Pose e It’s a sin: o trabalho de memória das séries com a Aids

O ano de 2021 marca o 40º aniversário da epidemia de Aids. Uma data importante, pois o assunto evoca sofrimentos, lutos, discriminações, mas também lutas militantes ou políticas e solidariedade. Ao mesmo tempo em que o manejo da doença mudou, certa indiferença se instalou entre os mais jovens.

Hoje, duas séries ambientadas na década de 1980, bem no início da epidemia, voltam a essa parte da história: Pose, de Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals, e It’s a sin, de Russell T Davies. A primeira se passa na Nova York dos anos 1980, no coração da comunidade queer latina e afro-americana, na cultura do ball onde a Aids está causando estragos. A segunda começa em 1981, em Londres, e segue um grupo de amigos gays ao longo de dez anos, que corresponde ao início da epidemia de HIV e seu dramático aumento.

Por que essas séries emergem hoje, em seguida a obras de ficção cinematográficas como 120 batimentos por minuto, de Robin Campillo, ou Conquistar, amar e viver intensamente, de Christophe Honoré, mas após anos de quase silêncio em torno do HIV? E, sobretudo, o que podemos aprender e tirar delas, ainda que hoje a Aids, uma vez detectada e tratada, tenha se tornado uma doença crônica?

Dever de memória, dever de informação

À primeira pergunta, Didier Roth-Bettoni, jornalista e historiador do cinema LGBT+, responde facilmente: “Seja Ryan Murphy ou Russel T Davies, esses roteiristas e diretores pertencem a uma geração que atravessou esse período e que precisava fazer um trabalho sobre sua própria geração, uma espécie de trabalho de luto, para poder abordá-la em suas criações. Eles precisavam de tempo para se projetar de volta àquela época e prestar homenagem às vítimas e ativistas.” Se se trata de fazer um trabalho de memória, trata-se ainda mais de uma “memória ativa com impacto no que ocorre hoje”, explica o historiador. “É essencial que essas representações existam para lembrar, mas também para viver e informar.”

Chegamos, sim, a um momento em que intelectuais e artistas têm dificuldade em articular o discurso em torno do HIV, especialmente voltado para os mais jovens, que desconhecem o que aconteceu. Didier Roth-Bettoni continua: “É difícil definir o que é o HIV/Aids em 2021. O impacto dramático na ficção é menor do que antes. Um paciente de Aids hoje, enquanto é tratado, se parece com qualquer um.” No entanto, precisamos de ferramentas para informar e comunicar sobre a doença, e as obras de ficção que se desenvolvem na década de 1980 podem servir de suporte para isso. Um suporte que deve ser acompanhado de uma contextualização para afirmar que a realidade hoje é diferente.

De fato, no lançamento de It’s a sin na Inglaterra, alguns, incluindo o ativista americano Mark S. King, expressaram seu medo de que a série levasse a uma onda de serofobia, ou que os espectadores parassem em uma visão datada do HIV. Um medo inicialmente compartilhado por Fred Colby, ativista e autor de T’as pas le sida, j’espère?! [Você não tem Aids, espero?!, em tradução livre], mas rapidamente varrido pelas campanhas realizadas em torno da transmissão da série. “É extremamente importante nos colocarmos de volta no contexto da época, entender que havia muitas incógnitas sobre os modos de transmissão, e que em meio à revolução sexual em que os gays estavam se libertando, a chegada do HIV poderia ter sido vista como uma forma de conspiração, ele explica. De repente, e em meio à imprecisão médica, os gays estavam sendo instruídos a não trepar mais. É normal que isso tenha sido vivido na negação ou na ideia de que se tratava de algum tipo de conspiração homofóbica liderada pela Igreja Católica e pelos conservadores”. It’s a sin também evidencia a flagrante falta de informação no início dos anos 1980, quando Jill, a heroína, pede a seu amigo Colin que compre livros e revistas sobre o assunto durante uma estada rápida em Nova York…

Este apoio foi prestado por associações britânicas, em particular pelo Terrence Higgins Trust Institute, que surfou na hashtag da série para lançar uma campanha sobre o tema “O HIV mudou” a fim de disponibilizar informações sobre a PrEP e também sobre o conceito de I = I (indetectável = intransmissível). A associação ainda retomou o emblemático “La” da série para fazer campanha, não sem humor, nas redes sociais. E, como Fred Colby também observou em seu blog, o Instituto também desenvolveu um questionário chamado “Watching It’s A Sin? How much do you know about HIV in the 1980s and today?” [“Assistindo It’s A Sin? Quanto você sabe sobre o HIV na década de 1980 e hoje?”], permitindo que você teste seu conhecimento sobre HIV e Aids. Na França, e embora a transmissão da série seja limitada aos assinantes do Canal+, as associações lançaram no Twitter a hashtag # LeVIHachangé [#oHIVmudou] na mesma linha.

Múltiplos públicos

Se há necessidade de os criadores de ficção se expressarem e informarem, ao mesmo tempo eles atendem a uma necessidade do público, ou melhor, dos públicos, como se expressa Didier Roth-Bettoni: “Existem públicos diferentes que são interpelados por ficções que tratam do HIV. Os que viveram o período da década de 1980 estando no centro da epidemia; aqueles e aquelas da mesma geração que passaram totalmente ao largo e que hoje sentem uma espécie de culpa; os quase quarentões e os jovens quarentões a quem estas séries permitem elementos de compreensão de um período do qual eles são os herdeiros imediatos e que precisam de peças para montar o quebra-cabeça; e os mais novos, que absolutamente não conheceram essa época.”

Todos e todas podem se beneficiar com as lições desse período, que estão muito bem representadas em Pose e It’s a sin, para que, coletiva e individualmente, os erros que foram cometidos não existam mais. As séries mostram de fato como é importante hoje lutar contra a discriminação, a homofobia, a transfobia e o racismo, como explica Fred Colby: “O que se deve entender é que o HIV é uma doença política e social que não atinge a todos da mesma forma. Ele afeta particularmente grupos específicos, gays, trans, profissionais do sexo… e minorias étnicas. Hoje, a epidemia está diminuindo entre gays brancos, mas está estagnando, se não aumentando, entre negros e latinos nos Estados Unidos e entre gays nascidos no exterior na França. A Aids se alimenta de discriminações. Homofobia, transfobia ou racismo são fatores suplementares de enfraquecimento que colocam as pessoas em risco.”

It’s a sin nos lembra, por exemplo, dos danos causados ​​pela Seção 28 na Grã-Bretanha. Esta emenda de 1988, que só foi revogada em 2003, prescrevia que a autoridade local “não devia promover intencionalmente a homossexualidade ou publicar material com a intenção de promover a homossexualidade” ou “promover a educação em qualquer escola pública a aceitabilidade da homossexualidade como uma suposta relação familiar”. Contribuiu-se, assim, para abrir caminho para a homofobia e a bifobia, além de não permitir que as associações informassem sobre os meios de prevenção contra a Aids.

Também incorporando trechos de protestos e ativismo do Act Up, Pose e It’s a sin não apenas homenageiam seus ativistas: eles também nos mostram como é crucial não deixar o silêncio se estabelecer – lembremos o slogan “Silence = death” (“Silêncio = morte”). As apostas são certamente diferentes hoje, mas o silêncio continua assassino.

Por fim, como observa Didier Roth-Bettoni, Pose ou It’s a sin nos lembram que a solidariedade e o fato de recriar uma família para se apoiar e amar é algo que contribui para a história das lutas e das comunidades LGBT+. Encontramos esse conceito nas “casas” na cultura do ball, onde “mães” adotivas tomam sob suas asas jovens queers frequentemente rejeitados por seus pais. Também vemos isso em It’s a sin, na colocação dos protagonistas. “Essas séries também remetem ao papel das mulheres lésbicas, que foram muito importantes na luta contra o HIV”, acrescenta Didier Roth-Bettoni. E conclui: “Essas ficções nos contam que a comunidade LGBT+, independente da idade de seus integrantes, tem uma história compartilhada. É importante para os mais jovens, que às vezes se sentem como se tivessem vindo do nada.”

Em suma, recorde-se que todos os anos, na França, cerca de 6.000 pessoas descobrem o seu estado serológico. Para 26% delas, essa descoberta ocorre em um estágio avançado da Aids, impedindo-as de se beneficiarem com o tratamento precoce. Portanto, continua sendo crucial informar sobre a importância da triagem, bem como sobre a prevenção e o tratamento, e apoiar a pesquisa.

Reportagem de Laure Dasinieres publicada em Slate FR, em 2 de abril de 2021. Disponível em: http://www.slate.fr/story/206738/pose-its-a-sin-series-sida-vih-memoire-epidemie-souvenir-enseigner?utm_source=ownpage&utm_medium=newsletter&utm_campaign=daily_20210403&_ope=eyJndWlkIjoiZjdiOGE0YTczNzFhMDdjZWE2MmYyMmJmNWRiNTZiMjAifQ%3D%3D

Tradução: Luiz Morando.

A emergência das séries Pose e It’s a sin torna possível informar e comunicar sobre o HIV, principalmente entre as gerações mais jovens, que não vivenciaram o dramático aumento da epidemia.

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