Cis e trans: antípodas?

Eu falo sobre o quão o cistema é opressor, sobre o Brasil ser o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, e a única coisa que alguns cis conseguem fazer é espernear e dizer: “nem todo cis” ou “mas chamar de cistema é dizer que todas as pessoas cis são ruins”.

Não é disto que se trata. Ao usar o termo “cistema”, eu me refiro a um sistema social que de fato privilegia (coloca em primeiro plano) pessoas cis em detrimento de pessoas trans. Como vivemos num mundo concreto e não numa mera cópia dum mundo ideal, a realidade concreta é bem mais imunda, sórdida, corrompida do que possa parecer. A oposição entre cisgênero (um corpo que mantém o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento) e transgênero (um corpo que se utiliza de determinadas tecnologias para modificar essa atribuição) é política, não natural (embora possamos dizer que o “natural” é, de certa forma, político; mas isto é discussão para outro momento). Ambos são ficções somatopolíticas. A diferença entre eles depende da resistência à norma, como bem pontua Preciado, não de um valor implícito, segundo o qual “cis seria a verdade da natureza”. Tampouco trans é uma suposta “verdade da natureza”.

Se uma pessoa supostamente cis ou identificada como cis realiza determinadas práticas que não condizem com o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento (como é o caso de homens cis heterossexuais que gostam de dar o cu ou mulheres cis heterossexuais que gostam de comer cu, ou homens cis-hetero mais afeminados e mulheres cis-hetero mais machudas, para citar alguns exemplos), ela pode continuar sendo chamada de cis? É uma pergunta que devemos fazer. Essa pessoa provavelmente vai sofrer algum tipo de violência. Lembrando: toda violência é material, física. Não há violência direcionada a alguém que não afete seu corpo. Violência psicológica é física, afeta somaticamente a pessoa. A mente só pode existir graças a um aglomerado de neurônios, sendo, portanto, parte do corpo, não sua contraparte ou oposição, como gostariam alguns idealistas.

Bom, mas o caso é que determinados grupos sociais são violentados por conta de suas identidades. Sendo o Brasil o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, nada mais justo do que pontuar isto, não para dizer que pessoas cis só nos querem mortas, mas sim para dizer: “estão exterminando a gente, caralho!”. Sacou? Não se trata de algo monolítico e imutável, como bem ressalta Bibi Bakare-Yusuf a respeito do patriarcado, mas de algo em constante processo de mutação. Os cis também são afetados de alguma forma por esse cistema. Se um homem cis se envolve com uma mulher trans, ele se torna motivo de chacota. A chacota tem seus efeitos punitivos. Ela constrange socialmente, ela sussurra ao pé do ouvido daquele que foge das legalidades sexuais do cistema: “se é isto o que você quer, prepare-se para lidar com as consequências”. Daí, a imensa maioria dos homens cis procurar mulheres trans às escondidas. O agir do guerrilheiro é sempre noturno, dizia Che Guevara. Nesta guerra civil, tornar-se visível é tornar-se alvo.

Mas nem tudo são flores para o lado dos oprimidos. Há também entre nós quem colabora com o cistema, que se alinha com políticas conservadoras, algumas até mesmo humilhando outras mulheres trans no início da transição ou que, por motivos de classe (um fator importante que costumamos esquecer quando analisamos gênero e sexualidade), não podem realizar determinadas cirurgias ou determinadas mudanças físicas, como depilação ou hormonoterapia. Há também aquelas que humilham os homens cis que procuram mulheres trans para comerem seus cus ou mamar. Claro, não estou falando dos viciosos que se juntam pra dar calote em trans, ok? Esses daí têm mais é que constarem na lista da surra.

Com isto eu quero dizer que assinalar que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo não quer dizer que exista uma posição binária com cis de um lado, como exclusivamente vitimizadores, e trans do outro, como exclusivamente vítimas. Há cis que são nossos cúmplices nessa guerra civil, dando o braço (embora não só) para nos ajudar a lutar contra o extermínio e demais mazelas provenientes do sistema patriarco-colonial capitalista. Não somos santinhas, mas também não somos as trapaceiras que o cistema diz que somos. Lutamos para viver como somos.

Inaê Diana Ashokasundari Shravya

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