Jéssica Caitano: arte e resistência na poesia pajeuzeira

“Eu sou a voz empoderada das viada e a sapatão / sou do sertão! / representando aqui as manas.” (Jéssica Caitano)

A interseccionalidade, conceito surgido no feminismo no final da década de 1960, é, para Kimberlé Crenshaw, “uma conceituação do problema que busca capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que

estruturam as posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras”[i]. E é contra esse amontoado de opressões que os movimentos sociais, sobretudo feministas negros, lutam há muito tempo. Essa luta pode se dar de diversas formas: em manifestações nas ruas, nas salas de aula, nas comunidades, nas redes sociais, na literatura, no jornalismo… na arte. É nesta e nos movimentos culturais e sociais do oásis pernambucano, Triunfo (Sertão do Alto Pajeú), que vamos encontrar Jéssica Caitano: mulher, preta-indígena (ou “cabocla”, como diz), lésbica, gorda e periférica. É um dos nomes mais promissores no cenário do rap nacional atualmente.

Cantora, compositora, rapper, coquista, educadora, poeta que escreve desde a infância e que não se vê no quadro de nenhum enquadre. Participa de coletivos que impulsionam a produção cultural da região, do grupo que mantém a tradição das chamadas “Cambindas de Triunfo”, de grupos musicais como “A Cristaleira” e “Radiola Serra Alta”, que trazem na sua composição visual e musical algumas tradições da cidade. Já participou de diversos festivais no país e até já foi para a Inglaterra (Glastonbury Festival – 2016). Fez residência artística no Red Bull Music Pulso em 2018 como convidada e voltou em 2019 como curadora. No mesmo ano, foi indicada ao WME Awards na categoria “Escuta as mina” do Spotify.

Ao longo da sua história, Jéssica performou como quis: na sua poesia, numa região cuja produção é marcada por homens, heteros, brancos; nos temas das composições, levando discussões sobre o feminismo, racismo, gordofobia, machismo e LGBTfobia para as pautas; no seu gênero, usando as roupas que queria, cortando o cabelo como queria e fazendo o que queria. Sobre essa performatividade de gênero, Judith Butler diz que é “atrelada às maneiras diferenciais em que sujeitos se tornam elegíveis ao reconhecimento. E o reconhecimento depende, fundamentalmente, da existência de meios, de uma forma de apresentação na qual o corpo pode aparecer. […] Para se ser um sujeito de fato, requer-se, primeiro, encontrar uma maneira própria de lidar com determinadas normas que regem o reconhecimento, normas que nunca escolhemos”.[ii]

Nesse movimento de disrupção, Jéssica Caitano chega como uma inspiração na vida de diversas mulheres e pessoas LGBTQIA+: “Chego chegando direto / já tiro os castelo e só deixo o alicerce de base / dobrando um barato com as mana, com as bixa, com as trava e as preta de toda cidade / lutando pela liberdade / cê diz que é clichê mas não sabe a luta que é / quando diz que é mulher / mas seu corpo não tá nos enquadre / cansada de encaixe, mudança faz parte / vou fechando um ciclo e abrindo mais tarde / a palavra me invade / soletro a verdade / vou sobrevivendo / escolhendo a arte”.

Laeiguea – De qual lugar você fala?

Jéssica Caitano – Falo do lugar de uma mulher gorda, sapatão, cabocla sertaneja e artista independente de periferia.

Com quem você quer falar?

Com todes os públicos que procurem dialogar e conhecer um pouco da realidade sertaneja a partir da minha perspectiva.

Com quais memórias e imaginários você dialoga dentro de suas composições?

As memórias são voltadas às minhas vivências na infância com minhas avós na zona rural. Na maioria das composições, são lembranças que me inspiram, mas também sobre vivências atuais, sobre os lugares que ocupamos, sobre nossos corpos ocupando os lugares que nos são negados, sobre a resistência da mulher sertaneja, sobre agricultura familiar e a semente crioula do Alto Sertão do Pajeú, sobre as belezas naturais e únicas do Sertão, tudo me inspira a compor.

Como sua arte se filia/dialoga com a tradição poética da região?

A poesia pajeuzeira tá presente na minha vida e na minha inspiração desde o momento em que a conheci e a entendi pela primeira vez. As poetas que vim a conhecer se tornaram minhas referências, sempre ocupando espaços onde a figura masculina era mais comum, sempre quebrando os padrões. Quando me entendi também nesse lugar, pude ver que a veia poética da região sempre esteve em mim e na minha poesia.

Em que ponto sua arte se afasta dessa mesma tradição?

Não acho que ela se afasta. Acho que vejo mais como uma soma com muitas outras linguagens através da junção que fazemos, por exemplo, com a música eletrônica, estética de música moderna com poesia popular, cantar coco numa base eletrônica, rap com repente, vejo sempre como uma soma e uma costura, é como uma colcha de retalhos ou algo assim, sabe?

Sua arte seria uma reinvenção no/do espaço discursivo onde você vive?

Minha maneira de pensar a arte tá em constante reinvenção sim! Sempre unindo a ancestralidade com os acontecimentos atuais, ou com as vivências de hoje, esse diálogo tá em praticamente tudo que escrevo.

De que modo essa noção de sujeita pertencente a um determinado lugar (geográfico/político/discursivo) toma corpo, forma e voz na sua arte?

É bem naturalmente que isso chega no meu discurso. Precisa tá ali, sabe! Seria vago pra mim se não trouxesse a reflexão do lugar de onde estamos, se não provocasse essa curiosidade de ir mais além desse lugar. É preciso se conectar com nosso discurso de forma didática, pra tá passando isso da mesma forma, de maneira consciente.

Ao longo do tempo, como seu corpo reivindicou o seu espaço de direito?

Desde sempre me entendi como pessoa LGBTQIA+, fui uma criança viada sim, e acho que tô militando desde então. Desde pequena eu uso as roupas que eu quero, pude brincar do que eu mais gostava, sem ser julgada pela minha família. Sempre ocupei os espaços que, na maioria das vezes, foram negados, joguei no time dos meninos da escola, nunca me importei com o que os outres pudessem pensar. Minha satisfação e felicidade estiveram e estão em primeiro lugar sempre. Então acredito que, ao longo do tempo, vou continuar nessa de ocupar todos esses outros espaços onde ainda não estive.

Você pode citar algum exemplo em que houve uma tentativa de subalternização do seu corpo a partir das referências que ele carrega?

Sim, já sofri isso em alguns espaços. Um deles foi numa loja de roupas, que é sempre um problema pra pessoas gordas, né? Lojas que pregam o padrão de beleza e estética feminina desde a entrada da loja com vários manequins supermagros e que você nunca vai achar aquela roupa na sua numeração. Eu cheguei pra ver uma roupa, e a funcionária da loja me mostrou várias peças, mas nenhuma me caía bem nem ficava confortável. Então agradeci a disponibilidade e fui me retirando quando ouvi a dona da loja dizer que “esse tipo de cliente só atrasa o lucro dela”. Esse tipo de cliente era eu, pessoa gorda favelada fora do padrão!

Por outro lado, você pode citar experiências em que houve valorização?

Sinto uma valorização desse corpo fora do padrão quando me convidam pra ocupar espaços antes não ocupados ou quando sou indicada em premiações pelo reconhecimento do meu corre. Quando fui indicada ao WME Awards, que é um prêmio de música dedicado a mulheres, por exemplo, entrei como primeira mulher sertaneja na categoria “Escuta as mina” do Spotify, me senti valorizada e muitas amigas e parceiras da música se sentiram representadas também nesse momento. Então foi importante viver isso!

Na letra de “Raga do Sertão” tem o seguinte trecho: “eu sou a voz empoderada das viada e a sapatão / sou do sertão! / representando aqui as manas / sou aquela da favela / na viela eu meto bronca / sou preta e não branca / sou travesti sou Frida Kahlo / sou poeta marginal, zona rural eu sou do alto / sou mulher de salto, de chinelinho e de bermuda / de vestido, calça legue, de “brusinha” e saia curta / sou negra de luta […]”. Você utiliza a primeira pessoa se referindo a diversos “eus”. Todos esses “eus” estão em Jéssica Caitano? Quem são esses “eus”? Ou seria nós? De quem se trata, afinal?

Esses “eus” me atravessam e são minhas referências, estão na minha força e na minha mente sempre que chego a um novo ambiente; são como guias, são as que mais gritam dentro de mim.

Você percebe um incômodo por parte da sociedade quanto ao modo como performa o seu gênero?

Infelizmente, ainda sinto, mas tenho muitas irmãs que sentem ainda mais. É por elas que a gente dá a cara a tapa também e se posiciona todos os dias!

O que você diz/diria a essas pessoas que se incomodam com sua performatividade?

Vive tua verdade que nós quer viver a nossa em paz!

Entrevista com Jéssica Caitano realizada por Laeiguea Bezerra, doutoranda em Linguística pela UFPE, educadora e produtora cultural, em julho de 2021.


[i] CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista de Estudos Feministas [online], v. 10, n. 1, p. 171-188, 2002.

[ii] BUTLER, Judith. Corpos que ainda importam. In: COLLING, Leandro (Org.). Dissidências sexuais e de gênero. Salvador: EDUFBA, 2016. p. 35-36.

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