi a insubmissão que nos levou a internalizar o discurso queer e criar um sujeito bixa empoderado.”

Também em 1996, ele passou cerca de três semanas na prisão e mais nove meses no semiaberto, mas se sentiu apoiado pelo resto dos insubmissos. Fazia um ano que o EHGAM havia sediado em Iruñea o encontro estadual da insubmissão gay da Coordinadora de Frentes de Liberación de Homosexuales del Estado Español (CFLHEE), com a participação da Radical Gai, do Front d’Alliberament Gai de Catalunya (FAGC) e Gays Llures Valencia.

O EHGAM explica em um dossiê em que também incluiu o ‘Levantem as bundas’, escrito por José Decadi, que o pouco conteúdo sobre machismo e homofobia dentro do movimento antimilitarista fez com que “três bixas em situação avançada de desobediência” se reunissem em uma okupa para desenvolver um discurso próprio. Elas assinalavam que o serviço militar era “uma incubadora de heteropatriarcado” e “um bastião da masculinidade” construído sobre o assédio de bixas e mulheres. “O que fazíamos em uma organização que nos odiava, humilhava e perseguia? […] O que fazíamos num lugar que, para falar a verdade, também nos dava nojo?” Elas apontaram que a legislação militar criminalizava as relações sexuais como “atentando contra a dignidade militar” e que o medo levava os soldados gays ao desespero e até ao suicídio. Elas argumentavam que os militares eram assassinos de bixas e que não haviam perdido nada no serviço militar, já que era um rito de passagem para o homem heterossexual.

A insubmissão bixa desafiou o movimento antimilitarista – ao qual criticava “uma rejeição um tanto dissimulada, mas evidente” – para abordar as subjetividades queer e romper com a ordem heterossexual. Elas não se definiam como gays insubmissos, mas como bixas e, portanto, insubmissas.

Também denunciaram que a Coordenadora Gay-Lésbica do Estado espanhol estava pedindo a objetores que cumprissem a PSS e refutavam seu discurso reformista de que os homossexuais também deveriam ser admitidos no Exército. Da perspectiva da Radical Gai, responderam que não se tratava de o Exército tolerar a homossexualidade, mas de lutar contra “um aparato repressivo que reproduz o machismo e o heterossexismo”.

“Estivemos visíveis, mas nem todas no mesmo saco; algumas eram mais velhas, outras evitaram ir para a prisão. Foi relativamente curto, porque em 2001 o serviço militar obrigatório acabou ”, diz Xabi Sánchez. Embora o cínico José María Aznar tenha feito o gol, o crédito foi para os e as insubmisses, incluindo aquelas bixas duplamente desobedientes.

Artigo de June Fernández publicado em 24 de março de 2021 em Pikara online magazine. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2021/03/levanten-nalgas-memoria-de-la-insumision-marica/

Tradução: Luiz Morando.

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