A fala sem bordas de Messias Botnaro: o terror fascista à procura de um enunciador

Não, não era fácil

ser poeta naqueles dias.

Porque os poetas, sobretudo —

desapareciam.

Affonso Romano de Sant’Anna[i]


Escrevo este texto como uma espécie de resenha. Não exatamente de uma obra, mas de uma inscrição literária. Resenha da inscrição literária botnarista. Por isso, é uma resenha de uma resenha. Antes de traçar algumas linhas sobre “quem”, ou melhor, o “que” é Messias Botnaro, acredito que seja interessante problematizarmos a própria noção de resenha. Uma busca simples no Google informa-nos que resenha é uma descrição feita com detalhes. Resenhar seria, então, descrever os pormenores de algo. Resenha também seria sinônimo de contagem, narração, enumeração, levantamento, exposição, notícia. Por fim, como gênero textual, a resenha é um texto escrito, normalmente de natureza acadêmica, sucinto, que objetiva fazer uma crítica a determinado assunto, autor, obra, tema etc. Confesso que nem sabia o quão polissêmico é esse significante.

É Messias Botnaro que me faz compreender outra dimensão significante de resenha. Quando li, pela primeira vez, um dos seus textos – posteriormente passei a chamá-los dis-textualizações[i] (em mais uma das minhas presepadas academicistas) –, pensei, quase que imediatamente: “que resenha!”; e ri.

Resenhar, em seu uso popular, em algumas regiões do Brasil, pode significar brincar, tirar sarro, fazer gozação, debochar, bagunçar, provocar vexame. Disse acima que este texto se configura como uma resenha de uma resenha: é uma resenha, enquanto gênero textual, de uma inscrição literária que se convoca em um gesto de resenhar, que é também um gesto de interpretação (o literário, em sua enunciação, interpreta, podendo fazer algo surgir: o acaso pode se fazer presença na enunciação literária). A inscrição botnarista como resenha do sócio-histórico. Resenha que brinca com o fazer literário, tirando sarro da instituição canônica. Resenha que faz gozação com o terror, debochando das máquinas do poder. Resenha que bagunça, circunstancialmente, as fronteiras entre realidade e ficção, provocando um riso deslocado, capaz, talvez, de mostrar que há um abuso de obediência: o terror cis-hétero-bolsonarista foi aceito e querido.

O “que” é Messias Botnaro? É uma radical inscrição literária. É uma autoria anônima, assim como todas as outras também o são. Contudo, por não performar ilusoriamente uma existência real na figura do “escritor”, faz-se do anonimato a única possibilidade da escritura. O anonimato radical de Messias Botnaro provoca, quase que obrigatoriamente, efeito da memória do social, uma remissão não-autorizada a um nome civil específico: Jair Messias Bolsonaro. E é essa remissão que garante seu anonimato radical, acredito.

Contudo, precisamos radicalizar a noção de anonimato, pois, ao afirmar que Botnaro é anônimo, acaba-se dando força exatamente àquilo que estou assinalando como um dos seus efeitos de ruptura: o constrangimento realista biográfico. Anônimo remeteria, por força da história, a uma existência sem nome, a um escritor que se dissimulou ou que é dissimulado pelo apagamento do seu nome. Dessa forma, ao falar que Botnaro é uma autoria anônima também se coloca em circulação – e, por isso, dá-lhe força – a pressuposição de que haveria necessariamente um sujeito empírico que se esconderia por trás dessa enunciação. Só haveria, assim, anonimato, porque haveria representação biográfica. Logo, reforça-se, em alguma medida, a correspondência que pensamos fraturada. A instituição literária cria meios de capturar as enunciações sem rostos, de modo a rearticular o biografismo: o anonimato nega o rosto, pois, em verdade, nada mais haveria que um rosto. Há uma impossibilidade a-biográfica. O rosto é impedido de desaparecer na areia. O corpo em decomposição do autor é levado a reboque. Ler é ser obrigado a sentir os odores exalados pelo corpo morto do autor. Ler é ser obrigado a ver os vermes devorando eternamente o corpo impedido de sepulcro.

Como falava, Botnaro pode ser radicalmente anônimo, pois alude a Bolsonaro. São parônimos. Botnaro é uma existência metafórica que metonimiza, por sua inexistência, o funcionamento do cis-hétero-bolsonarismo.[ii] Bolso (Bozo) à Bot. Tal derivação, contingente talvez, desencadeia uma intrigante relação: Bot = aplicações autônomas que rodam, na internet, tarefas pré-determinadas. Bot = robôs responsáveis por desempenhar tarefas na internet… O social obriga a lembrança: como não lembrar dos robôs de Bolsonaro? Do disparo massivo ilegal de fake news por redes sociais, do gabinete do ódio… Aqui também poderíamos evocar o aspecto pré-determinado do bot. O bot está a serviço de, cumpre uma função, uma tarefa… Pode ser superinterpretação minha, mas penso nos grupos de apoio que sustentam o governo botnarista: Bolsonaro como bot da grande burguesia, do capital internacional que garante sua pretensa eternidade com a gestão do fascismo.[iii] Bolsonaro como Botnaro.

Em seu anonimato radical – radicalidade que esbarra no funcionamento da impossibilidade do a-biográfico – garantido pela paronímia, Botnaro é convocado a ser o legítimo Bolsonaro, que se tornou escritor após morrer. Não resistiu ao coronavírus. Saiu da história para entrar na literatura: mais um autor-defunto, ou melhor, um defunto-autor:

Servir à Pátria como escritor – esse momento não tem preço. E isso só está sendo possível porque morri […]. É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como escritor. E me coloco diante de toda a nação, neste livro, para o povo se libertar do socialismo, da inversão de valores e do politicamente correto.

Com seus escritos – uma coletânea de enunciados recortados, copiados, remixados, montados, fabricados, colados, plagiados e tornados anônimos –, a inscrição botnarista faz ver[iv] que não há nada além do murmúrio anônimo, faz enunciar que a correspondência plena de uma autoria com determinado sujeito empírico é um efeito ilusório sustentado pela instituição literária. Ao montar seus escritos literários por recortes de outros textos, recusando o uso das aspas, da marcação ilusória do discurso outro, o espaço literário botnarista performa, por meio dessa escrita-expropriação/apropriação, a dissimulação do discurso-fundador, ou seja, sua inscrição, no literário, fraturaria a ilusão de uma origem do dizer. Quando Botnaro plagia discursos outros e apaga seus enunciadores, produzindo um mosaico de recortes textuais e iconográficos, é possível ler um efeito de desautorização da pretensa propriedade autoral em torno de um nome civil: autor = escritor = sujeito empírico que escreve.

Em mais uma tentativa de exibir minha “bunda intelectual ante um vasto público”, como disse Botnaro,[v] farei uma breve interpretação sobre o funcionamento da recusa das aspas (citação, referenciação) no espaço botnarista tendo por base as reflexões de Authier-Revuz[vi]. Inicialmente, devemos considerar que o uso das aspas corresponde a muitos funcionamentos linguísticos e discursivos. De forma geral, as aspas assinalam um distanciamento imaginário do autor com o discurso que representa outro e a reafirmação do discurso um. Configura-se, assim, um sinal de distância, uma suspensão da responsabilidade: “não sou eu que digo isso, ele quem disse”. As aspas indiciam uma fala sob vigilância, em controle, pois mostram que o dizer trazido à tona estaria parcialmente deslocado, não estaria em seu devido lugar. Logo, as aspas marcam uma inadequação da palavra, pois representam e reduplicam o dito como já-dito.

O que quero com toda essa verborragia academicista, já que, como falei, Botnaro não faz o uso de uma “fala invadida pelas bordas”, ou seja, de uma fala aspeada, mas, ao contrário, é uma “fala sem bordas[vii], radicalmente sem aspas? Primeiro, devemos considerar que uma fala que recusa as aspas – que se apropria da fala, supostamente, de um outro e faz ela se passar como sua (expropriação/reapropriação) – acaba por chamar para si a responsabilidade pelo dito, produzindo-se como origem performática daquele dizer. Essa recusa desmantelaria o distanciamento com o que se diz, convocando-se em sinal de aproximação: “eu digo, não eles”.

Contudo, lembremos, Botnaro é um agenciamento anônimo de enunciação. Ele não existe para além disso, não há representação, não há correspondência, não há escritor, não há sujeito empírico. Apenas há autoria, murmúrio anônimo. Ao chamar a responsabilidade do dizer para si, a inscrição botnarista, por sua inexistência anônima, possibilita a coletivização dos dizeres dos quais havia se reapropriado. Quando os enunciadores específicos do que fora dito são apagados, assombra-se o social com dizeres à procura de enunciadores. Força uma aproximação do leitor com aquilo que se diz.

Os dizeres do terror, os dizeres do medo – que tem como um dos seus efeitos provocar identificações, provocar fascínio, produzir sujeitos bolsonaristas – são, assim, apropriados por uma existência sem rosto, uma existência inexistente. Esse movimento acaba por atribuir a propriedade do que se diz (do que foi dito) ao social, ao qualquer um. Tal inscrição obriga uma mobilização da memória coletiva para que o leitor se dê conta de que aqueles dizeres possuem autoria social. É essa obrigação imposta pela memória do social que faz ver que os escritos botnaristas são uma bricolagem de enunciados outros, de enunciados emergidos das entranhas imundas e apodrecidas do cis-hétero-bolsonarismo.

A recusa performática das aspas impede a suspensão da responsabilidade pelo dito, ao mesmo tempo em que mostra que a palavra enunciada está em seu devido lugar, queiramos ou não. Com isso, necessariamente, não se impossibilita a responsabilização dos enunciadores específicos. Pelo contrário, é pela coletivização dos enunciados de terror que a memória pode obrigar tal responsabilização. Contudo, também obriga o leitor a problematizar a responsabilidade da coletividade.

O supostamente outro discurso atravessa a superfície corpórea botnarista, transmutando-se, nessa passagem, em discurso de qualquer um. A inscrição botnarista força o leitor a perceber o desdobramento da memória, a tentativa da coletividade em silenciar, em fazer esquecer as condições de aceitabilidade do discurso grotesco, do discurso da estupidez. Ao reduplicar que aquilo que se diz não passa do redito, o espaço botnarista faz ver que houve condições propícias para a circulação do terror. Se os enunciados do terror puderam ser ditos, é porque são reais, houve condições de sua enunciação – como faz ver que há condições para sua livre circulação. Devemos lidar com isto: o fascismo-hétero-bolsonarista é objeto de desejo, não de todos, mas de muitos. Há autoria coletiva e social desses enunciados de terror. É isso que faz ver e faz enunciar a inscrição botnarista.

A fala sem dono é uma fala que assombra, pois pode acusar o leitor de ser um de seus possíveis enunciadores, acusa-o de integrar seu auditório passivo. É uma fala de qualquer um. A fala sem bordas é o lugar da autoria social, é o lugar da lembrança da temível familiaridade negada: familiaridade com o terror, familiaridade que potencializou a aceitação do que seria, para alguns, inaceitável. Aceitação daquilo que, devido ao imaginário da civilidade humanista, julgava-se “inegavelmente” inaceitável. Esquece-se que o “inaceitável” é também produzido social e discursivamente. O supostamente inaceitável parece conviver bem com o imperativo racional burguês de civilidade. Para além disso, parece que a gestão do “inaceitável” é um mecanismo de produção da sustentabilidade da democracia capitalística.

Quando Botnaro representa o discurso de outros como seu discurso, é possível ver que o social também assina, que o social se faz autoria por enunciações quaisquer. Para fazer ver isso, a inscrição botnarista precisa apagar os enunciadores em sua corporalidade textual anônima:

Escrevo porque o Brasil tem que deixar de ser um país de maricas. Temos que enfrentar os desafios de peito aberto, lutar. Encaro a escrita como ato político diferente. Ato político não é só sair por aí com bandeiras ou metralhadoras. Escrevo para possibilitar uma reorientação positiva e construtiva dos brasileiros patriotas ante as ameaças do comunismo, do gayzismo, do globalismo e do satanismo.[viii]

No recorte, ao expropriar Jair Bolsonaro de “sua” conhecida enunciação: “Brasil tem que deixar de ser um país de maricas”[ix], apropriando-se dela, a inscrição botnarista permite a desestruturação da suposta correspondência com o nome civil Jair Bolsonaro. A inscrição de Messias Botnaro, na fronteira surrealista, conclamaria, então, o desaparecimento performático de Bolsonaro. Sua inexistência existente se faria por essa diferenciação em relação ao nome Jair Bolsonaro. Botnaro seria, assim, uma personagem cuja inexistência precisa fraturar a separação entre ficção e realidade, mostrando que há, para além dessas fronteiras, o espaço da surrealidade. Botnaro existiria e não existiria ao mesmo tempo. A inscrição botnarista faz ver que é Bolsonaro quem não existe, que só há Botnaro, essa performática atuação sem rosto cuja inexistência mostra que a aceitação do terror já é uma realidade: “precisamos deixar de ser um país de maricas” = precisamos eliminá-los. Ao expropriar Bolsonaro de suas inscrições, de seu nome, apropriando-se delas, a inscrição botnarista lança luzes no funcionamento semântico-fascista, produzindo alusões impróprias. Uma dessas alusões é produzida pelo uso do sintagma “Minha Luta” que aparece no título de três livros de Botnaro: Minha luta: obra reunida[x], Minha luta contra a ditadura gay e ideologia de gênero (inédito) e Tratamento precoce: minha luta contra o comunavírus (inédito). A alusão aqui é ao livro de Adolf Hitler, Mein Kampf, em português: minha luta.

Assim, penso nessa inscrição literária como uma quase-literatura, conceito que deriva da proposição de inspiração derridiana de quase-romance, de Iago Moura Melo e Inara Rodrigues.[xi] Por quase-literatura, compreendo a escritura que elide o regime dito literário. Compreendo o gesto botnarista como uma inadequação do conceito de literatura, um gesto indecidível que habitaria o literário, opondo-lhe resistência, fraturando-o, causando-lhe ranhuras: um gesto de quase-literatura, um gesto paratópico. Seria uma implosão, ainda que circunstanciada, das máquinas dominantes do literário, do dispositivo de legibilidade que constrói as condições hegemônicas que estabelecem o que deve e o que não deve ser lido como literatura em dada formação histórica. Botnaro se convoca, então, a ocupar uma posição de luddita.[xii] Essa quase-literatura faz ver um movimento sem rosto, sem participantes, sem integrantes, um movimento anônimo, um movimento inexpresso: o neo-luddismo dadaísta literário (lá vem rsrsrs), afinal suas dis-textualizações seguem a receita de Tristan Tzara. Aquilo que é dito, em verdade, é redito.

Nisso, penso que a inscritura botnarista pode facilitar o estranhamento das evidências, uma vez que o leitor poderia ser chamado a se afastar do impulso realista; como também pode conclamá-lo a rejeitar o paradigma representacional, possibilitando, com isso, o tensionamento do imperativo realista (literatura como reflexo) que tanto constrange o fazer interpretativo nos estudos literários e/ou culturais. Sua inscritura carregaria uma potência, um de seus efeitos de leitura, penso eu, de provocar um radical desconforto, capaz de fazer estranhar o que, infelizmente, já seria familiar para muitos: a aceitação do grotesco, a aceitação do cis-hétero-bolsonarismo.

Ao resenhar o terror cis-hétero-bolsonarista, a inscritura botnarista faz ver as condições de aceitabilidade do fascismo contemporâneo, de modo que o leitor pode ser levado, caso esteja disposto, a descortinar o gozo social na censura, no terror. Movimento que poderia provocar o efeito cômico. Ao fazer rir diante do terror, a satirização botnarista pode fazer estranhar, como efeito de leitura, a perversa lógica do risível, pondo em questão o riso como fabricação de identificações grotescas: o supostamente absurdo do bolsonarismo mobiliza afetos, ao fazer rir do outro, ao ridicularizar a diferença, produz-se laços sociais (afetivos) – o terror como fascínio, o terror como elemento do sentimento de pertença. Ao produzir o riso do riso (faz rir do riso do terror), o estranhamento provocado pela inscrição botnarista poderia pôr em jogo um riso contra o poder, um riso debochado que provoca o reconhecimento das condições materiais de assujeitamento, um riso desconfortável capaz de fazer ver certas identificações, um riso que faz ver a nudez do soberano, mostrando, com isso, que a realidade não passaria de territórios de ficções engessados a serviço dos interesses do capital.

Por que insisto no riso a ser provocado pela literatura botnarista? Claro que esse riso é um efeito de leitura, mas acredito que não seja meramente individual. A escrita botnarista desloca o domínio de enunciabilidade daquilo que está sendo dito. Ao lançar as enunciações bolsonaristas no regime do literário, do satírico, do surreal, da paranoia, a inscrição botnarista acaba produzindo um riso, pois mostra a crueza fascista daqueles dizeres, como também pode evidenciar identificações negadas: “Botnaro é uma quimera do bolsonarismo. Sua estética do grotesco intervém na realidade política atual, extrapolando seus limites, entra no domínio do fantástico e provoca efeito cômico.”[xiii]

Ao ficcionalizar o terror, ao surrealizar o cis-hétero-bolsonarismo, a literatura botnarista faz ver que o lugar do fascismo não é no literário, faz ver que tal terror só poderia ser real, faz enunciar que o fascínio fascista não é uma mera ficção, mas uma amarga realidade. O fascínio fascista não é produto do fantástico, não é efeito de uma realidade imaginária, construída. Ele é real. Duramente, real. Há algo de cômico nisso. Ao obrigar o leitor a enunciar isso, a inscrição botnarista produz riso. Ainda que o leitor não esteja disposto a rir, ela faz o leitor imaginar-se rindo diante daquela cômica absurdidade.

Quando lia Tuítes póstumos de um herói nacional, inicialmente pensei: “é isso, o lugar do bolsonarismo deveria ser a ficção”. Afinal, seus enunciados conspiratórios são, para mim, tão grotescos e ridículos, que não conseguia imaginar como poderiam provocar identificações, como poderiam ser verdade para alguém. Logo me peguei em mais uma das minhas evidências. Pelo contrário, o espaço botnarista me fazia ver que o lugar do fascínio bolsonarista é a realidade. Fazia-me enunciar que o cis-hétero-bolsonarismo faz sentido e é objeto de desejo de muitos, não no literário, não no fantástico, mas nisso que chamamos de realidade.

Botnaro é um alquimista do verbo. A partir da matéria-prima mais grosseira do terror cis-hétero-bolsonarista, a inscrição botnarista re-escreve o perverso funcionamento linguístico do fascismo. Não é mero plágio, mas sim um complexo trabalho de re-criação. Consegue-se, com essas bricolagens enunciativas, desenhar a lógica do bolsonarismo, fazendo ver suas vísceras, sua crueza mortífera. Leio a literatura de Botnaro como um refinado trabalho de análise e descrição do fascismo contemporâneo. Esse trabalho singular foi apenas possível no regime do literário, pois só o poeta poderia se lançar no real anonimato, ainda que por um instante. Só o poeta poderia desaparecer numa fala sem bordas, só o poeta poderia fazer de seu gesto uma lembrança das nossas recusadas e negadas identificações. Apenas o poeta poderia assombrar com a possibilidade de seu leitor ser um dos enunciadores do terror agora atualizado nas superfícies de suas palavras. Apenas o poeta poderia adentrar nas malhas do discurso. Só o poeta poderia escutar o inaudível da linguagem. Só o poeta poderia escolher nada dizer.

Ao reunir um aglomerado de enunciados das extremas-direitas, a quase-literatura botnarista produz um arquivo do terror. Um arquivo do fascismo contemporâneo. Tal montagem tem um funcionamento próprio, não é apenas um recorte aleatório de dizeres fascistas, não é um aglomerado de notícias, manchetes e falas quaisquer. Seu domínio enunciativo é outro, seus enunciadores foram apagados – Botnaro se assenhorou dessas falas. É um arquivo que faz ver que a realidade do cis-hétero-bolsonarismo é uma paranoica narrativa aceita e querida por muitos. É um arquivo do absurdo, do terror, do grotesco, da paranoia, da conspiração. E também é um arquivo que mostra as condições de aceitação dessa narrativa. É um arquivo que se apresenta como memória do jogo pela captura dos corpos. É um bioarquivo, mas também um necroarquivo. Das letras botnaristas, é o corpo social que emerge, é o corpo que é posto em jogo.

Por meio de sua escrita-expropriação/apropriação ou de seu neo-luddismo dadaísta literário, Botnaro me deixou reflexivo em relação a minha prática de escrita e todos os artifícios que ilusionam uma suposta correspondência entre Rick Afonso-Rocha e o nome civil Ricardo Afonso Rocha. Rick não existe e Ricardo não escreve. Meus textos? Quem escreve? Meus? Rick ou Ricardo? Ou nenhum? Ricardo existe, há documentação. O Estado comprova isso. Mas o que comprova a existência e legitimidade do Estado para que ele comprove isso? Ricardo só existe na exata dimensão em que o Estado, uma ficção jurídica, garante e testemunha acerca de sua existência. Rick e Ricardo não existem… Quem escreveu? Escreve-se. Todo texto é um emaranhado de discursos outros, uma bricolagem de dizeres. Tudo é plágio. Só há escrita copista, só há escrita-reciclagem. Por isso, já não tenho que me sentir mal de (auto) expropriar-me dos textos assinados por Rick ou por Ricardo ou de desapropriá-los (eu sou outro, ao passo que também sou eles), mas também apropriá-los (apropriar-me). Sinto-me em paz em reciclar inúmeros parágrafos de outros textos assinados por eles (nós) para montar textos “novos”. Confesso que alguns desses parágrafos aqui apresentados foram reciclados do projeto de tese de Ricardo, de Rick, do nosso projeto de tese.

Rick Afonso-Rocha


[i] Versos do poema “Os desaparecidos”. Cf. SANT’ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

[i] O prefixo “dis”, de origem grega, parece expressar o sentido de dificuldade. Já em sua origem latina, expressaria a ideia de separação, de direção para diversas partes. Dis-textualizações seriam uma inscrituração marcada pelo afastamento contingente da instituição literária em dominância. As dis-textualizações inscrevem-se em direções outras, por meio de espaços outros. Nisso, significam uma dificuldade para as máquinas do fazer literário, que passariam, então, a negar sua suposta literariedade.

[ii] AFONSO-ROCHA, Rick. O perigo cor-de-rosa: ensaios sobre deimopolítica. Salvador: Devires, 2021. (No prelo)

[iii] Partindo da proposta de Viviane Vergueiro Simakawa (2015) em relação ao conceito cistema-mundo, para destacar a dimensão cisgênera e heterossexista imanente e estrutural ao fascismo, grafo-o como fascismo, dando ênfase no imperativo cisgênero dessa formação ideológica fundante da ordem capitalística pelo uso do itálico. Tal movimento de reescritura poderia ainda ser assim grafado: fasCISmo. Essa ressignificação do fascismo como fascismo visa a demarcar as políticas sexuais e de gênero (aqui poderia se falar em ideologia de gênero fascista-deimocrática) que lhes são inerentes. Parece-me impossível dizer fascista ou fascismo sem enunciar a ordem cisgênera. Cf. SIMAKAWA, Viviane Vergueiro. Por inflexões decoloniais de corpos e identidades de gênero inconformes: uma análise autoetnográfica da cisgeneridade como normatividade. 2015. 244 f. Dissertação (Mestrado em Cultura e Sociedade) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2015.

[iv] Segundo Deleuze (2005), uma inscrição literária pode fazer ver e fazer enunciar algo, uma inscrição literária entremeia ver e falar, de modo a permitir que se diga uma verdade contingente em uma dada época, que se lance luz em uma parte da realidade não visível macroscopicamente em determinada formação histórica. Cf. DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 2005.

[v] “Ô Rick, para que exibir a sua bunda intelectual ante um vasto público, quando pode mostrá-la discretamente em casa a papai e mamãe, que até a acham bonitinha? Você sabia que a Organização Mundial da Saúde tem uma lista de recomendações para crianças de 0 a 6 anos que inclui masturbação e relações entre pessoas do mesmo sexo?” Cf. BOTNARO, Messias. Escremorrências: diálogos insubmissos. [S.L.]: Gabinete do ódio edições, 2021. p. 140.

[vi] AUTHIER-REVUZ, Jacqueline. Palavras mantidas a distância. In: ___. Entre a transparência e a opacidade: um estudo enunciativo do sentido. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.

[vii] As expressões e termos em itálico nesses dois parágrafos sobre aspas são de AUTHIER-REVUZ. Op. cit., 2004.

[viii] BOTNARO. Escremorrências: diálogos insubmissos. Op. cit., 2021, p. 22-23.

[ix] REDAÇÃO Uol Notícias. “País de maricas”: Bolsonaro mistura homofobia e indecência, diz imprensa internacional. Uol notícias, 11 de novembro de 2020. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2020/11/11/com-pais-de-maricas-bolsonaro-mistura-homofobia-e-indecencia-diz-imprensa-internacional.htm&gt;. Acesso em: 18 nov. 2020.

[x] BOTNARO, Messias. Minha luta: obra reunida. Vitória: Cousa, 2020.

[xi] MELO, Iago Moura; RODRIGUES, Inara. Resistência e utopia: cartografias da diáspora em Finhani, de Emílio Lima. Contexto-Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras, n. 35, 2019, p. 150-164.

[xii] Faço referência ao movimento operário inglês do século XIX chamado de luddismo, marcado pela destruição das máquinas de trabalho como tática de resistência ao capitalismo. A contra-assinatura botnarista parece atuar pela implosão das máquinas dominantes do literário.

[xiii] Citação do paratexto de Vitor Cei publicado em obra de Botnaro, na quarta capa, sem paginação. Cf. BOTNARO. Minha luta: obra reunida. Op. cit., 2020.

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