Edi Dubien: sessões on-line para acompanhar a exposição

O Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Lyon acolheu a primeira exposição monográfica do artista trans autodidata Edi Dubien, que infelizmente não pôde ser aberta ao público nas condições inicialmente previstas. Hétéroclite e o MAC, no entanto, oferecem duas sessões on-line com foco na exposição e questões de transidentidades.

Como você se tornou artista?

Edi Dubien: Sempre quis criar. Com 12-13 anos de idade, ganhei minha primeira Olympus Web 10 e quis tirar fotos. Mas não pude. Para meus pais, comerciantes, não se tratava de arte. Para outros, sim. Mas eu sempre tive isso na cabeça e saí de casa muito cedo. Fiz algumas reportagens fotográficas, mas não tinha dinheiro, por isso ficou complicado. Então, comecei a esculpir. Sempre tive a ideia de criar, era como comer e viver para mim. Uma coisa natural. Era necessário.

Na exposição L’homme aux mille natures, os adolescentes são a narrativa de uma transição?

Sendo um menino trans, comecei a colocar cada vez mais coisas pessoais no meu trabalho. Já se passaram quatro anos desde que tirei minha carteira de identidade e foi aí que realmente me senti renascer. Foi um novo nascimento, artisticamente e em todos os sentidos. Fui capaz de me permitir realmente existir. E então, comecei a falar sobre minha vida de infância. Eu cresci em Paris, mas ia de férias para a casa de meus avós em Auvergne, ao pé do Puy-de-Dôme. E meus avós, sem saber exatamente quem eu era, às vezes me chamavam de “meu queridinho”, coisas assim. Quando eu era pequeno, isso me tranquilizava, eu sentia que existia.

Seus rostos têm algumas características indefinidas, mas todos parecem iguais. Podemos dizer que são retratos?

Frequentemente, são crianças que encontro nas fotos que negocio, em feiras livres, por exemplo. São retratos de família de que gosto muito ou rostos de crianças degradadas da rua. Frequentemente, são crianças que sofreram abusos ou filhas da guerra, crianças sozinhas. Eles estão sempre em ruptura. Mais ou menos como eu. Se não, ao contrário, eles estão cercados por famílias. Elas se tornam aquele garotinho que eu era, mas não podia colocar em imagens. Então, essas são projeções de quem eu teria sido quando pequeno. Uma infância um tanto roubada.

No título da mostra, o jogo de palavras entre “mil naturezas” e “mil faces” fala por si. Como isso ressoa em seu trabalho?

É a natureza em todos os sentidos da palavra! Há essa grande instalação onde há um busto masculino. Ele é feito de gesso, seguro apenas por um galho, e na frente dele há canhões prontos para disparar. Nas costas está escrito: “minha natureza está gritando”. Esta é minha própria natureza como menino trans. Num mundo que passa muito rápido, onde o ser humano já não conta, onde tudo o que é sensível é esmagado, é a natureza de cada pessoa que está em minoria. Você sente que há algo que esmaga tudo. Este é o grito de emergência. Diante do capitalismo, do patriarcado.

Na última sala há grandes pinturas de animais maquiados. O que isso simboliza?

Esses animais maquiados falam: “Foda-se, sou um bicho, maquio-me, faço o que quero”. Escolho pintar coisas de que gosto, é um olhar para a liberdade. Quero que meu trabalho seja universal, alcance o maior número de pessoas possível. Eu faço um animal porque falo da natureza e de sua causa. Aplicar maquiagem pode ser divertido, fazer as crianças rirem. Pode intrigar as pessoas, essas imagens vão falar com elas. Meu objetivo é que as pessoas sejam profundamente tocadas.

Você pode explicar o trajeto da exposição?

Primeiro, há uma pequena sala com o papel de parede com os pássaros e os crânios, e este busto de um menino segurando um pássaro. Eu tinha feito na oficina, gostei, mas faltava alguma coisa. Deixei-o lá fora, no meu jardim, e todos os dias via os pássaros pousarem nele. Ele ganhou peso, tempo, vida. E quando eles [o curador da exposição] viram, imediatamente pegaram para dar as boas-vindas ao público no museu.

Então entramos na grande sala, há um veado, parece uma Bela Adormecida. Não sabemos se ele está morto ou dormindo. Em tamanho real, parece preso no gelo. Uma espécie de lustre representando o mundo das luzes desaba ao lado dele. Este veado é intitulado Les paradis perdus, que se refere à canção de Christophe, que ainda considero relevante hoje.

Depois tem a sala com a raposa e o coelho maquiados e uma grande tenda de 3,5m de altura, totalmente queimada. Representa quando éramos crianças, quando fazíamos cabanas. Estar queimada tem a ver com todos os incêndios ao nosso redor agora. São as florestas queimadas, mas também a infância queimada. Estamos matando tudo agora, não ouvimos mais nada; os filhos, a natureza. Acima estão pequenos animais maquiados que se erguem como pequenos fantasmas que representam o retorno da vida. É também uma mensagem de esperança.

Você situa infância e natureza no mesmo nível?

Quando eu era criança, sofri abusos, porque era quem eu sou. Então, coloco tudo no mesmo nível. Esse tipo de dominação de tudo que eu mesmo sofri. Antes, para meus pais, eu era uma menina, mas como menina nunca me senti como uma menina. Como um menino de hoje, cheguei atrasado para os outros, mas sempre fui um. Escondido e fantasma, vejo ainda melhor como tudo acontece. Acho que não falamos o suficiente sobre crianças. Educação e cultura são essenciais. Eu me apeguei à cultura, sou totalmente autodidata, não fui à escola. Sempre soube que precisava aprender, que era uma forma de sair da miséria.

Esses retratos de adolescentes são o lugar onde você pôde questionar a ruptura, a desconstrução?

Todos nós temos nossa própria história: em minha jornada, a questão foi sobre construção. Nunca me senti totalmente construído. Eu precisava de hormônios e precisava passar por remédios para o meu corpo porque ele precisava de testosterona. É físico. A desconstrução vem de fazer uma transição como ser humano e desconstruir todos esses padrões. É uma escolha, é como você se sente, você se (re)constrói totalmente. Você deve ter estado em desconstrução um pouco antes, e não construído, porque você está totalmente fabricando a si mesmo. Não fui construído por uma corporação, não fui construído por ninguém. Fui eu quem me construí. Consegui informações do mundo exterior, cabia a mim pegá-las ou não.

Depois da escultura, o desenho parece ser o seu meio preferido hoje.

Já se passaram três ou quatro anos desde que eu realmente comecei a desenhar. Ele veio com minha transição e meus documentos de identidade. Eu tinha essa necessidade de aprofundar as coisas, de ter tempo. Antes eu tinha muita urgência.

Seu trabalho faz pensar em uma espécie de sonho onde os humanos são híbridos. É um sonho acordado?

Não é um sonho. É uma sensação. A natureza é muito generosa, cheia de energia. Fiz minha transição no campo e me senti bem lá. Isso me assusta menos do que a cidade. Até a morte, na natureza, é o curso das coisas. Leva tempo, não há nada mórbido. É por isso que meus desenhos com crânios são mais como ex-votos.

Seus retratos são frequentemente encontrados em superfícies planas, sem contexto. Por quê?

Para os desenhos coloco um pouco de fundo, mas vou direto ao assunto. Somos diretos na emoção, em uma emoção. Como uma foto, estamos imediatamente em primeiro plano. Aliás, meu sonho seria fazer um filme porque meus desenhos, de ponta a ponta, são como sinopses. Estou quase contando uma história.

Na sua opinião, qual trabalho melhor resume a exposição?

A última pintura, o jovem no pântano. Foi o último trabalho feito. Este está em transição, está caminhando, está na água. Ele está diretamente na natureza, existem nenúfares. Você sente que ele faz parte daquele espaço, é quase transparente.

Você pode assistir a este preview da exposição: https://www.youtube.com/watch?v=M94t2bs-xjY

Entrevista com Edi Dubien feita por Emma Nübel. Publicada em Hétéroclite em 21 de abril de 2021. Disponível em: http://www.heteroclite.org/2021/04/edi-dubien-sessions-en-ligne-61297.

Tradução Luiz Morando.

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