Nadia Echazú, uma parte da luta trans era ela

Nadia Echazú nunca passou despercebida.

Nem para mim, um menino do interior do interior – rionegrino que veio estudar em La Docta; que no frio de julho de 1991 cruzou com essa travesti pela primeira vez; nem para Aníbal Ibarra, que debatia com Nadia Echazú, como representante do governo de Buenos Aires no programa Hora Clave de Mariano Grondona, sobre a criação de guetos para o coletivo travesti/trans se prostituir nos bosques de Palermo.

Neste Dia Internacional de Visibilidade Trans [31 de março], Nadia Echazú, a grande esquecida na história da luta das travestis e das pessoas trans na Argentina, merece seu reconhecimento. Sua morte prematura, em 18 de julho de 2004, tornou-a praticamente desconhecida para as gerações que vieram depois dela; mas ela se encarregou de deixar sua marca com, entre outras, Lohana Berkins, Diana Sacayán e Marlene Wayar, com quem viveu em Córdoba e atualmente edita El Teje, um jornal trans.

No início deste século, já instalada na Cidade de Buenos Aires, Nadia, junto com Lohana, começou a pensar e traçar os primeiros contornos da escola-cooperativa que anos depois abririam em Avellaneda para que travestis e transexuais pudessem sair da marginalidade e prostituição, e ter acesso a uma vida mais digna. Apenas três anos após a morte de Nádia, em 2007, a cooperativa ganhou forma jurídica e recebeu o nome de “Nadia Echazú” em sua homenagem.

No final de 2006, o Supremo Tribunal de Justiça concedeu personalidade jurídica à Asociación por la Identidad Travesti, Transexual (AlITT), cuja presidente era Lohana Berkins, o que ativou a legalização da cooperativa: “Pusemos o nome de Nádia na cooperativa porque queríamos resgatar o sentido de comunidade, da memória porque se hoje existem grandes estrelas e a sociedade não se escandaliza é porque aqui há uma luta e Nádia participou dela”, disse a líder trans à revista La Vaca em maio de 2009.

Nadia Echazú era de Salta. No final dos anos 80 chegou a uma Córdoba clerical, fugindo da opressão patriarcal de Salta. Como a maioria das travestis e trans, ela se prostituía para viver. E sem saber, à força de golpes – reais, não eufemísticos – fez suas primeiras armas na militância pelos direitos de seu coletivo. O que me impressionou na primeira vez que fui à casa dela foi ver muitos exemplares da revista Humor em uma biblioteca/armário. Naquela época, ela me disse que havia chegado à Universidade de Salta, mas que a sociedade a havia expulsado.

Em Córdoba, trabalhou na zona da Segunda Seção, no entorno do Mercado Norte. Mixer funcionava ali, um bar que serviu mais de uma vez para esconder mulheres trans que escaparam de batidas policiais. Muitas vezes, as travestis do início dos anos 90 passaram vários dias ali para evitar serem presas pelo único crime de “usar roupas que não sejam de acordo com o sexo”, conforme rezava o Código de Conduta Imprópria de Córdoba.

Eugenio Cesano, dono do Mixer e fundador da Asociación contra la Discriminación Homosexual (ACoDHo), lembrou que “Nádia era imponente, tinha caráter, resistia; ela era culta, além disso, era bonita. Ela não militou no sentido estrito da militância, como o fez mais tarde em Buenos Aires. Ela era uma militante sem saber, sem perceber. Formamos a ACoDHo principalmente para combater o Código de Conduta Imprópria que criminaliza as travestis. Na ACoDHo tinha gays, mas principalmente travestis, na época não dizíamos trans”.

Cesano, um lutador histórico da causa LGBT, disse ao elDiarioAR que “o Código de Conduta Imprópria tinha duas coisas muito sérias: uma, o policial que te detinha era o juiz que assinava sua pena; e a outra era a concatenação de crimes, eles podiam baixar todo o Código para uma pessoa na mesma noite: à roupa incorreta, acrescentavam vadiagem se você trabalhava na rua; eles te acusavam de exercício ilegal da prostituição e escândalo na via pública; e se para suportar a prostituição você bebia ou usava drogas, eles te culpavam por estar bêbada na via pública. Era terrível o que as meninas sofriam. E Nadia, ela foi uma daquelas que resistiu a esses atropelos do poder”.   

Entre 1993 e 1994, Nadia Echazú foi morar em Buenos Aires. E ela teve sua parada em Palermo. Lá ela também fez frente ao poder: “Não nos importamos com o que é obsceno, porque eles ainda nos levam presas vestidas, dentro de um táxi, em uma discoteca ou na porta de nossas casas”, disse em uma entrevista ao Página 12. Nada mudou, Buenos Aires e Córdoba continuam oprimindo. 

Experiente com as ruas de Córdoba, Nádia não hesitou em convocar suas companheiras e ingressou na Asociación de Travestis de Argentina (ATA), da qual saiu para fundar a Organización de Travestis y Transexuales de Argentina (OTTRA), como ela mesma recordou em uma palestra gravada em “Nádia e suas amigas: um diálogo entre Nadia Echazú, Lohana Berkins e Marlene Wayar”, publicado por Ana Alvarez e Josefina Fernández em Moléculas Malucas: “Os conflitos que tive com as organizações de travestis foram econômicos. Na verdade, eu me abri sobre a ATA (Asociación de Travestis de Argentina) para esta edição. Lutar por dinheiro nas organizações é falar mal do movimento”, disse Echazú. 

Nesses Diálogos, Nádia disse a suas companheiras ativistas: “Comecei a perceber essas diferenças mais tarde, quando amadureci politicamente. Vou contar como comecei. Um dia, em 94 ou 93, eu estava para entrar na Feira da Moda e veio a Polícia, não deixou a gente entrar e nos prendeu. Naquela época você não discutia com a polícia e eu tinha muita vergonha de discutir no meio das pessoas. Entrei na viatura e saímos, eles nos levaram. E nos trancaram, sem ter motivo, nada. E estávamos até de calça, com tudo. Quem estava na mexida era Kenny de Michelis e eu tinha seu número de telefone e liguei para ela da Delegacia 23. Kenny ligou para Angela Vanni e lhe pediu que fosse falar comigo e ela negociou com a polícia e fomos libertadas. Na época eu não tinha ideia, absolutamente nada. Vinha de muita, mas muita perseguição da Polícia. De ficar presa por noventa dias, sair, ficar uma semana livre e entrar novamente por sessenta e sair novamente. Nunca completava uma semana e voltava a ser presa. Ficava na masmorra, cortavam meu cabelo e tudo mais. E por tudo isso eu tinha ficado muito fechada, era difícil para mim me comunicar com as pessoas. Não tinha diálogo com as pessoas, e as únicas com quem falava, e pouco, eram as travestis”.

“A Polícia mata”

Apesar da vida e da militância portenha, Nadia Echazú voltava de vez em quando a Córdoba, onde acompanhava de perto a evolução do coletivo de travestis. Em uma dessas viagens, no verão de 2000, a tragédia e a militância a convocaram: Vanesa Ledesma, uma travesti de 47 anos, havia sido presa por um escândalo na via pública na porta do bar Afanancio de Catamarca e Ovidio Lagos no bairro General Paz. Duas patrulhas policiais chegaram ao local, onde a mulher trans havia protagonizado uma briga com sua companheira. Os policiais a espancaram e a levaram presa para a 6ª Delegacia de Polícia do bairro General Paz, na avenida 24 de Setembro, mas como ela estava lotada, a transferiram para a 13ª Delegacia de Polícia do bairro General Bustos.

Cinco dias após sua prisão, Vanesa Ledesma foi encontrada morta em sua cela. Nadia Echazú e Eugenio Cesano organizaram as primeiras passeatas de travestis em Córdoba denunciando o crime cometido pela Polícia. O caso foi considerado pela Anistia Internacional como exemplo de violência institucional no país pelas mãos das forças de segurança.

“Você viajou por causa do caso de Vanesa?”, perguntei-lhe naquele verão de 2000. E Nádia, que já era uma líder nacionalmente reconhecida, me disse que estava em Córdoba visitando amigos e que o assassinato a havia encontrado por acaso: “Eu sou como Troilo, ‘quem disse que eu saí do bairro?, se sempre estou chegando.’ Eu vim antes de matá-la, queria ir para Salta e ela tirou isso de mim, então aqui estamos. As meninas têm que se organizar, eu posso dar uma mão, mas são elas que têm que se organizar”, ela me disse aquela vez, em uma das marchas que percorremos da Central de Polícia até o cruzamento das avenidas Colón e General Paz. Uma raridade: as travestis só eram vistas à noite, não às seis da tarde e muito menos em passeata exigindo Justiça. O travesticídio de Vanesa Ledesma foi encerrado em março de 2002 sem culpados. 

“Vou te dar direitos, seu degenerado de merda”, ameaçou um policial federal da Delegacia 25 e espancou Nádia, enquanto ela distribuía preservativos e fazia campanha de prevenção contra o HIV. Naquele 7 de outubro de 2001, três agentes atacaram a líder trans; um deles pediu os documentos e cuspiu nela. Quando Nadia reagiu, outra espirrou gás pimenta em seu rosto e um terceiro a algemou; espancando-a, os três a colocaram na viatura para a delegacia de Scalabrini Ortiz.

Na Delegacia 25 de Palermo, eles odiavam Nadia Echazú e sua militância. E os antidireitos tinham seus motivos: “Sempre digo que meu movimento começou na delegacia. Uma coisa que se voltou contra a Polícia foi me colocar na cela com todas as meninas porque comecei a organizá-las lá e elas começaram a me ouvir mais. Falei sobre minhas ideias, o que pensava e aconteceu que elas se identificavam, porque a mesma coisa aconteceu com todas nós. E as meninas começaram a me seguir um pouco mais. E vivíamos juntas o tempo todo, no hotel ou na masmorra. Do mesmo modo foi o Encontro, o primeiro Encontro, o de Rosário. Para mim foi incrível! Foi a primeira vez que pude conversar, depois de muito tempo, com outras pessoas que não eram travestis”, como foi registrado em “Nádia e suas amigas: um diálogo entre Nadia Echazú, Lohana Berkins e Marlene Wayar”.

Em 1998, ano em que foram revogados os decretos policiais na Cidade Autônoma de Buenos Aires (CABA), Nádia foi detida como outras tantas vezes. Eles bateram nela para fazê-la entrar no camburão e na delegacia bateram de novo, molharam-na e deixaram-na na cela. A surra a deixou com sequelas renais, o que agravou sua saúde já delicada. As mesmas práticas da Delegacia 13 de Córdoba.

Ela recuperou sua liberdade e foi presa várias outras vezes. Até que, afetada pelo HIV, suas amigas a internaram no Hospital Muñiz, onde morreu, invisibilizada e com identidade negada na enfermaria masculina, em 18 de julho de 2004.

Reportagem de Gustavo Molina publicada em elDiarioAR em 31 de março de 2021. Disponível em: <https://www.eldiarioar.com/sociedad/nadia-echazu-parte-lucha-trans_130_7368106.html?fbclid=IwAR0uyZWYAayxmp7Am2mB6juaCQeglc13g4M1sKspSQCp2144ZrXQva0Cazg>.

Tradução: Luiz Morando.

Nadia Echazú nasceu em Salta, começou na militância travesti / trans em Córdoba nos anos 90 e liderou o ativismo em Buenos Aires, ao lado de Lohana Berkins, Diana Sacayán e Marlene Wayar. Ela debateu contra a criação de guetos para travestis. Conheça o perfil de uma das pioneiras da luta trans na Argentina.

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