Um Dia dos Pais

Eu tô adorando ver as pessoas que tenho aqui no meu perfil manifestando suas emoções no dia dos pais. Não pela data, mas sim porque, apesar de tanta manifestação de ódio, ainda há quem ouse partilhar suas emoções, seus carinhos, suas vulnerabilidades. Fico alegre em saber que há tantos pais que exercem cuidado, que amam verdadeiramente.

O meu, infelizmente, sempre foi distante. Não fisicamente, mas no que diz respeito às suas emoções. Sua vida foi marcada por muitas perdas e ele de alguma forma as abraçou como um cobertor no frio da sua falta de esperança. Vindo de outro Estado, não tinha muitos amigos por aqui. Um ou dois no máximo, dava pra contar nos dedos. Perdeu quase todos os irmãos, restando apenas um, do qual eu cuidava. Era muito próximo à sua mãe, a quem admirava profundamente. Filho mais novo, né? Quando ela faleceu de cirrose, a sua vida desmoronou. Queimou todas as fotos que tinha dela, mantendo apenas um quadro que ela havia pintado. Era pintora autodidata, amadora. A cirrose foi ocasionada por conta de algumas tintas bem baratas que ela comprava. Não sei até que ponto isto determinou algumas coisas – meus pais, ao me verem comprando livros quando comecei a trabalhar, me disseram prontamente: “pra quê você compra livros? Eles não vão te sustentar”. Quando fui expulsa de casa, eu só tinha os livros e a roupa do corpo.

Ele era depressivo. Começava alguma coisa e logo abandonava. Ele aprendeu a consertar aparelhos eletrônicos por conta própria. Mas a ambiência miserável decorrente da nossa condição de classe só piorava seu quadro depressivo. “Pobre não tem tempo pra ficar doente”, dizia minha mãe. Havia dias em que não tínhamos sequer um prato de arroz pra comer. Durante um tempo o meu pai, desempregado, conseguiu comida com um amigo do amigo dele, que trazia num saco de lixo preto – eram restos do restaurante onde esse homem trabalhava. Durante um tempo foi isto, nos alimentando do resto do prato de outras pessoas. A condição miserável não podia ser exposta, era necessário manter tudo por baixo dos panos. Se os vizinhos soubessem, que vergonha! Minha mãe não suportaria. Meu pai foi aos poucos deixando de ligar para a própria aparência, foi se distanciando cada vez mais. Não chegou a terminar o fundamental, tinha vergonha de ler na frente da gente lá de casa. Ele não era o típico machão. Ele era bem vulnerável e isto era bem claro. As vezes em que ele me bateu nunca passou do chinelo e mais parecia uma canalização das suas frustrações. Diferentemente da minha mãe, que me batia com a borracha do sofá e pelos motivos mais variados, algumas vezes por conta das merdas que meu irmão fazia. Ele me disse coisas gravíssimas, como “você deveria ter morrido no nascimento”, mas às vezes soava como um eco, como se alguém tivesse dito isto a ele. E talvez tenha dito, considerando que ele era mais uma boca na família já miserável dele quando nasceu no interior de São Paulo. Eu na real não acredito muito na noção de intencionalidade, então o ressentimento não me encontra.

Eu gostaria que o meu pai tivesse tido uma outra vida. O mesmo para a minha mãe. A minha mãe, diferentemente do meu pai, é religiosa, foi criada por testemunhas de jeová sendo católica, assiste Malafaias e R. R. Soares. Para o meu pai, a igreja era o espaço de arranjar emprego. Eu o vi chorar uma única vez, quando não conseguiu segurar o choro ao saber do falecimento do seu irmão. Eu tinha um dinheiro guardado e dei pra ele ir a outro Estado pro velório. Os comentários dele posteriormente sobre como era ver o irmão ali, dentro do caixão, portavam algo de emotivo, uma certa vontade de reverter tudo e aproveitar a vida ao lado dele. Teve um outro irmão seu com quem não falava há anos. Eu enviei uma carta escondida pra esse meu tio pedindo desculpas a ele pelo que meu pai havia dito. Eles voltaram a se falar, meu pai ficou supercontente, até hoje não sabe que enviei a carta. Um tempo depois esse tio faleceu. Eu já tinha sido expulsa de casa, então nem sei como se deram as coisas por lá.

Quando eu considero a minha participação tanto no movimento anarquista quanto no movimento feminista, eu objetivo mudanças radicais. O patriarcado e o capitalismo nos tornam seres deprimidos, nos desprovêm de vida, nos condicionam a nos assujeitarmos a coisas absurdas. O feminismo também é sobre emancipação masculina. Conheci outros homens que, por conta da depressão e da maneira como se costuma olhar para a depressão masculina, vacilavam na paternidade. O patriarcado ensina os homens a não buscarem ajuda, a esconder suas vulnerabilidades. Considerar o pessoal como político é considerá-lo como impessoal, quer dizer, que não é algo intrínseco, inato, algo metafísico, mas que diz respeito a hegemonias sociais, econômicas, culturais. E onde há relações de poder, já nos dizia Foucault, há resistência. Há quem não ceda, que nos mínimos detalhes se encontra em dissonância com essas hegemonias, com o regime político, econômico, institucional de produção da verdade.

Um alegre dia dos pais! Lutemos e procedamos com verdade e amor revolucionário!

Inaê Diana Ashokasundari Shravya

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