Motivos para seguir lutando

Victoria Arely Gómez Cruz, Vicky, como é chamada no mundo transfeminista, nasceu a 8.333 quilômetros de Madri, cidade onde atualmente reside. Ela é uma migrante hondurenha, mulher trans e defensora dos direitos humanos. De Honduras, sua terra natal, ela veio para Madri fugindo do assédio, da discriminação e de ameaças de morte que pesavam sobre ela por defender os direitos da comunidade LGBTQI+. Ela tem um olhar transparente, do tipo que não esconde nada, olha para a frente e com a cabeça erguida. Viveu muita coisa e teve que passar por muitas outras desde aquele 28 de abril de 1983, quando veio ao mundo. O mais recente tem sido o assédio nas redes por feministas transexcludentes, expondo sua privacidade e questionando sua identidade. Ela responde fazendo o que faz há quase 20 anos, ativismo e defesa dos direitos humanos, porque os direitos trans – diz ela – são direitos fundamentais que devem ser garantidos pelos Estados que se consideram democráticos.

Conte-me sobre sua infância, como foi a garota Victoria.

Acredito que na questão da infância, a maioria das pessoas trans* tem uma visão muito diferente no sentido de ser menina ou menino. É uma fase em que começa a autoidentificação. Quando eu tinha cinco anos, percebi que era totalmente diferente do resto das crianças. Eu me sentia mais identificada com as meninas e queria estar com elas, embora fosse obrigada a trabalhar e brincar com os meninos porque as professoras diziam que eu era assim, mas o espelho me dizia uma coisa diferente: me sentia como uma menina. Na escola vivi muita discriminação, fui constantemente vítima de bullying, principalmente por parte das crianças das classes mais velhas. O mesmo ocorria em casa: venho de uma família muito conservadora e muito religiosa e também fui muito próxima da Igreja, mas nem mesmo Deus poderia me dar a resposta de por que me sentia diferente dos demais. Cresci na discriminação, nasci na discriminação, nas humilhações constantes e é isso que me questiono o tempo todo: por que temos que nos habituar a ser insultadas no nosso cotidiano?

Quando você decide assumir sua transexualidade?

Aos 25 anos saí do armário. Naquele momento, disse a mim mesma: “Não vou ficar escondendo o que sinto, se no final sempre tiver discriminação, não vou continuar me escondendo.” Foram muitos anos em que fui muito andrógina, principalmente aos 20. Fiquei rebelde aí e me identifiquei muito com o rock, porque era um espaço que me permitia brincar com a minha imagem. Até hoje ainda me visto como punk e essas foram minhas referências para poder assumir a identidade de gênero. Lembro-me de mudar meus uniformes do Ensino Médio. Eu alarguei minhas calças, coloquei camisas bem apertadas em meu corpo. Aos 25 eu me vestia toda de mulher, até minha calcinha, hein! e olhei para mim mesmo pensando: “Agora sim, esta sou eu, esta é definitivamente Victoria.” Na universidade havia outra colega trans que estava estudando Jornalismo, eu estudava Ciências da Educação. Para chegar à minha faculdade, tinha que cruzar a Engenharia, que era cheia de homens. Quando passava pelas salas de aula, nunca faltava o assovio, o insulto ou mesmo a garrafa. E eu, vestida com uma peruca vermelha reta, passava e tinha que engolir os ataques. Imagino que a companheira trans que estudou Jornalismo teve que passar pela mesma coisa e sofrer o mesmo assédio. Foram anos muito cruéis e poucas pessoas se relacionaram comigo quando assumi a transexualidade. Foi nesse momento que perdi todos os privilégios masculinos e assumi a identidade do gênero oprimido. Isso ficou mais evidente quando minha família me disse que preferia “parecer bicha do que travesti”. Perdi a comunidade da família, não era mais bem-vinda nas reuniões de família e tive que sair de casa. Mas, ao decidir o que quero para minha vida, assumi a transexualidade.

Como você passa a se relacionar com a defesa dos direitos humanos e do coletivo LGBTQI+?

Naqueles anos conheci duas organizações, a Arcoíris e a APUVIMEH (Asociación para una vida mejor de personas afectadas e infectadas por el VIH). Comecei a me encontrar com Arcoíris, mas não me senti útil. A visão que se tem das mulheres transexuais no ativismo LGBTQI+ é que não temos cérebro para pensar. Há uma imagem totalmente errada de que a nossa única preocupação é colocar salto, maquiagem, um vestido legal que encontramos na loja, e isso me fez sentir muito mal, porque todas nós temos a capacidade de pensar e se desenvolver no ativismo. Na comunidade LGBTQI+ também há muita misoginia.

Vicky, você está me dizendo que também existe discriminação contra mulher trans, certo?

Sim, totalmente, porque não nos educamos ou nos sensibilizamos para trabalhar nossos privilégios dentro dos ativismos. No Arcoíris parecia que eles só nos queriam para concursos de beleza, para fazer danças e coreografias. Naquele espaço não encontrei nada mais do que a misoginia prevalecente em toda a sociedade e muita transfobia. Cuidado, não vamos esquecer a transfobia e a misoginia internalizadas, que leva a atitudes de rivalidade entre nós. Apesar disso, eu estava determinada a encontrar meu espaço, então comecei a trabalhar com a APUVIMEH. Lá aprendi tudo o que sei e fui treinada como defensora dos direitos humanos. Comecei a fazer trabalho de campo enquanto estava treinando, fiquei empolgada e emocionada em conhecer a realidade das pessoas trans* em Honduras e também sabia que não era o único vivendo uma realidade diferente, que não estava sozinha. Nessa organização, Victoria começou a soltar a língua. Até então, eu havia sido muito tímida, sempre tive medo de falar, que as pessoas me descobrissem em espaços onde eu sabia que não era bem-vinda porque era diferente. E se acrescentarmos a isso o fato de que sou magra e alta, bem, dou muito na vista.

Conte-me sobre Victoria, a defensora dos direitos humanos.

Comecei a acompanhar as trabalhadoras sexuais. Ficava com elas a noite toda e levei muita surra, porque, quando a polícia vinha, a gente teve que correr por todo o centro de Tegucigalpa. A polícia exigia favores sexuais de muitas delas para exercer poder. Este foi o meu começo. À medida que fui avançando nessas ações, fui aprendendo também o que é ser uma pessoa transexual.

Como é ser uma pessoa transexual?

Ser transexual é quebrar todos os padrões sociais e estereótipos de gênero. Saber que você é o que você se considera ser, mesmo que as outras pessoas não a vejam assim. Quando me olho no espelho, vejo uma mulher, vejo Arely Victoria, mas sei que existem outras pessoas, heterossexuais, normativas, que não a veem como eu. No final, isso é o que alguém é, o que eu sou psicológica e socialmente, não o que outras pessoas podem ver ou não. E com a formação em direitos humanos, sem dúvida o que mais me ajudou foi me entender e defender que tenho o direito de viver uma vida digna; que tenho o direito de defender meu direito a um trabalho, uma educação de qualidade, saúde integral e moradia. Daí veio o poder político dessa pessoa que é Victória, porque não vou me negar a oportunidade de ter e viver em liberdade.

Nessa fase de assumir-se e fortalecer Victoria é que você inicia seu processo hormonal, certo? Como você viveu esse período?

Em Honduras não temos endocrinologistas nem ninguém para te aconselhar, fazemos tudo em apoio mútuo com as outras meninas trans. Se um tipo de estrógeno dos injetáveis ​​funcionasse para uma colega, era para este que íamos. Existe todo um circuito de informações informais sobre hormônios. Que alguns te dão mais quadril, outros te dão mais seios. Comecei a injetar muito no modo de tentativa e erro. Eu me senti diferente, menos masculina. A pressão social para “ser espetacular” pesava muito sobre mim. No momento, uso inibidores há três anos em um processo de “castração química”, matando a testosterona para supostamente substituí-la pela progesterona. Isso significa uma série de renúncias e modificações na minha própria sexualidade. Aceitei para ter meus direitos trans, para ter acesso às cirurgias, mas entendo que tem muita gente que não quer. O tema das cirurgias é muito complexo a nível pessoal, cada uma de nós tem uma relação particular com seu corpo e muitas vezes passamos por um forte questionamento interno sobre o que queremos. Eu pessoalmente decidi fazer uma transição suave, começando com a cirurgia de mama e continuando com a vaginoplastia, que é um grande passo.

Quando e por que decidiu vir para a Espanha?

Aos poucos, fui me envolvendo na luta política. Para mim, é importante que as pessoas transexuais possam escolher e ser eleitas. Acho que é um espaço em que podemos influenciar para a obtenção de direitos, porque no mundo a população trans* é a menos valorizada e menos levada em conta em termos de direitos. Eu queria promover uma organização trans* independente, onde a liderança não fosse assumida por homens gays. Onde também pudéssemos falar sobre questões como a migração, porque muitas mulheres trans em Honduras são forçadas a migrar para praticar o trabalho sexual em países onde consideram que podem encontrar uma vida melhor e também devido à discriminação e transfobia. Esse envolvimento político colocou minha vida em risco, e, após um espancamento brutal, a organização onde eu trabalhava contatou a CEAR (Comisión Española de Ayuda al Refugiado) e decidi deixar Honduras.

Você chega em Madri e encontra mais do mesmo, certo?

Na América Central temos o mito de que a Espanha é mais inclusiva, que na questão dos direitos da população trans* está mais avançada porque é o “primeiro mundo”… “O país das maravilhas”, eu falo. Quando entramos em contato com a CEAR, fizemos o pedido de asilo político. Em três meses deram-me o cartão vermelho e demoraram três anos para conceder-me asilo. Com o tempo, fui percebendo que as coisas não eram como se pintava e, depois de seis meses em Madri, fui surrada, a primeira vez, em Vallecas, quando fui a uma discoteca latina. O segurança, um homem branco, espanhol, me bateu com o argumento de que aquele não era um lugar para mim, que eu tinha que ir para Chueca, onde vão as bichas. Quando acordei no hospital, sua bota estava marcada no meu rosto e eu não conseguia me mover por causa de tanta dor. Parece que estou destinada a levar uma surra.

Nestes anos que está em Madri, como e com quem você formou uma rede afetiva e de cuidados?

As mulheres sempre estiveram do meu lado, desde pequena sempre tive companheiras que me defendiam de assédios ou espancamentos. Sempre me senti identificada e apoiada por outras feministas. As mulheres trans sempre fizeram parte do movimento feminista, como mulheres que somos. Quando me espancaram em Vallecas, foram as companheiras feministas, espanholas e latino-americanas, que me acompanharam e estiveram o tempo todo me apoiando.

Para encerrar, como migrante, que impacto isso tem sobre você ou quais direitos você obtém com a proposta de lei trans?

Acho muito importante que a lei tenha uma perspectiva antirracista e que possa responder aos problemas da população trans* migrante. No projeto é verdade que há um componente que, de certa forma, nos beneficia: as migrantes com residência em Espanha poderíamos mudar o nosso nome e sexo nos documentos oficiais sem a necessidade de dois anos de hormonização e de um diagnóstico, patologizante, psiquiátrico. Muitas de nós viemos de países onde não existe uma lei de identidade de gênero, então todos os procedimentos de imigração são feitos com nosso nome masculino. Isso significa que, agora, na Espanha, não sou legalmente Victoria. A lei trans seria um alívio para tanta discriminação e talvez nos ajude a superar a precariedade em que vivem muitas mulheres trans migrantes. Tenho claro para mim que rompo com o esquema da mulher trans que morre aos 35 anos. Cheguei na Espanha com 33 anos e agora estou com 37. Já superei, sobrevivi e tenho um longo caminho a percorrer, muitas lutas pela frente, muitas pessoas para conhecer e a motivação de que algum dia as coisas vão mudar é o que me mantém viva e com energia para continuar lutando.

Entrevista a Tatiana Romero publicada em Pikara online magazine em 28 de abril de 2021. Disponível em: https://www.pikaramagazine.com/2021/04/motivos-para-seguir-luchando/.

Tradução: Luiz Morando.

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