Uma breve história da “ideologia de gênero”

A extrema-direita quer vender-lhe uma teoria sobre sexo e gênero que não existe

 

Um novo termo está se colando no discurso dos conservadores ao redor do mundo.

No México, milhares de manifestantes denunciaram a propagação da “ideologia de gênero” em marchas contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em setembro de 2016. Semanas antes, grupos religiosos na Colômbia acusaram o governo de querer doutrinar crianças através da “ideologia de gênero” nas escolas; semanas depois, acusariam funcionários de governo de injetar formas similares de traição em um acordo de paz para pôr fim a meio século de guerra civil no país.

Ativistas na Espanha e Polônia têm utilizado a mesma frase em sua luta contra o reconhecimento de que a identidade de gênero e a orientação sexual vão mais além da heterossexualidade. Inclusive o Papa Francisco tem plantado a ideia, pedindo compaixão sacerdotal pelas pessoas que sofrem por sua identidade de gênero ou orientação sexual, mas rechaçando “o doutrinamento da teoria de gênero” e sua “colonização ideológica”.

O que é essa ideologia aparentemente onipresente que tem posto católicos e conservadores tão nervosos? Segundo eles, é uma cosmovisão, elaborada por lésbicas e feministas acadêmicas radicais, que sustenta que o gênero não tem nada a ver com as diferenças biológicas entre homens e mulheres, e pode ser escolhido voluntariamente. Caracterizam-na como uma perigosa linha de pensamento que ameaça contaminar as crianças e destruir a democracia.

De fato, a “ideologia de gênero” é uma invenção da direita. É uma miscelânea de ideias díspares desenvolvidas por diversos pensadores nos últimos 50 anos, ligados principalmente na mente de seus opositores. Realmente, ela não existe para além dos manifestos e cartazes de protesto de seus criadores, mas já os ajudou a alcançar algumas vitórias muito reais.

Fobia de gênero

A igreja católica e outros grupos conservadores têm sido contra a noção de que o gênero é uma série de comportamentos e traços que as sociedades constroem sobre o sexo biológico há muito tempo. Essa perspectiva vai contra suas ideias de como deve estar organizada a humanidade, baseada nos “valores familiares”. Se os papéis tradicionais de marido e mulher, pai e mãe, homem e mulher são simples construções sociais, então as identidades que vão além desses conceitos binários são igualmente válidas. Isso, do ponto de vista deles, injeta o caos na sociedade.

ideologia de gênero - católicos e evangélicos

A “ideologia de gênero” é o espantalho que inventaram para lutar contra essa ameaça. Suas origens remontam a duas cúpulas das Nações Unidas onde foram discutidas as desigualdades de gênero e os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres: a conferência sobre população e desenvolvimento, no Cairo, em 1994, e a conferência sobre a mulher, em Pequim, no ano seguinte.

Inclusive, antes das conferências, o Vaticano já havia denunciado de maneira preventiva o que afirmava serem esforços para unir o mundo a favor do aborto e do sexo com fins não reprodutivos, incluindo as relações entre pessoas do mesmo sexo. Alguns católicos se concentraram no termo “gênero”, chamando-o de cavalo de Troia, cujo propósito era introduzir políticas contra a família na sociedade, segundo David Paternotte, professor da Universidade Livre de Bruxelas que tem estudado o fenômeno da “ideologia de gênero”.

Essa ideia de gênero também lhes oferecia um marco muito poderoso para opor-se a essas e outras políticas, incluindo o casamento e a adoção homossexuais, a educação sexual nas escolas, o direito ao aborto, os métodos alternativos de reprodução e os direitos das pessoas transgêneras. Todos esses itens podem ser inseridos no conceito de “ideologia de gênero” e serem combatidos com o mesmo argumento: homens e mulheres não são iguais, mas complementares pelo seu desenho natural. O conceito é “um recipiente que se pode usar para diferentes propósitos”, diz Paternotte.

Os ativistas conservadores expuseram suas ideias em livros e manifestos, bem como no Lexicón: termos ambíguos e discutidos sobre a família, vida e questões éticas, um dicionário publicado em 2003 pelo Pontifício Conselho para a Família, do Vaticano. O propósito do Lexicón era expor a “linguagem orwelliana” que se estava utilizando para difundir a “ideologia de gênero” em todo o mundo. Por exemplo, no prefácio do livro, o cardeal Alfonso López Trujillo escreve que a frase “discriminação contra as mulheres” pode em princípio “provocar uma reação de simpatia”. Na realidade, explica, é um ataque à família, que se apresenta como “um lugar de escravidão moderna”.

“A família e a vida estão sendo literalmente bombardeadas por uma linguagem enganosa”, argumenta López Trujillo. “Sem a busca da verdade, o universo da liberdade se contamina e se põe em grave perigo”.

Entre os termos incluídos no Lexicón estão: “patriarcado”, “matriarcado”, “casamento homossexual” e, claro, “ideologia de gênero”.

As supostas fontes

Os opositores/criadores da “ideologia de gênero” atribuem o conceito a uma variedade de escritores, desde Simone de Beauvoir, a intelectual francesa que participou do movimento existencialista dos anos 1950, passando pelas feministas radicais dos anos setenta como Shulamith Firestone, até Judith Butler, uma filósofa e teórica do gênero que leciona na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Todos esses autores escreveram sobre gênero e usam algumas das palavras incluídas no Lexicón. Mas seu trabalho não pode ser interpretado como uma visão coesa do gênero, como argumentam seus opositores. A noção de que é parte de uma teoria única é uma “fantasia”, diz Camille Robcis, professora de História na Universidade de Cornell que estudou a implantação da “ideologia de gênero” na França.

Em primeiro lugar, afirma Robcis, os escritos dos supostos arquitetos da “ideologia de gênero” brotaram de diferentes contextos históricos – quando Beauvoir escreveu sua famosa frase “não se nasce mulher, torna-se mulher”, o rótulo LGBT ainda não existia.

As ideias desses pensadores, longe de serem uniformes, muitas vezes são muito mais complexas que as explicações simplistas que oferecem seus opositores. Vamos ao exemplo de Butler, uma das autoras mais criticadas por aqueles que lutam contra a suposta “ideologia de gênero”. Lê-la é um desafio – ou, de acordo com uma usuária do Quora, equivale a “chocar-se contra uma parede de borracha e roê-la para atravessá-la”. Não é o tipo de leitura que se possa reduzir a slogans simples, como “Queremos sexo, não gênero”, tal qual refletiam alguns cartazes usados nas manifestações francesas.

A “ideologia de gênero” também está baseada na falsa premissa de que seus presumidos promotores são parte de um movimento organizado com uma agenda comum.

Na verdade, os governos e os ativistas LGBT acusados de impor a “ideologia de gênero” nem sequer relacionam temas como o casamento gay com o aborto ou a educação sexual, como fazem seus opositores, diz Mary Anne Case, professora da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago.

“Tomara que estivéssemos tão unidos como o Vaticano crê que estamos e fôssemos tão poderosos”, diz Case, que escreveu sobre as origens da “ideologia de gênero”.

Na realidade, diz Case, tanto a “ideologia de gênero” como a conspiração contra a qual seus supostos defensores estão trabalhando juntos são invenções.

Estratégia brilhante

A “ideologia de gênero” tornou-se uma ferramenta de comunicação e persuasão muito eficaz. Isso ajuda àqueles que “lutam” contra ela a evitar uma linguagem abertamente homofóbica – a qual é proibida por lei em alguns países – e apresentar seus argumentos em termos seculares. Por exemplo, em lugar de dizer que o casamento entre pessoas do mesmo sexo vai contra os ensinamentos religiosos, os opositores da “ideologia de gênero” dizem que ele ameaça a ordem natural das coisas.

Em uma analogia utilizada por seus críticos, incluindo o Papa Bento XVI na bênção para o Natal de 2008, compara-se a condição de ser homem ou mulher a uma selva tropical em perigo de extinção. Em alguns materiais distribuídos por manifestantes franceses, a ex-ministra da Justiça francesa, Christiane Taubira, que propôs uma lei de casamento entre pessoas do mesmo sexo, aparece com uma motosserra em meio a uma floresta cortada.

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Ao simplificar demais os problemas, o conceito de “ideologia de gênero” é embalado por formas fáceis de entender e defender. “Um menino e uma menina não são a mesma coisa”, explica o vídeo da coalizão conservadora francesa La Manif Pour Tous. O vídeo afirma que, em nome da igualdade de gênero, os traços femininos e masculinos estão sendo misturados de uma maneira que confunde as crianças. “Sim, papai pode usar um vestido e batom. Sim, uma mulher pode conduzir um ônibus. Sim, um bebê pode ter duas mães ou dois pais.”

“Tem que deixar que as meninas sejam meninas. E os meninos sejam meninos”, conclui.

Com essa interpretação distorcida de gênero é muito fácil reunir pessoas que não conhecem as ideias mais complexas de intelectuais criticadas pelos conservadores. Assim, grupos conservadores podem convencer seus seguidores de que políticas que foram desenhadas para defender direitos humanos básicos – uma clara jurisdição estatal – são na realidade uma ideologia imposta por grupos marginais que não incumbe ao Estado. Dito de outra forma, grupos cujas políticas estão baseadas em crenças religiosas estão apresentando questões de gênero seculares como se fossem uma religião. É uma aula de mestre sobre o tipo de discurso orwelliano que eles pretendem combater.

Uma ideologia global

Ainda que a noção de “ideologia de gênero” exista há décadas, seu uso tem aumentado à medida que mais países abordam o tema dos direitos LGBT. Como observou Paternotte, professor da Universidade Livre de Bruxelas, as mobilizações conservadoras na Europa, incluindo a Eslováquia, Eslovênia, Bélgica, Lituânia e Polônia, foram respaldadas pelo conceito, embora o que as causou foi diferente em cada país.

Na França, por exemplo, o movimento inspirou centenas de milhares de manifestantes a saírem às ruas e fazerem pressão sobre o governo. Não conseguiu retirar de tramitação um projeto de lei para legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2013, mas parou outras propostas, como a concessão ao direito a usar tecnologias alternativas de reprodução a pessoas não heterossexuais, diz Bruno Perreau, professor do MIT que analisou o caso francês em Queer Theory: The French Response. “O governo tinha tanto medo de desencadear outra controvérsia que decidiram recuar”, diz.

Na Polônia, o partido direitista Direito e Justiça criou um grupo parlamentar para combater a suposta agenda do movimento da “ideologia de gênero”, diz Lukasz Szulc, pós-doutorando da Universidade de Amberes que examinou o exemplo polonês. A estratégia consolidou o apoio ao partido da influente igreja católica e ganhou a maioria nas eleições parlamentares de 2015.

Os líderes do Direito e Justiça lançaram uma iniciativa para reforçar ainda mais as já restritas leis de aborto da Polônia. A proposta foi escrita por Ordo Iuris, um grupo antiaborto que tem utilizado o discurso da “ideologia de gênero”. O projeto de lei foi rechaçado depois que milhares de mulheres polonesas marcharam contra ele. Todavia, existe a possibilidade de os legisladores do Direito e Justiça aprovarem uma lei de aborto mais dura que a existente, diz Szulc.

Na Espanha, os ativistas conservadores têm menos influência. Isso se deve em parte ao fato de, após quase quatro décadas de ditadura franquista, qualquer conexão entre igreja e Estado levanta suspeitas entre os espanhóis, segundo José Ignacio Pichardo Galán e Mónica Cornejo Valle, da Universidade Complutense de Madri.

Grupos conservadores organizaram várias missas ao ar livre no final dos anos 2000 para defender os “valores familiares” e advertirem que as medidas inspiradas pela “ideologia de gênero” resultariam em “um desvio para um regime totalitário”. Mas as leis a que se opuseram foram aprovadas e estão em vigor.

Isso não impediu que eles participassem do debate em outros lugares. HazteOir.org, um grupo que participou dos protestos espanhóis, recentemente reuniu assinaturas para apoiar os ativistas que lutam contra uma iniciativa presidencial no México para fazer do casamento entre pessoas do mesmo sexo um direito constitucional.

De fato, a “ideologia de gênero” está se disseminando por todo o mundo. O vídeo de La Manif Pour Tous sobre as diferenças entre meninos e meninas foi traduzido para o espanhol e está circulando no México. Uma líder do movimento colombiano viajou ao México para participar dos protestos de setembro. As coalizões conservadoras em ambos os países estão utilizando os mesmos argumentos, com as mesmas palavras.

O vídeo utilizado no México pelo grupo contra o aborto ViVoz diz que a ideologia de gênero leva à “gravidez adolescente, infecções sexualmente transmissíveis, aborto, depressão, suicídio”.

Por sua vez, um vídeo colombiano utiliza várias palavras iguais.

Essa é uma guerra, dizem os criadores dos vídeos, e o campo de batalha é a mente e os valores de “nossos filhos”.

“É praticamente copiar e colar”, diz Genaro Lozano, professor de Ciências Políticas da Universidade Iberoamericana do México e defensor dos direitos LGBT.

[Nosso blog] Quartz pediu entrevistas aos grupos que organizaram as manifestações no México, Colômbia e França, mas não recebeu nenhuma resposta.

Colômbia

Alguns dos efeitos mais tangíveis do uso da “ideologia de gênero” podem ser vistos na Colômbia. O enfrentamento começou com uma polêmica sobre um manual produzido pelo Ministério da Educação em convênio com o Fundo das Nações Unidas para a Infância. O manual foi concebido para ajudar os administradores escolares a cumprir uma ordem judicial de 2015 que pedia que as escolas revisassem suas normas para prevenir a discriminação baseada na orientação sexual. Depois que o documento foi compartilhado viralmente nas redes sociais, grupos de ativistas evangélicos e católicos organizaram protestos em todo o país. Dezenas de milhares de pessoas marcharam contra a ministra da Educação Gina Parody, que é lésbica, afirmando que ela queria impor a “ideologia de gênero” a seus filhos.

A pressão obrigou o presidente colombiano Juan Manuel Santos a suspender o manual e assegurar aos colombianos, em transmissão nacional, que “nem o Ministério da Educação, nem o governo federal implementaram ou promoveram, nem promoverão, a chamada ideologia de gênero”. Parody, evidentemente frustrada, insistiu no Senado dizendo que a “ideologia de gênero” não era mais que uma manipulação para desviar as discussões sobre o valor constitucional da dignidade humana.

“Por que falam de uma ideologia de gênero? De onde tiraram isso?” disse. “Isso introduz uma distorção muito complicada no debate político colombiano”.

Seu discurso apaixonado teve pouco efeito. Algumas semanas mais tarde, a “ideologia de gênero” surgiu de novo, desta vez no contexto do acordo de paz negociado entre o governo de Santos e as FARC. Os mesmos ativistas que haviam se indignado com o manual contra a discriminação criticaram agora a inclusão do termo “gênero” no acordo de paz de 297 páginas, o qual deveria ser aprovado pelos colombianos através de um plebiscito.

Os autores do texto do acordo incorporaram a linguagem sobre gênero no documento depois que alguns grupos de mulheres vítimas exigiram ser parte das conversações de paz. Seu objetivo era reparar os abusos cometidos contra as mulheres durante o conflito. Tinha pouco a ver com a orientação sexual ou a identidade de gênero, mas os líderes das marchas viram isso como uma imposição do que chamam de “lobby gay”.

“Se você me perguntar ‘Você quer a paz com as FARC?’ Eu digo ‘Sim!’”, disse Oswaldo Ortiz, um dos líderes do movimento, em um vídeo no YouTube. “Se você me diz ‘Você quer que esse acordo promova a ideologia de gênero como política pública?’ Eu digo ‘Não!”’.

A campanha, que incluiu uma sessão nacional de oração, continuou até os dias anteriores à votação. Ao final, os colombianos rechaçaram o tratado de paz por uma margem minúscula: pouco mais de 50.000 votos em cerca de 13 milhões. Após os resultados, Parody, que havia se licenciado de seu cargo no Ministério da Educação para dirigir a campanha a favor do acordo de paz, renunciou.

Tudo isso deixou os partidários do acordo de paz e dos direitos LGBT muito conscientes das consequências reais que pode ter a falsa “ideologia de gênero”. “Não existe na ciência ou na academia, mas existe na linguagem e na política”, diz Claudia López, uma senadora lésbica na Colômbia. “Teremos que enfrentar com uma linguagem adequada, com educação e competindo nas urnas”.

A teoria de gênero como arma

No entanto, não é uma luta fácil. Negar qualquer associação com a “ideologia de gênero” não ajudou muito a Santos. E sem outro contexto, possivelmente ele validou a ideia de que existe. Mas identificar a “ideologia de gênero” com o que é – uma ferramenta de manipulação inventada, tampouco ajudou Parody.

Então, qual a melhor forma de enfrentar a campanha de desinformação?

Perreau, professor do MIT, sugere que a melhor defesa está nos textos que os conservadores estão distorcendo. A “ideologia de gênero” pode não existir no modo como seus criadores a enquadram, mas há muito trabalho teórico sério sobre gênero. Uma melhor compreensão dessas ideias seria como uma vacina contra sua falsa representação. Entendê-las ajudaria as pessoas a perceberem que as verdadeiras especialistas na construção de gênero são as instituições religiosas.

O que mais, além de construções sociais, são as ideias de que uma mulher vem da costela de um homem, ou de que apenas os homens podem se tornar sacerdotes? E a noção de que a Virgem Maria procriou sem ter relações sexuais?

“Na realidade, é a igreja que acredita no criacionismo”, diz Perreau, “são eles que acreditam que é possível definir-se a partir de nada”.

 

Ana Campoy

O original deste texto – “A conspiracy theory about sex and gender is being peddled around the world by the far right” – foi publicado em novembro de 2016. Esta tradução foi feita a partir da versão espanhola, disponível no endereço https://qz.com/1012941/la-extrema-derecha-quiere-venderte-una-teoria-sobre-el-sexo-y-el-genero-que-no-existe/.

Tradução: Luiz Morando.

Assinaturas-Luiz

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